Um post diferente...
Um poema por dia ou enjaular meu dia em um poema. E quando nada acontece? E quando não existem palavras que queiram saltar do peito para o papel? Sobra um vazio chatinho...
Aí vou ler e reler os amigos conhecidos e desconhecidos, beber outras palavras, visitar poesia em outras plagas.
Encontro surpresas agradáveis. Descubro esconderijos insuspeitos em amigos .
PV é um deles. Não vou dizer o nome, apenas as iniciais.
Sujeito boa gente, agradável, de fácil convivência. Amigo de algum tempo, basicamente começamos a amizade como parceiros de negócios.
Ele se muda para São Paulo, mas nosso contato continua. Dia desses, nos encontramos na Internet. Conversa sobre trabalho.
Lá pelas tantas eu resolvo convidá-lo para conhecer este blog.
Surpresa. Ele escreve também.
Pergunto como nunca falamos disso antes. Quem sabe? Inexplicável. Proseamos algum tempo, o quanto o trabalho nos permite.
Pedaços do papo, palavras dele:
- também faço isso, escrever a esmo
- que bom que eu posso falar de poesia com alguém além do espelho
A vida tem me doído muito.
O azul está barulhento demais.
Queimaram os cheiros da maçã.
Há muito, ontem e pouco, amanhã.
Os bálcãs da biografia se insurgem.
Certas frases são mísseis.
(andei lendo muito Manoel de Barros e deu nisso... ;-)
- tem que se botar - não mais no papel, mas na tela, pra ver que cara tem a coisa escrita, a forma das letras, a dança das sílabas - a música inteira do que você sente pensando
- eu como as palavras, degusto sílabas e sons me divirto com isso
Surpreendente, agradavelmente surpreendente. Vem a idéia de compartilharmos um blog, quem sabe? De mostrar a cara pro mundo, afinal poesia é prá ser compartilhada, semeada, jogada no vento e colhida por quem gosta.
Carioca, vivendo em sampa, fumaça, poluição, engarrafamentos, echentes do Tietê e do Pinheiros nos dias de chuva, executivo atarefado, meio que pendurado na ponte aérea e encontra tempo para se expressar.
Um poema dele, para vocês que me visitam diariamente:
Primeira chuva em São Paulo
As venezianas da barra funda se enfurecem de repente
ventos de além Tietê sopram seus enxofres
pessoas correm pelas ruas, tudo se desorganiza
e um fio de esperança assoma ao meu horizonte paulista.
Amigos próximos, distantes, planos, futuros, sonhos
passados, rancores, temores, serasas, medos de criança
tudo volta ao espelho d´água em que se nada, tudo transborda,
tudo volta com menos sabedoria e mais permanência.
Vou ficar por aqui, meu caminho é Sul, frio, extremos,
pequenos heroísmos, frases balofas, olhar neutro e essa
poesia como fardo, inimigo infiltrado, bílis enraivecida.
No entanto não sou nada sem ela, exceto um campo de guerra
sem trégua, nem enredo, motivação histórica ou estratégia.
Fico por ficar, pelo empunhar da espada, pela visão do sangue,
por não entender, não entender nunca, mas tentar e tentar
e tentar e tentar ser algo além desse pequeno ser amuado,
irrefletido e inseguro, molhado de tristeza até os ossos.
Bonito, né?
Aquele abraço, irmão PV! Desculpa estar te mostrando assim, mas esse teu lado não pode e não deve ficar escondido no fundo da gaveta.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
1:47 PM.:.