Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Segunda-feira, Maio 31, 2004

três cantigas de nascer


born to be wild

quanto de ti
mais perto
mais de mim
me disto

em tua língua
selvagem
simplesmente
existo


born to be free

me dominas
primeiro

te lambuzas
depois

eu
livre

prisioneiro
enjaulado
em nós dois


born to kill

consumo
no teu corpo
o ato:

de prazer
tu morres

de prazer
me mato


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:33 AM.:.

Sexta-feira, Maio 28, 2004

Xifópagos

Existe em todo homem um poeta e em todo poeta um homem.

Como xifópagos, entretanto, apesar de intimamente ligados, são seres diferentes, cada qual com suas próprias características, sonhos e vontades.

O poeta arruma palavras, brinca com as sílabas, experimenta sonoridades.
O homem arruma a vida, trabalha, faz a barba, lê, vai ao cinema e pega ônibus.

O poeta transforma o cotidiano em sonhos.
O homem vive seu cotidiano. E sonha.

O poeta é livre para criar.
O homem é docemente aprisionado pelo amor.

Em mim habitam os dois.

Tento ser poeta e colocar vida em palavras.
Sou homem. Amo uma mulher.

O poeta gosta de ser lido. Gosta que gostem dos seus escritos. Gosta de críticas e elogios.
O homem gosta de estar com a sua mulher, gosta que ela lhe leia a alma.

O poeta se expõe e sangra poemas por todos os poros.
O homem se reserva aqui e se abre apenas para sua mulher.

Das palavras que comete, vive o poeta.
Do amor de sua mulher, vive o homem.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:58 AM.:.

Quinta-feira, Maio 27, 2004

torrente sanguinária

meu coração
aninha
trilhas tortas
roucos riachos
onde meu sangue
latinoamericano
serpenteia
alucinadamente
sin perder la ternura jamás

meu coração
tórrida torrente
onde meus sonhos
giram e giram e giram
sanguinariamente
transformando
sangue
em poesia


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:31 AM.:.

Quarta-feira, Maio 26, 2004

post mortem

quatro lâmpadas amarelas queimadas
uma escada de alumínio faltando um degrau
dois pares de olhos ardendo
resto de sorvete de morango
uma caixa de leite embolorado
um lado de peito doendo

um filme B em VHS
um sorriso velho
jogado no fundo do armário
dois versos de pé quebrado
um par de sapatos sem uso
duas feridas sangrando
um tubo de pasta dental
(apertado no meio)
uma meia fina de fio puxado
a mala de couro
uma jóia de ouro
jornais do ano passado
na área de serviço

réquiem
do amor


:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:06 PM.:.

Terça-feira, Maio 25, 2004

Dose Dupla


dry martini

nem muito seco
nem extra doce

somente
o ponto exato
do que você quisera
que eu fosse



serial killer

caço poesia
mato versos

os que
me escapam
jazem aqui

dispersos



:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:34 AM.:.

Segunda-feira, Maio 24, 2004

Oco

sem teu sorriso
minha boca esquece as palavras
sem teus olhos
apago meu sonho no cinzeiro
sem tuas coxas
meu desejo viaja pro Japão
sem tuas mãos
minhas mãos perdem os dedos


Desistiu de escrever. O rádio estava desligado. Havia certo marasmo no ar, prenúncio de tarde espessa.

O incenso já tinha acinzentado a mesa. Vaga sensação de vazio.

Virou-se de novo no sofá, tentando uma forma de reencontrar o que ficou perdido. Desencontrou. Desencantou. Levantou-se, descalço. Foi à cozinha. Cafeteira pela metade, líquido morno,marrom e espesso. Serviu-se, distraído.

Bebeu sem vontade, sem açucar, sem sonho.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:09 PM.:.

Sexta-feira, Maio 21, 2004

Almoço

pedaços de tempo
nos cabelos brancos
do meu pai
de sobremesa
a doce ternura
da minha mãe
meu almoço

na velha goiabeira
do quintal
uma sabiá
descobria
o gosto
da fruta madura
que
inconsequente
esqueci
um dia de colher


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:39 PM.:.

