Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Sábado, Outubro 07, 2006

Meus amigos:
Em primeiro lugar quero agradecer todas as manifestações de preocupação e carinho que tenho recebido aqui no blog, por e-mail, telefonemas, etc. Na verdade não estou de férias. Estou atravessando um momento complicado de saúde, mas que em breve estará resolvido. No meu estado não há como escrever, daí o blog ter andado parado, o que não significa que abri mão dele ou do prazer de escrever. Aproveito para deixar um poema antigo, do qual gosto muito.

beijos gerais.

ofertório da saudade anunciada
esvai-se o tempo
abrindo o tampo
de tudo de tanto
que tento nas noites
escrever de fugaz
que escorre da cana
que quebra na cama
que doido se trai
que muda de uma
pra outra estação
que cobre o rosto
descobre que posto
que a vida que rouba
o rosto que morde
não fala não fala
no mudo ouvido
e todo sentido
que pode nascer
da porta aberta
que aperta o nome
do que nunca se soube
se houve ou se há
amarga a língua
de talagada
tango samba balada
a boca velada
a vela apagada
a luz que acende
sem meias verdades
sandálias descalças
vestindo saudades
nos meus olhos teus

:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:16 AM.:.

Terça-feira, Agosto 29, 2006

postado ao som de Mesmo Sozinho, com Nando Reis

máscara
respiro entre
o fio frio da faca
e o sabor
de lembranças
guardadas em sacos
plásticos

fujo e volto
volto e fujo
e finjo que
sou feliz


auto-retrato
o que vejo no espelho
quando me busco (em vão)
são apenas restos perdidos
do que já foi uma canção

:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:26 PM.:.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

postado ao som de Lua se São Jorge. com Caetano Veloso

brincadeira
tudo tão intenso
e eu repenso
o poema como
um vagalume perdido

ilumina
ilumina
ilumina
e fica-no-escondido


rumo
nasci no recife
entre guaiamuns
beberibes e aves brancas
que bicavam as estrelas
caídas nas águas

(foi quando resolvi
cultivar poemas)


mentiras
minto se digo
que consigo
viver sem a poesia
: ela é o instante
entre a noite e o dia

:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:56 PM.:.

Terça-feira, Julho 25, 2006

postado ao som de Senhas, com Adriana Calcanhoto

mínimos contos

Lirismo
Ele tocava violão. Ela tecia sonhos. Ele sonhava, ela cantava.
E nunca se encontravam.
Mas toda história tem que ter um final feliz.
Hoje ela sonha canções e ele canta seus sonhos em Si bemol maior.

Domingo
Um toque de batom nos lábios, lápis nos olhos. Ela está pronta.

- Amor, vamos ao cinema?

- Que cinema, mulher? Hoje tem futebol na televisão! Sossega!

Ela volta pro quarto e se despe, a última cena do filme que não viu escorrendo no rímel misturado com lágrimas.


Desencontro
Ele chega. Beija-a rapidamente e vai ao banheiro.

Talvez assista ao Jornal Nacional mais tarde. Aquele negócio no escritório hoje o deixou preocupado. Isso é o que importa naquele momento pra ele.

Ela mal se move da poltrona em frente ao computador.

Dedos rápidos, face iluminada pela luz do monitor, concentrada. E-mails, mensagens instantâneas, sentimentos e sensações. Isso é o que importa naquele momento pra ela.

Na mesa da sala, a janta esfria solitária.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:25 AM.:.

Terça-feira, Julho 11, 2006

postado ao som de Admirável Gado Novo, com Cássia Eller

"Poderoso para mim è aquele que descobre as insignificâncias: do mundo e as nossas. Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios."
Manoel de Barros


rebanho
nem sempre as palavras são meu reflexo no espelho. podem ser lembranças recém-despertas, podem ser vidas mínimas que encontro nas ruas. as palavras, elas não me fazem. eu as caço, as aboio e as empurro ladeira acima para que compreendam que podem ser (também) poesia.


delírio
as formigas não choram
quando morrem
: se transformam
em traços dourados
na areia

migração
a lâmina curva
do rio rasga estradas
e estrelas em mim
e se perde nos confins
dos fins-do-mundo


lembranças
há gosto de eternidade
em poemas e canções
que empilho sobre
árvores-bailarinas-de-vendavais


