pirata
eu, corsário refletido no espelho,
não me curvo diante da majestade
idiota de um corvo qualquer
ou quebro as molas do meu joelho
como um lord albanês deserdado
pela fama e pela fortuna
não. meu barco aportará nos vazios
das amplidões do mar de lua
quando a nonagésima nuvem perfumada
ainda estiver discursando solene
no meio das calçadas do horizonte.
vou buscar os tesouros escondidos
pelos cavalos de areia dos homens
brancos de terror quando eu passar
vou estremecer as vozes moucas
das raparigas esbranquiçadas
nas praças de água corrente
vou tomar meu universo com cachaça
e me embriagar dos meus proprios versos
como quem enterra as verdades
sob as pálpebras que teimam
em permanecer abertas
vou desnudar os ídolos restantes
de Nova Granada de Espanha
e me ferir de preto e branco
com a espada de Sotero
e finalmente,
somente finalmente,
dormirei meu sono de além mar
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Nel Meirelles
::
10:28 AM.:.
atropelos de quinta-feira
libertário
saboreei
somente
o lodo
do lado
obscuro
da poça
podre
onde
ousei
pousar
carnificina
prendo
palavras
entre
os dentes
lambuzo
essas ancas
em vão
assim:
boca
coração
cântico de juras
amor
incontido
nos limites
da pele
branca
amor
de seio
: alma
sem tranca
(amor
traduzido
dessa forma
franca)
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Nel Meirelles
::
9:20 AM.:.
Quarta-feira, Julho 21, 2004
trio de quarta
tenerezza
o tempo
assopra
seus cabelos
ela
continua
sonhando
de boneca
notte bianca
noite
silêncio
:açoite
strip tease
nu poeta
a poesia nua
se perpetua
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Nel Meirelles
::
10:35 AM.:.
Terça-feira, Julho 20, 2004
sobre amor e verbo
crucis
te descortino
sem a hipocrisia
das palavras doces
tua saliva
irriga matutinamente
meu falo
esse vão
coalhado
de triângulos
devassos
aromas do desejo
meu furor planando
sobre teu verbo
nos pedaços
de curva
desnudo
a ultima veia
do teu suspiro
e me esparramo
sordidamente
nos ângulos obtusos
que nosso desejo
forma
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Nel Meirelles
::
6:39 PM.:.
Segunda-feira, Julho 19, 2004
love time
(ao que sempre foi)
vento de chuva
água de desejo
desfalecidos
sobre a cama
banho
com gosto
de língua
de pele
de sabonete
e espuma
da vontade
de ser de novo
bocas de fome
coxas de encontrar
coxas
mãos de tecer
desafios
Renato Russo
ainda canta sem
saber
eu te vejo
recomeço
a ser
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Nel Meirelles
::
10:33 AM.:.
Domingo, Julho 18, 2004
Sábado, Círculo Militar. Urca, Rio de Janeiro (aos pés do Pão de Açúcar)
Ontem foi dia de muita chuva no Rio. Vento forte, agasalhos saindo dos armários para ver a cara da cidade. E foi dia também de mais uma derrota do meu time, de mais vexame de bola. Tudo isso, entretanto, ficou sendo de menor importância porque ontem também foi dia de encontrar amigos no Círculo Militar. Manoel Carlos, Silvia e Flora, Moacir Lopes, Moacy Cirne, Nana e Cosmos, Eugenia out of the meadows.
Tarde passou rápida. Papos gostosos, bom humor, piadas. Moacy se revelou um profundo conhecedor de futebol, com uma memória exemplar. Eu, se fosse da televisão, contratava o cara pra um programa de esportes.
Manoel Carlos inteligente, rápido no raciocínio, sagaz, muito culto. Silvia ainda me "matando" por causa de um certo macaquinho que assassinei quando menino.
Cosmos e Nana, bonito de se ver. Brilho de amor nos olhos... de encantar qualquer um.
Com Flora pouco conversei, mas deu pra perceber que puxou ao pai. Eugenia e seus poemas, grande papo também.
Moacir Lopes, que foi meu companheiro de ir ver o jogo na tv lá fora, como desculpa para fumarmos nossos cigarrinhos. Ele, vascaíno quase doente e meu eterno vice-campeão.rs
Manoel documentou em foto o encontro. Acho que ele vai publicar no Agreste em breve. Eu não levei máquina (nem me lembro se tenho uma), mas deixo registrado aqui meu contentamento pela tarde de ontem e meu agradecimento a essas pessoas tão especiais.
E um poeminha meu, nessa tarde chuvosa e fria aqui no Rio. (quando será que o sol vai voltar? sinto falta do gosto dele em meu rosto....)
passageiro
o cigarro
jazz na
mão cortada
de crimes
abandonados
na mesa
a poesia
como fumaça
chega
se desfaz
passa
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Nel Meirelles
::
12:29 PM.:.
Sábado, Julho 17, 2004
dos sábados chuvosos do Rio de Janeiro
noite I
quando me assombro
nessas úmidas noites
sem lua
uma prece
me mantém são:
a lembrança
de uma mulher
nua
da noite II
a canção da estrela
ainda escorre
pela parede
do quarto
silente
uma mulher não dorme
espreita na cama
à espera do homem
que lhe adoce
a escuridão.
de mim
sou assim:
verso inacabado
luz que se apaga
um copo vazio
que um dia
embebedou
a poesia
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
10:48 PM.:.
Sexta-feira, Julho 16, 2004
pietá
porque o
despertar
é vão
porque escavo
fantasmas
no peito
porque sou estilhaço
de vida
porque me olho e ouço
o nada
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Nel Meirelles
::
8:54 AM.:.