Quinta-feira, Maio 20, 2004

noite-dia

amanheço
dispo minha pele
visto teu desejo
umedeço
minha garganta
sedenta
com teu beijo
com teu gozo

peco
me absolvo
peco de novo

com teu gozo
com teu beijo
sedenta
minha garganta
se umedece
veste teu desejo
despido de minha pele
anoiteço


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:51 AM.:.

Quarta-feira, Maio 19, 2004

simplesmente doce

transitas em mim
simplicidade
de flor aberta
de menina descalça
jabuticaba madura
manga perfumada
riacho de montanha
bala de menta
drops de hortelã
mariola roubada
da padaria
da esquina
ou pão doce
somente
com creme
amarelo
(sem frutas secas)

te espalhas em mim
água da chuva
perfumando
terra seca
suco de abacaxi
rocambole
de doce de leite
rabanada de Natal
no dia seguinte
pescaria em Maricá
às seis da manhã

te fartas em mim
suculentamente
com boca de comer
com boca de beijar
com boca de língua quente
com boca de me lamber
o último suspiro
a última gota de orvalho
caída da última chuva
no ultimo minuto

eu
menino
de bodoque
e pipa no ar
tão somente
te amo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:26 AM.:.

Terça-feira, Maio 18, 2004

Letargia

ela entreabre os olhos
na mesa de cabeceira
os pedaços do tempo
misturados com velhas
fotografias esmaecidas
apagadas no abajur

sobre a cama
duas amarfanhadas
almofadas brancas
traços de sonhos
riscados no lençol

duas taças
Chablis intocado

Norah Jones
cantando
baixinho
insistentemente

os sapatos sumiram
com a luz do dia

na boca
o gosto do cigarro barato
aceso no último
toque de lábios


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:36 PM.:.

Segunda-feira, Maio 17, 2004

Verso per Verso

mais versos
salpicados
pelos meus
compulsivos
dedos

verso per verso
como gota de suor
que estanca
na testa
perversamente
desdenhando
a luminosidade
das rimas


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:54 PM.:.

Domingo, Maio 16, 2004

Alvorada

alvoreci sob a estrela
que percorria
solene e distraída
os antigos caminhos
dos morros sonolentos
derramados no horizonte
indiferente
ao meu olhar noturno
que teimoso
pintou-se de manhã
na sua azulada luz


:: Postado Por Nel Meirelles :: 3:40 PM.:.

Sábado, Maio 15, 2004

Leve Visão

tua mão distraída
percorre meus cabelos
teus olhos refletem
o clarão da novela das oito
teu silêncio
ensurdece meus ouvidos
e ecoa
no meu desejo escondido
no anúncio de dentifricio
onde minha boca adivinha
o gosto da tua
(meu programa predileto)

me levanto da poltrona
coberta com a colcha branca
onde ainda estão as marcas
do filme da semana passada
pego mais um café
na garrafa térmica
ainda quente
e te sirvo
com um sorriso
de apresentador
esperando a hora
de mudar meu canal.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 6:31 PM.:.

Sexta-feira, Maio 14, 2004

Ma non troppo

a noite pousou em mim
trazendo o cheiro da tua carne
a suavidade
dos teus úmidos pelos
lambuzando minha boca
os versos
que encontrei
nos bicos dos teus seios
e as rimas
rígidas
que deixei entranhadas
entre as tuas alvas coxas

tua saliva orvalhou
saborosamente
a minha trôpega língua
tuas mãos aprisionaram
meu desejo
que tua boca teimou
em libertar
aos borbotões
rio caudaloso
onde afogaste
tua (minha) sede...


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:36 AM.:.

Quarta-feira, Maio 12, 2004

Poesia III

não escrevo porque quero
nem ejaculo em cada verso
a síntese do ato lascivo

escrevo porque vivo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:22 PM.:.


Non sense

há uma cadeira
branca de balanço
cochilando no canto
da varanda
onde as margaridas
de setembro
namoram o mar

a moça pálida
dança com a velha
vassoura de piaçava
e pateticamente
aguarda
o sonho no vento
que não sopra
jamais...


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:41 AM.:.

Terça-feira, Maio 11, 2004

Mínimos contos


Lirismo

Ele tocava violão. Ela tecia sonhos. Ele sonhava, ela cantava.
E nunca se encontravam.
Mas toda história tem que ter um final feliz.
Hoje ela sonha canções e ele canta seus sonhos em Si bemol maior.