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:43 AM.:.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

postado ao som de Stardust, com a Glenn Miller Orchestra

suicídio
estiquei tanto
a linha do horizonte
que as estrelas arrancaram
seus pregos
e se jogaram
tolamente no mar


comparação
hoje o homem
me parou na rua
com olhos de fome
e boca de pedir

a minha fome fez-se
torta de sonhos
e vazia da vontade de beber
o que ainda restava de vida


procissão
é um dia depois do outro
nessa fila inconsistente
de cacos de degraus
restos de praias
e canções esquecidas de mim


pequena cena
dizem que a história se repete. eu mesmo já encontrei caramujos descansando à beira-mar, enquanto os pardais brincavam de comer bichinhos na areia. mas toda vez que olho, confesso que encontro nuances diferentes nas mesmas coisas. umas mais claras, outras mergulhadas em uma certa escuridão. mas a essência é sempre a mesma: a poesia que gruda em mim, que me atormenta, que me faz escrever compulsivamente. como se vida fosse apenas poesia.

notas:

- mais poemeus traduzidos para o italiano pela Rosella, do Diario di Bottega. estou me acostumando mal.

- um poemeu publicado na revista eletrônica Desfolhar.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:50 AM.:.

Segunda-feira, Julho 03, 2006

postado ao som de When I´m Sixty-four, com John Pizarelli

oração
a sombra impiedosa
devorou o tanto
de luz que ainda
restava nas tardes


julho
que me importa
se a chuva despenca
ladeira abaixo?

que me importa
se minhas roupas
completam a paisagem?

é inverno
e por toda parte
há frio em mim


renascimento
uma folha seca cinza
espera em calma
o instante
de reverdejar a vida


obscuridade
de que adianta toda a poesia que bebo cotidianamente se não consigo digerir a vida? de que adianta me embebedar com versos ácidos se minhas sombras sobrevivem ao caos? talvez seja preciso reescrever a história e devolver à poesia a liberdade perdida.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 5:44 PM.:.

Quarta-feira, Junho 28, 2006

postado ao som de Blue Velvet, com Brenda Lee

dúvida
não sei mais
o que o ruído
da noite quer mostrar

prefiro encostar-me
nas aparas do silêncio
e viver as estrelas


filme de terror
o medo que me
segreda ao ouvido
é mais faminto
do que a fome
das formigas tontas
que ainda perambulam
pelo meu quarto


de poetas, poemas e leituras
meus amigos poetas
me aprontam
pedaços de poemas
que engasto nos olhos
e guardo nos dedos


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:06 PM.:.

Terça-feira, Junho 20, 2006

postado ao som de Cajuína, com Elba Ramalho

valsinha
quando me entristeço
demito anjos e querubins
espalho penas e asas
por sobre as estrelas
e me afasto de mim


mendigo
preciso aprender
os sons das estrelas
e os gritos do mar

preciso aprender
o múrmurio do sonho
e o sopro da tarde

preciso que a voz
não se cale em mim
e que a poesia
continue na estrada


cumplicidade
minha língua
serpenteia
em tuas umidades

minha mão
encurrala
teu desaguar

sou surdo
dos teus gritos
e aconteço depois


nota: mais poemas traduzidos para o italiano pela Rosella, de Diario di Bottega:

inondazione II
oggi un fiume
è accaduto
tra i miei alberi

erano così tante acque
che i passeri
pizzicavano stelle

nel frattempo
io bagnavo i piedi
sul bordo dello specchio


rivoluzione urbana
farò sciogliere
asfalti
e demolire
cementi
con due versi
e una chitarra

quello che voglio sono
grilli
uccelli
pipistrelli
e lumache
nei miei poemi
prima che si mescolino
con le pareti
stupide della città
e mi lascino solo.


big-bang
poesia
è quando l'universo
si mischia con le parole
degli imperfetti uomini


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:52 AM.:.

Quarta-feira, Junho 14, 2006

postado ao som de Cecilia, com Simon e Garfunkel

lição de casa
posso entender as dores
posso saber dos ventos soltos
e dos ocasos agressivos

posso conhecer o canto
dos anjos bêbados da madrugada
e a voz rouca dos cães em serenata

posso saber isso tudo
conhecer isso tudo
e ainda assim
me desconhecer


férias
sei que a poesia
viajou
pegou um trem-doido-qualquer
e se foi
pro japão
pra shangrilá
pra adis-abeba
e sei lá eu pra onde mais

levou virgulas
pontos
exclamações
pedaços do sono
e as minhas
interrogações


Cecília
(para Cecilia, filha do meu amigo Renato e que vai completar um aninho em breve)

quando ela espalha
o sorriso no rosto
e chama com os olhos
o mundo pára e fica
uma felicidade só


nota
A minha amiga Angela Lara, de Porto Alegre, me presenteou com um e-book. Achei interessante a idéia do livro eletrônico e agradeço a ela pelo carinho e pela gentileza. Para ver e baixar o livro, o endereço é http://www.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=173142.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:05 AM.:.