Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Domingo, Outubro 31, 2004

desfaçatez

Não sou de dar pitaco no negrume do horizonte de ninguém e nem de mixar consolos e desesperanças. Deixo a boca aberta para que os dentes rosnem por si e a goela aberta pronta para engolir o resto do que restou. Essa é a poesia e esse é o drama.


existência

Porque é como hemorragia ignorar a própria ignorância e porque dói no peito cada pedaço de palavra que arranco dos meus poros.
Porque é duro entender que os versos não sobrevivem no meio do nada que se instaura no punhal partido do poema.
Porque é duro aprender que a vida não vive das palavras, mas das pessoas que falam.
Porque desse jeito, posso entender que o caminho não tem dobras nem espaços a serem preenchidos.
Porque assim, enxergo o motivo que leva o meu silêncio a gritar insistentemente nos meus ouvidos o eco silencioso da canção que eu queria compor de vazios.
Porque assim, existo.


pilhagem

minha trama de ser feliz
é costurada com os fios
de esperança do teu sorriso
e não percebes
e insistes em existir
na complexidade
imponderável
do inexistente

minha vontade de ser
é forjada com o fogo
de queimar alma dos teus olhos
e não me permites
e persistes na ausência
das palavras todas
que pensas existirem
nos toscos horizontes
onde desabita
o meu coração


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:50 AM.:.

Sexta-feira, Outubro 29, 2004

surdo ou mudo

quando calo
minhas palavras
vociferam
mais silêncio
do que já é dito

quando falo
minha boca devora
o silêncio das
inexatas palavras
que aborto
descuidadamente



:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:31 AM.:.

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

pares

uma metade
maçã
outra metade
sonho

um pedaço de tempo
infinito
outro todo de horizonte
deserto

um quase existe
de tão longe
o outro sobrevive
de tão perto


:: Postado Por Nel Meirelles :: 3:20 PM.:.

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

varal

amor rasga
estranhas estradas

vai breve
brisa volta

é a eternidade
do instante

: pendura sonhos
na alma


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:08 PM.:.

Sábado, Outubro 23, 2004

ressurreição

te amei desde o nunca
que existia antes
do primeiro dia

desassosseguei o menino
e lapidei a poesia
nos labirintos em ebulição
do teu sorriso


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:00 AM.:.

Quinta-feira, Outubro 21, 2004

horizonte

a poesia
me faz chão

a canção
me cabe em sonho

uma mulher
me eterniza no amor


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:03 PM.:.

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

águas

grávido da poesia
sem uísque com pedras de beijos
sem abraço de dormir
sem camisa de amor
sem dia branco
sem gal
estou deserto

não quero mais
ser tão somente
chuva fina de verão


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:49 AM.:.

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

posse

à noite
o sol
se traveste
de luar
e (re)pousa
sobre
o corpo alvo
da moça
distraída
no quarto


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:59 PM.:.

Sábado, Outubro 16, 2004

que coisa mais chavão é essa história de fazer balanço de vida no dia do aniversário! não quero isso pra mim não. não quero pensar em coisas passadas. me concentro em descobrir se o futuro tem uma carta embaixo da manga reservada pra mim.

quero saber é se na próxima volta do horizonte ainda há um rio caudaloso recheado de peixes banhando-se no reflexo da lua.

quero saber é se as borboletas do Belchior vão voar demais ou se os poemas do Drummond ainda vão perceber que os leio religiosamente todos os dias.

quero saber se o Manoel de Barros ainda vai pregar o horizonte na borda da saia do céu e se vou poder brincar de balançar nele.

enquanto vou catando estes pensamentos, ouso tentar definir coisas, desentocar o verso que anda me rondando a cabeça com seu fiummm de mosquito chato.

faço no meu campo o futuro da colheita madura que ainda vou ver brotar pela frente.

mais 55 vezes, quem sabe?


poesia

poesia é quando
palavras encontram sentimentos
e juntos correm pelos olhos
(brincam de
esconde-esconde
no papel)


tempo

envelhecer
é deixar a esperança
debaixo da cama
junto do chinelo
de estimação


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:47 AM.:.

Quinta-feira, Outubro 14, 2004

timidez

de cima
do armário
teus olhos
iluminam minha
noite
sorrindo

tua boca tem algo
mais próximo de mim
do que a tangência
das constelações
que guardei
no bolso da minha
calça nova de poeta

( e eu nem nasci de novo ainda )


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:57 AM.:.

Terça-feira, Outubro 12, 2004

rota 55

sou pedra que rola
solta no mundo
carregando entre meus dedos
todos os extremos dos sonhos
que salpiquei de ternura
pelos caminhos

o brilho dos meus olhos
ofusca o momento seguinte
onde a estrada
se curva diante do tempo

meu rosto traz marcas
do rastro do resto
do que jamais pensei ser
onde jamais poderei ir

: além do que sou

:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:19 AM.:.

Sexta-feira, Outubro 08, 2004

tel-aviv

é preciso mais que antes
para prosseguir pelas barrancas
e pelos pastos das cavernas dos homens

é preciso mais que nunca
o capítulo arrastado do que jamais
os sonhos deixaram de reviver

é preciso mais coragem agora
do que no tempo da iniqüidade
porque o tempo não espera mais
o momento de carpir dores

é preciso mais que necessidade
para devolver um pouco do mar
ao leito escavado dos rios roucos
e desvendar os senões das almas
dos suicidas sangrentos-loucos
que existem entre nós



:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:06 AM.:.

Quinta-feira, Outubro 07, 2004

samba de são paulo

o sangue
que transita
pelas esquinas
das tuas artérias
entupidas de vida
banha meus olhos
extasiados de ti


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:00 AM.:.

Terça-feira, Outubro 05, 2004

blues da manhã de verão

acordo todas as sílabas
na manhã do domingo
de dezembro
com os olhos
assombrados de sonhos

sei do café com não
no leite da tua pele
no leito da tua boca

(é o pedaço que falta da vida)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 6:07 PM.:.

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

trechos

tua presença
faz em mim
uma noite só
: intensa


trilhas

nos teus
atalhos
meus
(des)caminhos
de amor



:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:02 AM.:.