Quinta-feira, Julho 15, 2004
sétimo dia. sem descanso.
evidências
escrevo
logo
vivo
brilho
logo
estrelas
amo
logo
existes
passarinho
bem-te-vi
de flores
bem-me-queres
de amores
temporal
a chuva
me rouba
pedaços
de mágoa
(uma gota:
sou triste
uma gota:
sou água)
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
9:46 AM.:.
Terça-feira, Julho 13, 2004
terça à noite
Postando novamente hoje, já que amanhã não estarei em condições de fazê-lo. Aproveito para agradecer à
Li Stoducto, que me deu o prazer de publicar o meu poema
rio a contra gosto no seu site
RJ Sinfonia, em Rio Verso. Agradeço a honra, de coração.
trôpego coração
meu coração tropical
de boscos e macalés
de mossorós e igapós
de belos horizontes
e piauís distantes
de portos alegres
de meninas do brasil
de corações democratas
descortinou-se
por inteiro:
rio do janeiro
que me olha
por trás da lua
e ri de mim
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Nel Meirelles
::
11:58 PM.:.
insônia
(essa vontade imensa de ser...)
devolutório
(me perdoem
todas as musas
que ousei
um dia
minha musa
maior
é a própria
poesia)
assemia
a poesia é forma de vida
que salta pelas pupilas
de quem com ela conspira
a poesia é como uma luz
que ressoa no silêncio
o começo de uma partida
a poesia é o que resta
quando o nada acontece
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
2:03 AM.:.
Segunda-feira, Julho 12, 2004
das vazias segundas chuvosas
moto perpétuo
cada poema
que exalo
esculpe no peito
um vazio
continuo
porque me recrio
porto solidão
essa estação de trem
em meio ao porto
traz cheiro
de horizonte morto
de coisa que quero
e não vem
esse barco que atraca ligeiro
em meus versos
é saudade onde me ponho
à espera do sonho primeiro
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Nel Meirelles
::
9:37 AM.:.
Domingo, Julho 11, 2004
io che non vivo sensa te
conscientiae
na fumaça
meu medo
agarro
(não apagar
o cigarro)
ofertorium
verdejas
na hora
certa:
devoro
a oferta
profecia
meu sono
em tua boca
há de um dia
deixar-te
louca
idillio
morro de vida
no nascer da
despedida
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Nel Meirelles
::
9:39 AM.:.
Sábado, Julho 10, 2004
conto, poemas e tão somente eu
insensatez
Era como se a razão o houvesse deixado sozinho na estrada. Não conseguiu percebê-la. Em seu ouvido gritavam ordens: tão somente duras palavras de rancor e desespero.
Entregou-se, vencido, ao próprio velório matutino.
notte bianca
calo
meu silêncio
de ausência
com a mão
piccolo
sou
quando não sou
(destruo
o ontem depois)
perco
meus segundos
resta isto:
um pedaço de dois
ritorna
pedra solta
de rua
onde piso
com pés
de quem volta
sem ter ido
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
8:38 AM.:.
Sexta-feira, Julho 09, 2004
desn(er)udando a noite
"Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres."
Pablo Neruda
borboletas
copacabana
já morreu
as borboletas
se esparramam
no tapete
da sala onde
escondo em vão
o vazio
da minha mão
epitáfio
jazem aqui
destroços
de alma:
uns tantos
sonhos
(à guisa
de flores)
um punhado
de planos
como coroa
de dores
uns míseros
nacos
da fome
que tive
e metade
de mim
(a outra metade
finge que vive)
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Nel Meirelles
::
7:47 AM.:.
Quarta-feira, Julho 07, 2004
das coisas de desandar a vida
zero a zero
desmadrugadou
essa manhã
em mim
nem eu
nem você
(fim)
blues da manhã
chove na rua
vazia
meus olhos
inundam
o dia
à queima-roupa
tua amplidão
dorme sem
poesia no quarto
os olhos fechados
murmuram
uma bala
me matas
so
le
ne
men
te
na sala
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Nel Meirelles
::
7:46 PM.:.
Terça-feira, Julho 06, 2004
terceto de terça
mínimo
paixão
ou surto:
verso curto
jornal de domingo
manchete
do dia:
o amor
se perdeu
na poesia
freedom
nem escravo
nem feitor
ser apenas
o que sou
(menino
perdido
de amor)
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Nel Meirelles
::
9:18 AM.:.
Segunda-feira, Julho 05, 2004
ainda de luz e lua
lua cheia
raios da lua
derramados
na cama
reflexos
dos aromas
da mulher
que me ama
pirilampo
apagacende
verso
cabisbaixo
cantoria
de luz
onde me acho
eclipse
a lua
não me brilha mais
seus segredos
escancara
a face oculta
dos meus medos
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Nel Meirelles
::
9:45 AM.:.
Sábado, Julho 03, 2004
da lua e do não ser
lua nova
desiluminada
essa solidão
que meu corpo
prova
sem tua luz
meus desejos
são reflexo
da lua
nova
quarto minguante
minha boca
se despede da tua
como a manhã
faz à lua
teu sono me
deixa à mingua
caço no escuro
a tua língua
obituário
nos teus olhos
pedaços de mim
jazem em paz
teu espelho
não me reflete
mais
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
11:47 AM.:.
Sexta-feira, Julho 02, 2004
desejos e viagens
sonidos
nos sopros
da madrugada
chego
como língua
de perceber
os ângulos
da tua estrada
avatar
cavo teu acaso
busco tua água
encontro teu desejo
(contragolpe
do meu beijo)
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Nel Meirelles
::
7:56 AM.:.
Quinta-feira, Julho 01, 2004
cachot
menino
saboreio
do meu peito
a vida lá fora
sonhos
transgressos
doida
desritmia
destes
doidos versos
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
7:47 AM.:.