Quinta, dia dos amigos
1967.Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Meninos sonhando com o céu, com as asas de ferro de um avião sob o corpo, com o vento lambendo o rosto, com o ilimitado da imensidão azul.
Nasceram amizades fortes, sentimento de fraternidade, de união. Que perduram até hoje
Os anos se passaram. Tantos que nem quero lembrar. Nos reunimos de quando em vez. Em uma dessas ocasiões, converso com ele. Se revela poeta. Me manda poemas que leio com prazer. Um deles fala na morte da mãe. Esse, não quero mostrar aqui. É dele. Momento dele. Mas com satisfação posto o que está abaixo, para vocês, que me dão o prazer de estar aqui todos os dias. Escrito em 1969, imagens de um futuro talvez.
Um pouco do Walter, por ele mesmo:
Nome: Walter Luiz Duarte Filho
Cidade: Maravilhosa
Porque Poesia: acontece de repente, vem aos poucos e toma conta daquele momento. Se não vai para o papel, some como fumaça.
Poetas: Carlos Drumond de Andrade, Cazuza; Chico Buarque; Bertold Brecht; Manoel Meirelles; .
(nota do Nel: eu, como predileto? só mesmo sendo amigo...)
ESPONTÂNEO
(1969)
Talvez eu não viva por uma saudade ou esperança,
Mas hei de saber sorrir quando tudo em mim for lágrima.
Não procurarei botequins para beber saudade,
Tampouco fumarei desilusões.
Sei que poucos compreenderão
As mulheres que amei,
Os amigos, tão raros.
Tudo o mais será mera coincidência.
Não! Não acenarei lenços brancos em despedida,
Não me aprofundarei nas matérias mortas,
Não carregarei cartazes. Não escreverei em muros.
Tudo tem que ser assim: espontâneo.
Uma escultura de gesso,
Uma poesia sem rima,
O passeio dos lábios, das mãos,
A respiração ofegante,
Uma entrega total. E doce.
Depois, quem sabe, o sono dos justos.
Ou, então, a eterna canção.
E saber que não houve derrotas na terrível batalha.
E saber que não escutei rouxinóis nesta alvorada.
Pode ser que eu viaje pelo mundo, sem destino.
Pode ser que eu siga a procissão que se aproxima.
Pode ser que me peçam senhas inconcebíveis,
Ou que me acusem. E zombem de minha inconsciência.
Não faltará sarcasmo em minha resposta,
Muito menos a taça para um brinde anacrônico.
Sei que não cruzarei os braços, caso deles necessitem.
Talvez, um bom livro em meu quarto,
Talvez, uma mulher a minha espera,
Ou meu rosto no espelho frio.
Verei, então, um olhar preocupado,
Sem brilho. De um homem cansado.
Mas haverá arlequins e colombinas ao meu lado,
Haverá odaliscas dançando,
E crianças com balões coloridos,
E poetas e menestréis.
Talvez... Uma sinfonia de Beethoven,
E a certeza de que o amor exime as culpas.
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Nel Meirelles
::
11:26 AM.:.
quarta a dois
o que deu fim à série
desmaio verdes versos
sobre meus
horizontes verticais
os azuis das venezianas
ficaram esquecidos
nos quintais
da sensibilidade das rãs
mergulhas teus olhos
no ar espesso
dos meus pulmões
troco meus talvez
pelos teus senões
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Nel Meirelles
::
8:14 AM.:.
Terça-feira, Junho 22, 2004
três de terça
metamorfose
tornei-me homem
pela primeira vez
de novo
quando meus olhos
ouviram dos teus olhos
o silêncio
indefinido do querer
teoria de tocaia
calçados de penumbra
olhos cansados
espreitam de mim
habitat
dos sonhos
e perfumes
que me roubam
tua ravina
faço
meu habitat
meu boteco
de esquina
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Nel Meirelles
::
8:26 AM.:.
Segunda-feira, Junho 21, 2004
trio de segunda
don´t cry for me
madrugo
no primeiro luar
de agosto
troco os lençóis
e umas poucas fronhas
enquanto tu sonhas
não quero trocar
de mim toda manhã
Ultraje
(ul)trajei-me
de lua
e mergulhei
atônito
em tua boca
nua
constelação
só uma estrela
escorrega alada
da minha boca estreita
só uma estrela
desinvade o quarto
que deixei sem portas
só uma estrela
pendura as lanças
de onde me espreita
só uma estrela
amansa meu sono
com suas pontas tortas
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Nel Meirelles
::
7:48 AM.:.
Sexta-feira, Junho 18, 2004
rio a contragosto
rio de balas exatas
que penetram
nas costas de mim
nas madrugadas do aterro
sem pão
nem cristo
rio de balas cordatas
que acalentam as ruínas
que restam
rolando
nos erros
em que
persisto
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Nel Meirelles
::
8:51 AM.:.
