postado ao som de Senhas, com Adriana Calcanhoto
mínimos contos
Lirismo
Ele tocava violão. Ela tecia sonhos. Ele sonhava, ela cantava.
E nunca se encontravam.
Mas toda história tem que ter um final feliz.
Hoje ela sonha canções e ele canta seus sonhos em Si bemol maior.
Domingo
Um toque de batom nos lábios, lápis nos olhos. Ela está pronta.
- Amor, vamos ao cinema?
- Que cinema, mulher? Hoje tem futebol na televisão! Sossega!
Ela volta pro quarto e se despe, a última cena do filme que não viu escorrendo no rímel misturado com lágrimas.
Desencontro
Ele chega. Beija-a rapidamente e vai ao banheiro.
Talvez assista ao Jornal Nacional mais tarde. Aquele negócio no escritório hoje o deixou preocupado. Isso é o que importa naquele momento pra ele.
Ela mal se move da poltrona em frente ao computador.
Dedos rápidos, face iluminada pela luz do monitor, concentrada. E-mails, mensagens instantâneas, sentimentos e sensações. Isso é o que importa naquele momento pra ela.
Na mesa da sala, a janta esfria solitária.
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Nel Meirelles
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11:25 AM.:.
postado ao som de Admirável Gado Novo, com Cássia Eller
"Poderoso para mim è aquele que descobre as insignificâncias: do mundo e as nossas. Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios."
Manoel de Barros
rebanho
nem sempre as palavras são meu reflexo no espelho. podem ser lembranças recém-despertas, podem ser vidas mínimas que encontro nas ruas. as palavras, elas não me fazem. eu as caço, as aboio e as empurro ladeira acima para que compreendam que podem ser (também) poesia.
delírio
as formigas não choram
quando morrem
: se transformam
em traços dourados
na areia
migração
a lâmina curva
do rio rasga estradas
e estrelas em mim
e se perde nos confins
dos fins-do-mundo
lembranças
há gosto de eternidade
em poemas e canções
que empilho sobre
árvores-bailarinas-de-vendavais
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Nel Meirelles
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10:43 AM.:.
Sexta-feira, Julho 07, 2006
postado ao som de Stardust, com a Glenn Miller Orchestra
suicídio
estiquei tanto
a linha do horizonte
que as estrelas arrancaram
seus pregos
e se jogaram
tolamente no mar
comparação
hoje o homem
me parou na rua
com olhos de fome
e boca de pedir
a minha fome fez-se
torta de sonhos
e vazia da vontade de beber
o que ainda restava de vida
procissão
é um dia depois do outro
nessa fila inconsistente
de cacos de degraus
restos de praias
e canções esquecidas de mim
pequena cena
dizem que a história se repete. eu mesmo já encontrei caramujos descansando à beira-mar, enquanto os pardais brincavam de comer bichinhos na areia. mas toda vez que olho, confesso que encontro nuances diferentes nas mesmas coisas. umas mais claras, outras mergulhadas em uma certa escuridão. mas a essência é sempre a mesma: a poesia que gruda em mim, que me atormenta, que me faz escrever compulsivamente. como se vida fosse apenas poesia.
notas:
- mais poemeus traduzidos para o italiano pela
Rosella, do
Diario di Bottega. estou me acostumando mal.
- um poemeu publicado na revista eletrônica
Desfolhar.
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Nel Meirelles
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11:50 AM.:.
Segunda-feira, Julho 03, 2006
postado ao som de When I´m Sixty-four, com John Pizarelli
oração
a sombra impiedosa
devorou o tanto
de luz que ainda
restava nas tardes
julho
que me importa
se a chuva despenca
ladeira abaixo?
que me importa
se minhas roupas
completam a paisagem?
é inverno
e por toda parte
há frio em mim
renascimento
uma folha seca cinza
espera em calma
o instante
de reverdejar a vida
obscuridade
de que adianta toda a poesia que bebo cotidianamente se não consigo digerir a vida? de que adianta me embebedar com versos ácidos se minhas sombras sobrevivem ao caos? talvez seja preciso reescrever a história e devolver à poesia a liberdade perdida.
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Nel Meirelles
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5:44 PM.:.
Quarta-feira, Junho 28, 2006
postado ao som de Blue Velvet, com Brenda Lee
dúvida
não sei mais
o que o ruído
da noite quer mostrar
prefiro encostar-me
nas aparas do silêncio
e viver as estrelas
filme de terror
o medo que me
segreda ao ouvido
é mais faminto
do que a fome
das formigas tontas
que ainda perambulam
pelo meu quarto
de poetas, poemas e leituras
meus amigos poetas
me aprontam
pedaços de poemas
que engasto nos olhos
e guardo nos dedos
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Nel Meirelles
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2:06 PM.:.
Terça-feira, Junho 20, 2006
postado ao som de Cajuína, com Elba Ramalho
valsinha
quando me entristeço
demito anjos e querubins
espalho penas e asas
por sobre as estrelas
e me afasto de mim
mendigo
preciso aprender
os sons das estrelas
e os gritos do mar
preciso aprender
o múrmurio do sonho
e o sopro da tarde
preciso que a voz
não se cale em mim
e que a poesia
continue na estrada
cumplicidade
minha língua
serpenteia
em tuas umidades
minha mão
encurrala
teu desaguar
sou surdo
dos teus gritos
e aconteço depois
nota: mais poemas traduzidos para o italiano pela
Rosella, de
Diario di Bottega:
inondazione II
oggi un fiume
è accaduto
tra i miei alberi
erano così tante acque
che i passeri
pizzicavano stelle
nel frattempo
io bagnavo i piedi
sul bordo dello specchio
rivoluzione urbana
farò sciogliere
asfalti
e demolire
cementi
con due versi
e una chitarra
quello che voglio sono
grilli
uccelli
pipistrelli
e lumache
nei miei poemi
prima che si mescolino
con le pareti
stupide della città
e mi lascino solo.
big-bang
poesia
è quando l'universo
si mischia con le parole
degli imperfetti uomini
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Nel Meirelles
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9:52 AM.:.
Quarta-feira, Junho 14, 2006
postado ao som de Cecilia, com Simon e Garfunkel
lição de casa
posso entender as dores
posso saber dos ventos soltos
e dos ocasos agressivos
posso conhecer o canto
dos anjos bêbados da madrugada
e a voz rouca dos cães em serenata
posso saber isso tudo
conhecer isso tudo
e ainda assim
me desconhecer
férias
sei que a poesia
viajou
pegou um trem-doido-qualquer
e se foi
pro japão
pra shangrilá
pra adis-abeba
e sei lá eu pra onde mais
levou virgulas
pontos
exclamações
pedaços do sono
e as minhas
interrogações
Cecília
(para Cecilia, filha do meu amigo Renato e que vai completar um aninho em breve)
quando ela espalha
o sorriso no rosto
e chama com os olhos
o mundo pára e fica
uma felicidade só
nota
A minha amiga
Angela Lara, de Porto Alegre, me presenteou com um e-book. Achei interessante a idéia do livro eletrônico e agradeço a ela pelo carinho e pela gentileza. Para ver e baixar o livro, o endereço é
http://www.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=173142.
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Nel Meirelles
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9:05 AM.:.