Domingo

Um toque de batom nos lábios, lápis nos olhos. Ela está pronta.

- Amor, vamos ao cinema?

- Que cinema, mulher? Hoje tem futebol na televisão! Sossega!

Ela volta pro quarto e se despe, a última cena do filme que não viu escorrendo no rímel misturado com lágrimas.


Desencontro

Ele chega. Beija-a rapidamente e vai ao banheiro.

Talvez assista ao Jornal Nacional mais tarde. Aquele negócio no escritório hoje o deixou preocupado. Isso é o que importa naquele momento prá ele.

Ela mal se move da poltrona em frente ao computador.

Dedos rápidos, face iluminada pela luz do monitor, concentrada. E-mails, mensagens instantâneas, sentimentos e sensações. Isso é o que importa naquele momento prá ela.

Na mesa da sala, a janta esfria solitária.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:47 PM.:.

Segunda-feira, Maio 10, 2004

Antropofagia

eu de novo
náufrago
das diurnas estrelas
sem lenço branco
de secar lágrimas
sem fundo escuro
de poço
que me esconda

eu de novo
antropófago
devorando
minhas entranhas vermelhas
vertendo os esqueléticos rios
da minha seca nascente
sem espada nem estratégia
extraído a fórceps
do morno útero
onde me assassino
indiferente
e fugaz.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:39 PM.:.

Domingo, Maio 09, 2004

Despoético

amanheci silente
sem palavras sem sons
surdo-mudo de poesia
sílabas inertes
na boca perfumada
pela fumaça do cigarro
apagado no cinzeiro
de pedra sabão

amanheci silente
sem Janis nem Jimmy
sem canhões do Vietnã
sem Quintana nem Belchior
mais que medo de avião
I don't wanna hold your hand

amanheci silente
sem lamber os ecos da alma
sem rasgar os violões no telhado
sem a ousadia onírica
de cravar poemas
no peito do
caderno esquecido
sobre a mesa da sala.




:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:07 PM.:.

Sexta-feira, Maio 07, 2004

Um post diferente...

Um poema por dia ou enjaular meu dia em um poema. E quando nada acontece? E quando não existem palavras que queiram saltar do peito para o papel? Sobra um vazio chatinho...

Aí vou ler e reler os amigos conhecidos e desconhecidos, beber outras palavras, visitar poesia em outras plagas.

Encontro surpresas agradáveis. Descubro esconderijos insuspeitos em amigos .
PV é um deles. Não vou dizer o nome, apenas as iniciais.
Sujeito boa gente, agradável, de fácil convivência. Amigo de algum tempo, basicamente começamos a amizade como parceiros de negócios.

Ele se muda para São Paulo, mas nosso contato continua. Dia desses, nos encontramos na Internet. Conversa sobre trabalho.

Lá pelas tantas eu resolvo convidá-lo para conhecer este blog.

Surpresa. Ele escreve também.

Pergunto como nunca falamos disso antes. Quem sabe? Inexplicável. Proseamos algum tempo, o quanto o trabalho nos permite.

Pedaços do papo, palavras dele:

- também faço isso, escrever a esmo
- que bom que eu posso falar de poesia com alguém além do espelho

A vida tem me doído muito.
O azul está barulhento demais.
Queimaram os cheiros da maçã.

Há muito, ontem e pouco, amanhã.
Os bálcãs da biografia se insurgem.
Certas frases são mísseis.

(andei lendo muito Manoel de Barros e deu nisso... ;-)

- tem que se botar - não mais no papel, mas na tela, pra ver que cara tem a coisa escrita, a forma das letras, a dança das sílabas - a música inteira do que você sente pensando
- eu como as palavras, degusto sílabas e sons me divirto com isso


Surpreendente, agradavelmente surpreendente. Vem a idéia de compartilharmos um blog, quem sabe? De mostrar a cara pro mundo, afinal poesia é prá ser compartilhada, semeada, jogada no vento e colhida por quem gosta.

Carioca, vivendo em sampa, fumaça, poluição, engarrafamentos, echentes do Tietê e do Pinheiros nos dias de chuva, executivo atarefado, meio que pendurado na ponte aérea e encontra tempo para se expressar.

