Dez tragadas no cigarro
Acendo o cigarro
O computador me chamando prá ele, me puxando, me provocando. Venho e me sento na poltrona. Acendo meu cigarro.
Primeira tragada
Sei que é tempo de ser feliz. É tempo de prestar atenção nas coisinhas que passam por mim e que até ontem eu não olharia com mais cuidado. Até mesmo o latido insistente do cachorro viralatas preto do vizinho de frente tem beleza. A voz dele é grave e eu a diferencio das vozes dos demais cães da minha rua. Voz de tenor, Pavarotti se apresentando para uma platéia onde me incluo, nesta manhãzinha de outono. Ouvinte atento dele e da vida.
Segunda tragada
As lembranças da infância na Ilha do Governador, das pescarias de madrugada com os amigos e do prazer de cozinhar tatuís na beira da praia. De tirar a cocoroca do anzol e ouvir seu ronco. Sou um homem feito de sons e voltado para os sons. Daí meu lado músico, minha porção piano/violão, minha porção Tom Jobim e Caetano.
Terceira tragada
Algumas moedas espalhadas ao léu sobre a mesa, um maço de cigarros pela metade, um isqueiro, duas canetas, óculos escuros, dois cds de conteúdo desconhecido, um pedaço da minha alma caido atrás do monitor. Preciso juntar isso tudo e organizar a mesa.
Quarta tragada
Esvazio o cinzeiro e penso em escrever alguma coisa que faça você, meu enésimo leitor, me achar um intelectual. Quem sabe um ensaio sobre os caminhos da poesia moderna brasileira, ou de como a cultura negra americana veio se fundir com elementos da nossa cultura..... Não, esse não sou eu! Cansei de ler imbecilidades e de pseudo-intelectuais vomitando besteiras para meia dúzia de aduladores. Cansei de ler pseudo-intelectuais inexpressivos criticando nossos ícones, talvez como uma patética tentativa de auto-promoção... e a corja de aduladores babando... Isso me enoja. Despejo o conteúdo do cinzeiro no vaso e puxo a descarga. Filme do Almodóvar de novo não!
Quinta tragada
Escrever assim é novidade prá mim. Experimento. Rabisco. Busco. Abobrinhas perdidas talvez. Você gosta de ler uma abobrinha de vez em quando? Ou prefere poesia? Ou prefere ainda um conto? Quem sabe um dia desses tento escrever um conto ou invento uma entrevista que nunca dei ?
Prefiro escutar o CD da Glaucia Nasser.
Sexta tragada
O telefone toca. É a milésima vez que procuram um tal de Soares no meu número. Ou ele é uma pessoa muito querida ou está devendo a Deus e o mundo. Eu quase não recebo telefonemas, mas e-mails de montão. E quer saber? Sinto saudades de receber uma carta manuscrita, de recohecer a caligrafia no envelope e começar a ficar feliz antes mesmo de ler a carta. Você reconheceria a caligrafia do seu melhor amigo?
Sétima tragada
Recebo um e-mail com um pequeno poema. Gostei. É bem a minha cara. E continuo sem conseguir escrever unzinho que seja. Talvez seja uma certa alergia a coisas que escrevi e nunca mostrei/postei; talvez as minhas artérias poéticas estejam ficando entupidas e eu precise fazer um cateterismo na alma. Não sei.
Oitava tragada
Me dispo de vergonhas e exponho sonhos aqui. Crio coisas na cabeça e transporto pro coração. Insanidade, quem sabe? Escrever me traz de volta prá realidade, prás coisas práticas. Lembrei que preciso beber água. O copo ainda está sujo sobre a pia e estou com preguiça de lavar. Bebo da garrafa mesmo.
Nona tragada
Abro o chuveiro. pego um sabonete novo no armário. Phebo. Gosto do cheiro de limpeza dele. Mas fico indeciso entre o banho e terminar esse cigarro. Decido continuar. A água, eu vou deixar escorrendo. As palavras também. Que elas saiam como quiserem, assim mesmo.
Décima tragada
Planto você nua e colho prazer. Me embalo nos teus cabelos e descubro recantos secretos, desvios, dobras, cheiros novos, sabores que nunca provei antes. Quase me arrepio. Ou me arrepio. Pele e pele. Quer saber? Eu queria mesmo era um beijo da tua boca agora.
