Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Sexta-feira, Julho 30, 2004

alguma coisa na sexta-feira de sol, depois de tantas chuvas

becos

nos cantos
obtusos
da rua
uma mulher
mostra a face
nua


esquinas

as esquinas
onde a beleza
se esconde
dos meus olhos
de caça
sustentam
o labirinto
da minha vontade

(no meu peito
nunca é tarde)


prece

refúgio sagrado
dos meus medos

templo infinito
dos meus dedos

oração que minha boca
impura beija

: teus seios


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:07 PM.:.

Quinta-feira, Julho 29, 2004

sei onde é meu começo e onde não é o meu fim. busco mais do que palavras: busco a síntese perfeita da luz.

sonambulismo

a poesia
é faca que se entranha
na face da lua errante

é uivo cristalino
do meu curto infinito

é cadela alucinada
que me lambe as veias
nas tardes tíbias
de outono

(morte versus sono)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:52 AM.:.

Quarta-feira, Julho 28, 2004

sento na beira da poesia e contemplo os ventos de agosto. é assim que me nasce a vida: entre alerta e entretida. semeio estes pedaços transgressores de alma aqui, sem pudor nem sons.


plêiades

na constelação
a lágrima
: amor em vão


solarium

sem sol:
somente
arco de luz
na tua íris


alfa-centauri

busco rima
no grito
da estrela


planetário

tua terra
: meu verde
fustiga sonhos
na tua sede


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:13 AM.:.

Terça-feira, Julho 27, 2004

tabernaculum

é quando abro as treze janelas
e me espanto com as latrinas expostas
destas parcas pessoas patéticas
que ainda teimam em viver

é quando finjo que o sol
esbarra nos meus poros
e o calor congela o
sangue encanecido que guardei
na gaveta de baixo do armário

é quando sinto a fome
pálida de ser o que não sou
e rastejo pela linha do horizonte
caçando as costas da mulher

é quando não sei se sou
curral de versos ou paridor
de palavras esquisitas que desabam
tolamente sobre as teclas
do piano de cauda do banheiro

é quando posso ser mais ou menos
e existir na vontade do impossível
do amor e esvaziar
minhas piscinas do limo cinza
que resta na borda do tempo
em que eu habitava o arco-íris

é quando vivo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:50 AM.:.

Segunda-feira, Julho 26, 2004

entrega

a noite
é tua
quando
despudorada
e nua
invades
meu sonho
e em ti
me banho
e repouso
exausto
depois
de nós


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:00 AM.:.

Sábado, Julho 24, 2004

das coisas do rio

espaço

a lua e ela
sonham no alto
da favela


sebastião

a chuva
crava flechas
no peito
do meu padroeiro
(tião
do rio de janeiro)


detalhes

detalhes
tão enormes
esquecidos
diminuem


rio

vinicius
que cantavas
os amores
de morais

nas ruas
do meu rio
não morres
jamais


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:59 AM.:.

Sexta-feira, Julho 23, 2004

pirata

eu, corsário refletido no espelho,
não me curvo diante da majestade
idiota de um corvo qualquer
ou quebro as molas do meu joelho
como um lord albanês deserdado
pela fama e pela fortuna

não. meu barco aportará nos vazios
das amplidões do mar de lua
quando a nonagésima nuvem perfumada
ainda estiver discursando solene
no meio das calçadas do horizonte.

vou buscar os tesouros escondidos
pelos cavalos de areia dos homens
brancos de terror quando eu passar
vou estremecer as vozes moucas
das raparigas esbranquiçadas
nas praças de água corrente

vou tomar meu universo com cachaça
e me embriagar dos meus proprios versos
como quem enterra as verdades
sob as pálpebras que teimam
em permanecer abertas

vou desnudar os ídolos restantes
de Nova Granada de Espanha
e me ferir de preto e branco
com a espada de Sotero
e finalmente,
somente finalmente,
dormirei meu sono de além mar


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:28 AM.:.

Quinta-feira, Julho 22, 2004

atropelos de quinta-feira


libertário

saboreei
somente
o lodo
do lado
obscuro
da poça
podre
onde
ousei
pousar



carnificina

prendo
palavras
entre
os dentes

lambuzo
essas ancas
em vão

assim:
boca
coração


cântico de juras

amor
incontido
nos limites
da pele
branca

amor
de seio
: alma
sem tranca

(amor
traduzido
dessa forma
franca)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:20 AM.:.

Quarta-feira, Julho 21, 2004

trio de quarta

tenerezza

o tempo
assopra
seus cabelos

ela
continua
sonhando
de boneca


notte bianca

noite

silêncio

:açoite


strip tease

nu poeta
a poesia nua
se perpetua


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:35 AM.:.

