Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Quarta-feira, Junho 30, 2004

de mar, rio e quintanas


naufrágio

meu barco
de sonhar
encalhou
na praia
do teu olhar


desgaiola

um verso
cantarola
no peito
e me engana

pia solto
na vida
(passarinho-de-quintana)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:17 AM.:.

Terça-feira, Junho 29, 2004

rictus hirtus

há um silencioso ruído
que esconde o brilho
das minhas claras estrelas

há um espesso labirinto
de espessas paredes
que me impede de vê-las

há perigo nas palavras
que de não serem nascidas
são entregues à propria sorte

há escuridão e há medo
túnel fechado em segredo
perfume sutil de morte


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:54 AM.:.

Segunda-feira, Junho 28, 2004

eu, que canto amor em todas as suas formas e maneiras, hoje canto para a única mulher que faz da minha vida um enorme poema...a minha namorada, a minha musa, a minha promessa acontecida, o melhor de mim, essência maior do que sou.

sinfonia em amor maior
(para coração e amada)

encham-me os olhos
com os sons
de cantigas
de sereia

iluminem-me os ouvidos
com as últimas
estrelas da noite
que vagueia

curvem-me os dedos
com cordas de viola
e sons de atabaque

ouçam-me os sonhos
que de mim afasto

:no amor da
minha mulher
indefinidamente
me basto


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:50 AM.:.

Sábado, Junho 26, 2004

um cintilar e dois movimentos


pit stop

poemeu
que és pó
de onde voltarás

poeminha
que essa volta
nunca mais


vigília

adormeço
preces
nos desnudos
seios
que fartamente
me ofereces


play it again

tuas mãos
me trespassam
ávidas e audazes
nestes ásperos
caminhos
dos carinhos
(que me fazes)

estremeço
meu corpo alerta
: é começo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:42 AM.:.

Sexta-feira, Junho 25, 2004

verduras e azuis de sexta

maestro

o vai e vem
desfolhado
nos traços
da torta melodia
que ainda não compus
se perde
em bemóis
de nascer-do-dia
nos teus
sustenidos tão blues


sensa te

na vez primeira
da tua boca
na minha boca
foi a primeira
vez
que te perdi


summertime

que escândalo
o silêncio
das gotas
ecoando
no meu quarto

chove

só uma lágrima
vagabunda
se move.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:02 AM.:.

Quinta-feira, Junho 24, 2004

Quinta, dia dos amigos

1967.Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Meninos sonhando com o céu, com as asas de ferro de um avião sob o corpo, com o vento lambendo o rosto, com o ilimitado da imensidão azul.

Nasceram amizades fortes, sentimento de fraternidade, de união. Que perduram até hoje

Os anos se passaram. Tantos que nem quero lembrar. Nos reunimos de quando em vez. Em uma dessas ocasiões, converso com ele. Se revela poeta. Me manda poemas que leio com prazer. Um deles fala na morte da mãe. Esse, não quero mostrar aqui. É dele. Momento dele. Mas com satisfação posto o que está abaixo, para vocês, que me dão o prazer de estar aqui todos os dias. Escrito em 1969, imagens de um futuro talvez.

Um pouco do Walter, por ele mesmo:

Nome: Walter Luiz Duarte Filho
Cidade: Maravilhosa
Porque Poesia: acontece de repente, vem aos poucos e toma conta daquele momento. Se não vai para o papel, some como fumaça.
Poetas: Carlos Drumond de Andrade, Cazuza; Chico Buarque; Bertold Brecht; Manoel Meirelles; .

(nota do Nel: eu, como predileto? só mesmo sendo amigo...)