Um poema dele, para vocês que me visitam diariamente:

Primeira chuva em São Paulo

As venezianas da barra funda se enfurecem de repente
ventos de além Tietê sopram seus enxofres
pessoas correm pelas ruas, tudo se desorganiza
e um fio de esperança assoma ao meu horizonte paulista.

Amigos próximos, distantes, planos, futuros, sonhos
passados, rancores, temores, serasas, medos de criança
tudo volta ao espelho d´água em que se nada, tudo transborda,
tudo volta com menos sabedoria e mais permanência.

Vou ficar por aqui, meu caminho é Sul, frio, extremos,
pequenos heroísmos, frases balofas, olhar neutro e essa
poesia como fardo, inimigo infiltrado, bílis enraivecida.

No entanto não sou nada sem ela, exceto um campo de guerra
sem trégua, nem enredo, motivação histórica ou estratégia.
Fico por ficar, pelo empunhar da espada, pela visão do sangue,

por não entender, não entender nunca, mas tentar e tentar
e tentar e tentar ser algo além desse pequeno ser amuado,
irrefletido e inseguro, molhado de tristeza até os ossos.


Bonito, né?

Aquele abraço, irmão PV! Desculpa estar te mostrando assim, mas esse teu lado não pode e não deve ficar escondido no fundo da gaveta.




:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:47 PM.:.

Quinta-feira, Maio 06, 2004

Sinfonia em Mim Maior

silencio
na sinfonia
da nua estrela
dispo minha pele
visto a tua
cerro meu olhar
quase universo

deito sobre
o infinito
do teu umbigo
tua língua
serpente
obscenamente
sacia a fome
da minha língua
e se sacia
na minha
eterna fome

sobreVivo
da saliva
que me ofereces
em tons
de paisagem
derramada
nos lençóis
da cama branca
em desalinho

meus poros
abertos exalam
a fragrância
do teu sexo
onde adentro
quase sem
te tocar
deixo
minha morna chuva
nas dobras
da tua alma
eternamente
em mim maior.



:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:26 PM.:.


Poesia II

nao invento poemas
escrevo, apenas
e acredito
no que digo

assim
me absolvo
me redimo

e me rimo



:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:10 AM.:.

Quarta-feira, Maio 05, 2004

Inércia

almofadas deitadas
languidamente inertes
sobre a cama

aflora no meu corpo
tua ausência sentida
nas curvas
dos lençóis insones

tua pele travestida
de cetins e sedas
livros caídos dolentes
sobre o chão de ardósia
fumaça de cigarros
que arderam
amor espreitando
nos livros da cabeceira

este inerte poema
escorrendo
dos dedos
úmido como teus lábios
povoa minha boca
com a luxuria
do toque
da tua língua
na minha.



:: Postado Por Nel Meirelles :: 3:15 PM.:.

Terça-feira, Maio 04, 2004

Tela Branca

Salvador Dali
sem talento
salpico cores
nos desvãos
da tela branca
para minha
diáfana
Gala Éluard

quebro rubras correntes
desenho canções amarelas
nas úmidas esquinas
das quinas do pano

liberto meu verde
renascendo
no quase-brilho
das cores pastéis
me absolvo
com uma pincelada maior

arrisco
um azul profundo
te busco em casa
como quem coloca
a tela no cavalete
te levo prá dançar
no negro da noite
beijo o luar
no teu rosto
e me pinto
de amor-marinho
definitivamente
no branco
do teu corpo.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:42 PM.:.

Segunda-feira, Maio 03, 2004

Semeadura

semeio tua nudez
nas vagas
noites de lua
sorvo tua presença
on the rocks
lentamente
cálice de jade
bricks on the wall
again

mudo o filme
casso a canção
inexata de amor
que compus
caço desejo
no olhar
desvairado

nua mulher
no meu desnudo peito
respira meu ar
alimenta minha fome
perpetua meu(teu) gozo
(des) poético
e tão poesia
afinal...



:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:24 AM.:.

Domingo, Maio 02, 2004

Subversão

sento
na soleira esquecida
da porta
da casa vazia
subverto sonhos
em espelhos de cetim
vazo poemas
concretos
sedento de mim
encontro obscuras
estrelas
nas noites de inverno

simplesmente assim
sem ouro nem prata
sem pão nem poesia
fim


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:31 PM.:.