Terça-feira, Julho 20, 2004

sobre amor e verbo

crucis

te descortino
sem a hipocrisia
das palavras doces

tua saliva
irriga matutinamente
meu falo

esse vão
coalhado
de triângulos

devassos
aromas do desejo

meu furor planando
sobre teu verbo
nos pedaços
de curva

desnudo
a ultima veia
do teu suspiro
e me esparramo
sordidamente
nos ângulos obtusos
que nosso desejo
forma


:: Postado Por Nel Meirelles :: 6:39 PM.:.

Segunda-feira, Julho 19, 2004

love time
(ao que sempre foi)

vento de chuva
água de desejo
desfalecidos
sobre a cama

banho
com gosto
de língua
de pele
de sabonete
e espuma
da vontade
de ser de novo

bocas de fome
coxas de encontrar
coxas
mãos de tecer
desafios

Renato Russo
ainda canta sem
saber

eu te vejo

recomeço
a ser


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:33 AM.:.

Domingo, Julho 18, 2004

Sábado, Círculo Militar. Urca, Rio de Janeiro (aos pés do Pão de Açúcar)

Ontem foi dia de muita chuva no Rio. Vento forte, agasalhos saindo dos armários para ver a cara da cidade. E foi dia também de mais uma derrota do meu time, de mais vexame de bola. Tudo isso, entretanto, ficou sendo de menor importância porque ontem também foi dia de encontrar amigos no Círculo Militar. Manoel Carlos, Silvia e Flora, Moacir Lopes, Moacy Cirne, Nana e Cosmos, Eugenia out of the meadows.

Tarde passou rápida. Papos gostosos, bom humor, piadas. Moacy se revelou um profundo conhecedor de futebol, com uma memória exemplar. Eu, se fosse da televisão, contratava o cara pra um programa de esportes.

Manoel Carlos inteligente, rápido no raciocínio, sagaz, muito culto. Silvia ainda me "matando" por causa de um certo macaquinho que assassinei quando menino.

Cosmos e Nana, bonito de se ver. Brilho de amor nos olhos... de encantar qualquer um.

Com Flora pouco conversei, mas deu pra perceber que puxou ao pai. Eugenia e seus poemas, grande papo também.

Moacir Lopes, que foi meu companheiro de ir ver o jogo na tv lá fora, como desculpa para fumarmos nossos cigarrinhos. Ele, vascaíno quase doente e meu eterno vice-campeão.rs

Manoel documentou em foto o encontro. Acho que ele vai publicar no Agreste em breve. Eu não levei máquina (nem me lembro se tenho uma), mas deixo registrado aqui meu contentamento pela tarde de ontem e meu agradecimento a essas pessoas tão especiais.

E um poeminha meu, nessa tarde chuvosa e fria aqui no Rio. (quando será que o sol vai voltar? sinto falta do gosto dele em meu rosto....)


passageiro

o cigarro
jazz na
mão cortada
de crimes
abandonados
na mesa

a poesia
como fumaça
chega
se desfaz
passa


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:29 PM.:.

Sábado, Julho 17, 2004

dos sábados chuvosos do Rio de Janeiro

noite I

quando me assombro
nessas úmidas noites
sem lua

uma prece
me mantém são:

a lembrança
de uma mulher
nua


da noite II

a canção da estrela
ainda escorre
pela parede
do quarto
silente

uma mulher não dorme

espreita na cama
à espera do homem
que lhe adoce
a escuridão.


de mim

sou assim:
verso inacabado
luz que se apaga
um copo vazio
que um dia
embebedou
a poesia


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:48 PM.:.

Sexta-feira, Julho 16, 2004

pietá


porque o despertar

é vão


porque escavo fantasmas

no peito


porque sou estilhaço

de vida


porque me olho e ouço

o nada




:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:54 AM.:.

Quinta-feira, Julho 15, 2004

sétimo dia. sem descanso.

evidências

escrevo
logo
vivo

brilho
logo
estrelas

amo
logo
existes


passarinho

bem-te-vi
de flores

bem-me-queres
de amores


temporal

a chuva
me rouba
pedaços
de mágoa

(uma gota:
sou triste

uma gota:
sou água)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:46 AM.:.