ESPONTÂNEO
(1969)

Talvez eu não viva por uma saudade ou esperança,
Mas hei de saber sorrir quando tudo em mim for lágrima.
Não procurarei botequins para beber saudade,
Tampouco fumarei desilusões.
Sei que poucos compreenderão
As mulheres que amei,
Os amigos, tão raros.
Tudo o mais será mera coincidência.
Não! Não acenarei lenços brancos em despedida,
Não me aprofundarei nas matérias mortas,
Não carregarei cartazes. Não escreverei em muros.
Tudo tem que ser assim: espontâneo.
Uma escultura de gesso,
Uma poesia sem rima,
O passeio dos lábios, das mãos,
A respiração ofegante,
Uma entrega total. E doce.
Depois, quem sabe, o sono dos justos.
Ou, então, a eterna canção.
E saber que não houve derrotas na terrível batalha.
E saber que não escutei rouxinóis nesta alvorada.
Pode ser que eu viaje pelo mundo, sem destino.
Pode ser que eu siga a procissão que se aproxima.
Pode ser que me peçam senhas inconcebíveis,
Ou que me acusem. E zombem de minha inconsciência.
Não faltará sarcasmo em minha resposta,
Muito menos a taça para um brinde anacrônico.
Sei que não cruzarei os braços, caso deles necessitem.
Talvez, um bom livro em meu quarto,
Talvez, uma mulher a minha espera,
Ou meu rosto no espelho frio.
Verei, então, um olhar preocupado,
Sem brilho. De um homem cansado.
Mas haverá arlequins e colombinas ao meu lado,
Haverá odaliscas dançando,
E crianças com balões coloridos,
E poetas e menestréis.
Talvez... Uma sinfonia de Beethoven,
E a certeza de que o amor exime as culpas.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:26 AM.:.

Quarta-feira, Junho 23, 2004

quarta a dois


o que deu fim à série

desmaio verdes versos
sobre meus
horizontes verticais

os azuis das venezianas
ficaram esquecidos
nos quintais


da sensibilidade das rãs

mergulhas teus olhos
no ar espesso
dos meus pulmões

troco meus talvez
pelos teus senões


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:14 AM.:.

Terça-feira, Junho 22, 2004

três de terça

metamorfose

tornei-me homem
pela primeira vez
de novo
quando meus olhos
ouviram dos teus olhos
o silêncio
indefinido do querer


teoria de tocaia

calçados de penumbra
olhos cansados
espreitam de mim


habitat

dos sonhos
e perfumes
que me roubam
tua ravina
faço
meu habitat
meu boteco
de esquina


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:26 AM.:.

Segunda-feira, Junho 21, 2004

trio de segunda


don´t cry for me

madrugo
no primeiro luar
de agosto

troco os lençóis
e umas poucas fronhas
enquanto tu sonhas

não quero trocar
de mim toda manhã


Ultraje

(ul)trajei-me
de lua
e mergulhei
atônito
em tua boca
nua

constelação

só uma estrela
escorrega alada
da minha boca estreita

só uma estrela
desinvade o quarto
que deixei sem portas

só uma estrela
pendura as lanças
de onde me espreita

só uma estrela
amansa meu sono
com suas pontas tortas


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:48 AM.:.

Sexta-feira, Junho 18, 2004

rio a contragosto

rio de balas exatas
que penetram
nas costas de mim
nas madrugadas do aterro
sem pão
nem cristo

rio de balas cordatas
que acalentam as ruínas
que restam
rolando
nos erros
em que
persisto


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:51 AM.:.

Quinta-feira, Junho 17, 2004

Quinta-feira. A partir de hoje, vou reservar este dia para publicar coisas que gosto de ler. Escritos de pessoas que não transitam no universo de blogs, no mundo doido da Internet, mas que escrevem - e muito bem.

Começo com um poema de um amigo, cujo nome (a pedido dele) vou omitir. Seu pseudônimo aqui será Nilo Tapecoara. Lírico e objetivo, Nilo fala de amor com propriedade, fala de perspectivas sob um ângulo único. Fala do medo do amanhã e da alegria do presente.