Quinta-feira, Junho 17, 2004
Quinta-feira. A partir de hoje, vou reservar este dia para publicar coisas que gosto de ler. Escritos de pessoas que não transitam no universo de blogs, no mundo doido da Internet, mas que escrevem - e muito bem.
Começo com um poema de um amigo, cujo nome (a pedido dele) vou omitir. Seu pseudônimo aqui será
Nilo Tapecoara. Lírico e objetivo, Nilo fala de amor com propriedade, fala de perspectivas sob um ângulo único. Fala do medo do amanhã e da alegria do presente.
Com a palavra, o próprio:
__________________________Q U E
que outros quereres há de querer
o homem que quer você?
que olhares além há de lançar
o homem que te vê inteira?
que frases mais há de escrever
o homem que te descreve?
que sentires para além deste
que esperares além das ampulhetas,
dos sonhos que se derramam
em poças que nos encharcam
de saudades em eterno vermelho?
que seremos nós -- depois de nós?
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Nel Meirelles
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11:29 AM.:.
Quarta-feira, Junho 16, 2004
de morte e vida
bala perdida
atiro a torto
e a direito
os versos
tracejam
meio sem jeito
suicídio
love me tender
ou te suicido
: de tua boca
me atiro
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Nel Meirelles
::
7:38 AM.:.
Terça-feira, Junho 15, 2004
mar remoto
sou assim oceano distante
:mescla de coral esquisito
naco de verde que sangra
risco de navio no instante
maremoto inaudito
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Nel Meirelles
::
9:42 AM.:.
Segunda-feira, Junho 14, 2004
américa do susto
américa
minusculamente latina
útero caliente
de sorver sonhos
de matar
alevinos argentinos
muchachos colombianos
desesperos da rica costa
batuques de gil e caetano
guitarras de fito paez
mercedes e sosas
américa de quatro esquinas
no fim da rua
quase latrina
do lixo da festa
que resta
da pária pátria
parida em dor
( e essa vontade de ser)
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Nel Meirelles
::
9:05 AM.:.
Sexta-feira, Junho 11, 2004
por onde vou descalço
(o silêncio do inocente ou de como me tornei somente)
esquartejo silêncio
espreito o que intuo
nos nacos de negrume
camuflados de beleza
que evitar
não pude
escrevo nas mudas
madrugadas
quando o frio me açoita
com sapatos de maio
com promessa sem lume
que me embriaga
me consome
me ilude
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Nel Meirelles
::
4:22 PM.:.
Via Lápea
onde foram parar
os versos boêmios
que andei
lagarteando nas mesas
dos santos botecos
da sagrada Lapa?
desaguo
minhas mágoas
no templo
de arcos brancos
pintados da antiga luz
meus bêbados
fantasmas continuam
sentados na calçada
orando em vão
comigo
esperam contritos
o primeiro ônibus
da última madrugada
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Nel Meirelles
::
12:50 PM.:.
Segunda-feira, Junho 07, 2004
os doces trabalhos de eros
I
tuas coxas
(pálidas
cortinas)
abrem-se
em direções
opostas
puxo as cordas
como tu gostas
II
desnudo-te
descalço
o sapato
sala vazia:
desandas
pela coxia
antes
do ato
III
banheiro
palco
onde solo
a capela
tua ausência
e me calo
os aplausos
escorrem
solitários
pelo ralo
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Nel Meirelles
::
9:41 AM.:.
Quinta-feira, Junho 03, 2004
Homenagem
hoje quero falar de gente que escreve. de gente de quem aprendi a admirar a arte. de gente que faz dessa arte um oásis de inteligência e prazer estético.
gente de norte e sul, leste e oeste.
prosa, crônica, poesia e literatura.
as quatro grande vertentes
em cada um deles, homenageio a todos que fazem da escrita o prazer nosso de todo dia.
sangrando
(para Glória Horta)
rasgo
o peito
em busca
da poesia
(jorra uma
abundante
hemorragia)
mandacaru
(para Manoel Carlos)
monta no jegue
puxa chapéu
afia peixeira
vence sudeste
dom quixote
do agreste
proseoturando
(para Mariza Lourenço)
parideira de prosas
costureira de sonhos
alinhava pensamentos
que pespontam
em bando
marcas na tela:
brincando
coleção
(para Moacy Cirne)
penteia palavras
com cuidados
de espelho
uma por uma
(solenes enfeitam
esse balaio
vermelho )
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Nel Meirelles
::
9:09 AM.:.
Quarta-feira, Junho 02, 2004
vida em adagio
nascimento
vôo solo
na decolagem
ejeto
(menino assustado
com o manche ereto)
vida
me choves
te aro
a colheita
: fruto raro
morte
cavalo marinho
galopo
rumo ao sol
sozinho
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Nel Meirelles
::
11:04 AM.:.