Terça-feira, Julho 13, 2004

terça à noite

Postando novamente hoje, já que amanhã não estarei em condições de fazê-lo. Aproveito para agradecer à Li Stoducto, que me deu o prazer de publicar o meu poema rio a contra gosto no seu site RJ Sinfonia, em Rio Verso. Agradeço a honra, de coração.

trôpego coração

meu coração tropical
de boscos e macalés
de mossorós e igapós

de belos horizontes
e piauís distantes
de portos alegres
de meninas do brasil
de corações democratas

descortinou-se
por inteiro:

rio do janeiro
que me olha
por trás da lua
e ri de mim


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:58 PM.:.


insônia
(essa vontade imensa de ser...)

devolutório

(me perdoem
todas as musas
que ousei
um dia

minha musa
maior
é a própria
poesia)


assemia

a poesia é forma de vida
que salta pelas pupilas
de quem com ela conspira

a poesia é como uma luz
que ressoa no silêncio
o começo de uma partida

a poesia é o que resta
quando o nada acontece


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:03 AM.:.

Segunda-feira, Julho 12, 2004

das vazias segundas chuvosas


moto perpétuo

cada poema
que exalo
esculpe no peito
um vazio

continuo
porque me recrio


porto solidão

essa estação de trem
em meio ao porto
traz cheiro

de horizonte morto
de coisa que quero

e não vem

esse barco que atraca ligeiro
em meus versos
é saudade onde me ponho
à espera do sonho primeiro


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:37 AM.:.

Domingo, Julho 11, 2004

io che non vivo sensa te


conscientiae

na fumaça
meu medo
agarro

(não apagar
o cigarro)


ofertorium

verdejas
na hora
certa:

devoro
a oferta


profecia

meu sono
em tua boca
há de um dia
deixar-te
louca


idillio

morro de vida
no nascer da
despedida


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:39 AM.:.

Sábado, Julho 10, 2004

conto, poemas e tão somente eu


insensatez

Era como se a razão o houvesse deixado sozinho na estrada. Não conseguiu percebê-la. Em seu ouvido gritavam ordens: tão somente duras palavras de rancor e desespero.

Entregou-se, vencido, ao próprio velório matutino.


notte bianca

calo
meu silêncio
de ausência
com a mão


piccolo

sou
quando não sou

(destruo
o ontem depois)

perco
meus segundos

resta isto:
um pedaço de dois


ritorna

pedra solta
de rua
onde piso
com pés
de quem volta
sem ter ido


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:38 AM.:.

Sexta-feira, Julho 09, 2004

desn(er)udando a noite

"Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres."
Pablo Neruda



borboletas

copacabana
já morreu

as borboletas
se esparramam
no tapete
da sala onde
escondo em vão
o vazio
da minha mão


epitáfio

jazem aqui
destroços
de alma:

uns tantos
sonhos
(à guisa
de flores)

um punhado
de planos
como coroa
de dores

uns míseros
nacos
da fome
que tive

e metade
de mim

(a outra metade
finge que vive)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:47 AM.:.

Quarta-feira, Julho 07, 2004

das coisas de desandar a vida


zero a zero

desmadrugadou
essa manhã
em mim

nem eu
nem você
(fim)


blues da manhã

chove na rua
vazia

meus olhos
inundam
o dia


à queima-roupa

tua amplidão
dorme sem
poesia no quarto

os olhos fechados
murmuram
uma bala

me matas
so
le
ne
men
te
na sala


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:46 PM.:.

Terça-feira, Julho 06, 2004

terceto de terça


mínimo

paixão
ou surto:

verso curto


jornal de domingo

manchete
do dia:
o amor
se perdeu
na poesia


freedom

nem escravo
nem feitor

ser apenas
o que sou

(menino
perdido
de amor)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:18 AM.:.

Segunda-feira, Julho 05, 2004

ainda de luz e lua

lua cheia

raios da lua
derramados
na cama

reflexos
dos aromas
da mulher
que me ama


pirilampo

apagacende
verso
cabisbaixo

cantoria
de luz
onde me acho


eclipse

a lua
não me brilha mais
seus segredos

escancara
a face oculta
dos meus medos


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:45 AM.:.

Sábado, Julho 03, 2004

da lua e do não ser

lua nova

desiluminada
essa solidão
que meu corpo
prova

sem tua luz
meus desejos
são reflexo
da lua
nova


quarto minguante

minha boca
se despede da tua
como a manhã
faz à lua

teu sono me
deixa à mingua

caço no escuro
a tua língua


obituário

nos teus olhos
pedaços de mim
jazem em paz

teu espelho
não me reflete
mais


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:47 AM.:.

Sexta-feira, Julho 02, 2004

desejos e viagens

sonidos

nos sopros
da madrugada
chego
como língua
de perceber
os ângulos
da tua estrada


avatar

cavo teu acaso
busco tua água
encontro teu desejo
(contragolpe
do meu beijo)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:56 AM.:.

Quinta-feira, Julho 01, 2004

cachot

menino
saboreio
do meu peito
a vida lá fora

sonhos
transgressos

doida
desritmia
destes
doidos versos


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:47 AM.:.