Vou trabalhar.
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Nel Meirelles
::
9:03 AM.:.
Trio
Fugidio
deixo escapar um poema
quase que por desacato
embora a mão ainda me trema
faço desse ato um fato
Bordado
pinto e bordo na sala branca
com dedos e corpo alado
agora, amiga, seja franca:
gosta desse bordado?
Tentativa
quero escrever um haicai
que escorrega pela mesa
e lentamente se esvai
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Nel Meirelles
::
9:28 PM.:.
Domingo, Abril 25, 2004
Melancolia
domingo frio
a chuva toma banho de mar
na praia cinzenta
no banco do carro
parado
vagueio
entre o cd do Renato Russo
e a vontade de dormir
ver filme de Fellini
ou ouvir La Traviata
pela enésima vez
vou prá casa
me enoja o non-sense
do apresentador gordo
da TV
percebo a inutilidade
do livro amarelado
que esqueci ontem
aberto sobre
o sofá vermelho
desmaio
restam em cima da mesa
as cartelas vazias
do anti-gripal
e a melancolia
da foto
gasta
de tanto olhar
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Nel Meirelles
::
7:46 PM.:.
Trégua
não era ainda ocaso
nem a migração
de verão dos pássaros
o que havia sentido
no negrume
da madrugada quente
parecia mais trégua
do que combate
e trazia gosto
de leite morno
que bebi com sofreguidão
não, não era ocaso.
talvez a canção que ressoava
nos meus ouvidos surdos
ou o olhar que meus olhos cansados
teimavam em não perceber
pudessem definir o instante perene
não, não era e nem é ocaso.
bruma envolvente e passageira, talvez
prenúncio de cores lilases e vermelhas
da nova aurora que virá
como sempre vem
como sempre virá
como sempre sei
e será.
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Nel Meirelles
::
11:12 AM.:.
Sexta-feira, Abril 23, 2004
Pescaria
som surdo de motor ligado
3000 giros transportando
cerveja e esperanças
linhas, anzóis, varas
homens ou crianças?
barulho de ondas
fazendo cócegas
no velho casco de madeira
que sorri
e estala ao mesmo tempo
preparação de anzóis
linhas esticadas
como fibras do meu coração
que bate forte, mais forte
ao sentir o vento norte
lambendo minha cara
vida é isso vida
barco solto no espaço
navegante sereno
peixe que não acaba mais
pescaria
mar tão pequeno
prá caber a minha paz...
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Nel Meirelles
::
12:21 PM.:.
Manhã
manhãzinha sonolenta
de subúrbio carioca
acorda preguiçosa como eu
coral de cães latindo
para saudar o sol
as mulheres apressadas
indo à feira
com suas sacolas coloridas
buscando frutas
e ilusões
crianças correndo
atrás do sonho esférico
cheiro de café escapando
célere do bule
sonhos que foram sonhados
na noite que mal terminou
ainda se espreguiçam em mim
manhãzinha de sol
esquentando aos poucos
as minhas vontades
no caminho à beira-mar
pequenos peixes pretos
saltam
disputando uma olimpiada
particular
em busca de calor
nas águas do Rio de Janeiro.
assim como eu
busco o ano inteiro
manhãzinha de sol
saudosa de pedir
café na padaria
à moça de avental azul
da beira da praia
de areias úmidas
e do velho pescador
que um dia foi artista
e que derrama
suas histórias
ns meus ouvidos atentos
manhãzinha de sol
que ainda nem nasceu direito
que já brilha tanto
no meu despertar
prá vida...
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Nel Meirelles
::
8:53 AM.:.
Quinta-feira, Abril 22, 2004
Pequeno poema
pedras de jardim
encolhidas no canto
traços de mim
que espalho (mas nem tanto)
perfume de jasmim
com o qual me encanto
sou paz, enfim,
acabou meu pranto.
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::
8:44 PM.:.