Com a palavra, o próprio:



__________________________Q U E

que outros quereres há de querer
o homem que quer você?

que olhares além há de lançar
o homem que te vê inteira?

que frases mais há de escrever
o homem que te descreve?

que sentires para além deste
que esperares além das ampulhetas,
dos sonhos que se derramam
em poças que nos encharcam
de saudades em eterno vermelho?

que seremos nós -- depois de nós?


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:29 AM.:.

Quarta-feira, Junho 16, 2004

de morte e vida

bala perdida

atiro a torto
e a direito

os versos
tracejam
meio sem jeito


suicídio

love me tender
ou te suicido
: de tua boca
me atiro


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:38 AM.:.

Terça-feira, Junho 15, 2004

mar remoto

sou assim oceano distante
:mescla de coral esquisito
naco de verde que sangra
risco de navio no instante
maremoto inaudito


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:42 AM.:.

Segunda-feira, Junho 14, 2004

américa do susto

américa
minusculamente latina
útero caliente
de sorver sonhos
de matar
alevinos argentinos
muchachos colombianos
desesperos da rica costa
batuques de gil e caetano
guitarras de fito paez
mercedes e sosas

américa de quatro esquinas
no fim da rua
quase latrina
do lixo da festa
que resta
da pária pátria
parida em dor

( e essa vontade de ser)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:05 AM.:.

Sexta-feira, Junho 11, 2004

por onde vou descalço
(o silêncio do inocente ou de como me tornei somente)

esquartejo silêncio
espreito o que intuo
nos nacos de negrume
camuflados de beleza
que evitar
não pude

escrevo nas mudas
madrugadas
quando o frio me açoita
com sapatos de maio
com promessa sem lume
que me embriaga
me consome
me ilude


:: Postado Por Nel Meirelles :: 4:22 PM.:.


Via Lápea

onde foram parar
os versos boêmios
que andei
lagarteando nas mesas
dos santos botecos
da sagrada Lapa?

desaguo
minhas mágoas
no templo
de arcos brancos
pintados da antiga luz

meus bêbados
fantasmas continuam
sentados na calçada
orando em vão

comigo
esperam contritos
o primeiro ônibus
da última madrugada


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:50 PM.:.

Segunda-feira, Junho 07, 2004

os doces trabalhos de eros

I

tuas coxas
(pálidas
cortinas)
abrem-se
em direções
opostas

puxo as cordas
como tu gostas


II

desnudo-te
descalço
o sapato

sala vazia:
desandas
pela coxia
antes
do ato


III

banheiro
palco
onde solo
a capela
tua ausência
e me calo

os aplausos
escorrem
solitários
pelo ralo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:41 AM.:.

Quinta-feira, Junho 03, 2004

Homenagem

hoje quero falar de gente que escreve. de gente de quem aprendi a admirar a arte. de gente que faz dessa arte um oásis de inteligência e prazer estético.
gente de norte e sul, leste e oeste.
prosa, crônica, poesia e literatura.
as quatro grande vertentes
em cada um deles, homenageio a todos que fazem da escrita o prazer nosso de todo dia.


sangrando
(para Glória Horta)

rasgo
o peito
em busca
da poesia

(jorra uma
abundante
hemorragia)


mandacaru
(para Manoel Carlos)

monta no jegue
puxa chapéu
afia peixeira
vence sudeste

dom quixote
do agreste


proseoturando
(para Mariza Lourenço)

parideira de prosas
costureira de sonhos
alinhava pensamentos
que pespontam
em bando

marcas na tela:
brincando


coleção
(para Moacy Cirne)

penteia palavras
com cuidados
de espelho

uma por uma

(solenes enfeitam
esse balaio
vermelho )


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:09 AM.:.

Quarta-feira, Junho 02, 2004

vida em adagio


nascimento

vôo solo
na decolagem
ejeto

(menino assustado
com o manche ereto)


vida

me choves
te aro

a colheita
: fruto raro


morte

cavalo marinho
galopo
rumo ao sol
sozinho


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:04 AM.:.