Artista
(para José Luiz Benicio)
o artista
traça traços delicados
na branca folha de papel,
transforma o nada em tudo
e brinca de fazer vida.
olhares, mãos, pele e sonhos
estampados nas faces concebidas
e nos sonhos derramados
pelo olhar sonhador
desenha,
pinta,
atribui
desejos,
vontades
em linhas esquecidas
nos tempos do passado.
poemas-desenhos
desenhados-escritos
por mãos de artista
e coração de poeta,
qual as canções
nascendo das teclas do piano de cauda
no canto da sala
por onde a alma flui
nas noites de sábado.
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Nel Meirelles
::
1:19 PM.:.
Poesia
rabisco rotas palavras
nas rotas de ser
crio e recrio mundos
preso às minhas teias
onde me expresso
me emaranho
me liberto
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::
1:14 PM.:.
Dualidade
vivo entre os versos que escrevo
e as notas da canção
que se espalha
com o vento morno da tarde,
como luz de luar se banhando
nas águas da Baia da GUanabara
vista do Aterro do Flamengo
quando vagueio pela madrugada
no meu carro ouvindo Caetano.
vivo entre sonhos e verdades,
entre nuvens esparsas
que pairam sobre esse meu céu particular,
esse pedacinho mesmo que fica aqui,
em cima da minha casa,
e que visito todos os dias
por entre os ramos
da mangueira carregada
de frutas e de sonhos.
vivo entre o rubro do meu peito
e o negro da noite,
compondo o rubro-negro
da minha paixão de bola.
vivo entre ser ou não ser
poeta e músico,
entre cantar uma canção nova
ou reentoar aquela do Beto Guedes
que ilumina os rios de Lumiar.
vivo intensamente cada instante de luz
e amo plenamente cada estrela
das minhas madrugadas insones.
vivo. renasço.
morro. cresço.
esqueço. reaprendo.
sou dualidade perene.
assim. solene.
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::
11:33 AM.:.
Violando
meus dedos encurvados
traçam notas e canções
nas cordas tortas
do violão,
ecoando nas suburbanas noites cariocas
qual esparsos pirilampos
espantando por instantes
a escuridão.
cordas e notas,
canções e estrelas,
tudo misturado
misturando tudo
enquanto pessoas passam
apressadas e sem destino,
qual pequenas lesmas se arrastando
no meio do nada.
arremesso sons
ouvidos moucos.
meus dedos dançam
nos trastes de bronze
e me perguntam
se eles te tocam
como acariciam estas cordas.
virtuoso
ou amador
nos segredos
dos teus sons
e no silêncio intrigante
das tuas canções,
toco e toco de novo
buscando respostas
caçando sonhos
bebendo ilusões
violando tua alma
com uma canção do Cazuza
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Nel Meirelles
::
11:33 AM.:.
Ômega e Alfa
trancado na minha paz
reconstruída
com meus duros punhos
vejo por entre grades
de novo vida.
grávido de mim mesmo,
empunho francas/brancas bandeiras
desarmo meus simétricos canhões
e desfolho canções
nas brumas
que se esvaem
lentamente
sou ômega e alfa,
poeta e vagabundo,
dono de meu destino
e escravo da poesia.
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Nel Meirelles
::
11:32 AM.:.
Genêsis XXVI
Crio
não como ator-autor
manipulando pseudo-palavras
pseudo-sentimentos
pseudo-vazios
não como brincar
com vida e letra
e defecar fedidos
poemas abstratos
ocos
chocos.
escrevo como quem pare.
como galinha que bota ovo.,
corte de caco de vidro no dedo do pé,
dor de dente,
cio não satisfeito,
porrada na cara,
hematoma de faca sem ponta,
lanho sangrento na face.
nasce palavra e vive emoção.
poema-eu-poema-eu-poema
poemeu
poetizando-eu-poema
crio, recrio, procrio
cada letra como filho
largado no mundo
ou espermatozoide
que escorre pelo ralo
quando me masturbo de mim.
sem eira nem beira
palavra
poema
po(ema)lavra
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Nel Meirelles
::
11:31 AM.:.
Passos
caminho na estrada da poeira
mastigando estrelas
cantando vida
um amigo ou dois ao lado,
minha viola
derrama canções luminosas
na beira do caminho
que se refletem na água
da chuva que (ainda) cai.
mágica música
musa matinal
poda meus pés
antes que meus passos
encontrem destino
e pousem no cúbico começo
de tudo.
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Nel Meirelles
::
11:30 AM.:.
Fera Minha
ruge no meu peito
um animal faminto e indócil
venenoso e fatal às vezes
doce e manso outras mais;
mistura de herói e vilão
antítese do bem,
mal latente que emerge
nas sombras da noite.
sangra no meu peito
os lanhos das unhas dessa fera
que no escuro como que me espera
em traiçoeira tocaia
traçando o bote mortal
mora no meu peito
um faminto e indócil menino
repleto de presença,
dorido de ausência
e soluços matinais,
sendo (re)construído
nos sonhos que quer sonhar.
morre no caos desse meu peito
um homem - sereno outrora,
pulsando pela vida afora
a agonia do ser e do não ser
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Nel Meirelles
::
11:30 AM.:.
Arquitetura
traço espaços de nada
com palavras e rimas.
preencho vazios de mim
faço-escrevo
paredes que cercam
meu destino que não conheço
e que confesso,
conhecer não careço.
arquiteto de sonhos
construtor de mundos
escoro nas pilastras antigas
o futuro de mim
me enjaulo no meu
pequeno espaço-tempo
quase atemporal
rosno mais um verso
como cântico de amor.
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::
11:29 AM.:.
Filha-Flávia
faz(Flavia)parte de mim
feita de mim
dentro e fora
pele e sangue
menina Flávia
menina sempre
sempre filha
minha filha
braços pequenos
abraços
e beijos
pequenos-grandes
de ternura e inocência
amor, minha filha.
meus olhos cansados
brilham nos olhos
da minha filha.
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Nel Meirelles
::
11:29 AM.:.
Chuva de Domingo
hoje é domingo
e chove.
daquelas chuvas fininhas
que entram na alma
e deixam pequenos riachos prateados
traçados indelevelmente...
hoje é domingo,
é noite
e chove.
não há frio,
apenas chuva.
vontade de ficar
sentado, olhando o nada
com cara de paisagem...
descubro
que meu nome
é sábado.
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Nel Meirelles
::
11:28 AM.:.
Amanhecer
meus olhos se abrem
e te vejo, ainda entregue
aos teus sonhos....
meus sonhos se tornam reais
no momento
em que te toco suavemente
e te dou bom dia
com gosto de amor
na boca
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Nel Meirelles
::
11:27 AM.:.
Busca
hoje andei procurando
pedaços de ti espalhados no mundo.
encontrei-te, presente e passado,
minha e não-minha
mas te encontrei.
recortei pequenos detalhes,
guardei nas minhas tranqueiras
doidivanas do coração.
coloquei-te mais ainda dentro de mim.
troquei teu nome nos versos
e os nomes escondidos
nos teus versos por meu nome.
...quer saber?
te amo. ponto.
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Nel Meirelles
::
11:27 AM.:.
Estrelas
quando minha mão
tateia teu corpo e tua alma,
quando minha boca
penetra nos teus segredos
úmidos e profundos,
e me dou a ti
qual menino
buscando saciar
a minha imensa fome,
és água e és alimento
e és meu paraíso,
como me mostram
as estrelas penduradas
em teu corpo,
que estranhamente chamas
por outro nome
sem perceberes
que elas são
meu norte e meu rumo
no caminho
para nosso amor....
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Nel Meirelles
::
11:26 AM.:.
Chegança
chego
meio sem graça,
meio de repente,
trazendo em mim
as marcas
do que fui, sou e serei.
chego
trazendo canção e silêncio,
escuridão às vezes
e às vezes luz;
chego
como quem nasce,
como quem pare um filho,
como ave arribando.
chego. é só.
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Nel Meirelles
::
11:25 AM.:.
Bailarina
a bailarina
na festa pagã
molda leve dança
à guisa de brisa suave,
evocando deuses
há muito esquecidos.
a bailarina
brilha sob a lua de sabado
com tal graça e tal leveza
que mantem a chama acesa
da divindade e do mortal,
qual oração profana
que se profere em profanos rituais
a bailarina
deixa o tempo estático
com seus delicados passos
transmutando morte em vida
- gênesis da madrugada -
e vida em sopros de ternura.
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Nel Meirelles
::
11:22 AM.:.