ícaro
dia desses, pego umas asas emprestas com um bicho de voar qualquer, despedaço umas nuvens (das brancas, que as pretas me assustam) e vou voar até que meus sonhos toquem teus lábios e te despertem de beijos.
gourmet
não sou de inflar medidas nem de descarregar fantasmas. guardo as dobras e as quebras cuidadosamente no átrio da paisagem obscura. talvez seja por isso que volta e meia quebro meu espanto e caio, comendo a minha própria fome.
pintura
as vezes que não fui sempre foram maiores do que as vezes que voltei. parei em cada ponto do mapa procurando as respostas das dores e só encontrei mesmo as cores. azuis.
fé
fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.
maresia
viver da pedra no meio das ondas. sentir as pancadas duras desse mar estacionado na pedra do canto de lá. sou marisco e sou nascer de sol. sou o cara que tem a mão de cantar, de prender as cordas do violão quando elas se espalham em um arrastão doido e me assaltam o peito.
anatomia de um crime
meus braços são as águas da cachoeira que despenca rolando pelas pedras e pêlos do meu corpo e desaguam nas pontas destes dedos que arrancam das palavras o sumo para beber nessa orgia de fome e poesia
saliva
tua boca
tem fome e forma
exatas
de leito onde
minha boca
se esparrama
abundantemente
com a angústia
de ser toada
calada
de anoitecer
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Nel Meirelles
::
9:01 AM.:.
manual de sobrevivência na seiva
troquei beijos com a morte
tantas vezes
nos setembros e agostos
e sempre fui rouco
do canto da velha sereia
e permaneci sentado
na minha poltrona de braços
no paralelo extremo
do sul do horizonte
sobrevivendo nos muitos espasmos
que este universo
de poesia e sustos
me despeja
a cada manhã
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Nel Meirelles
::
7:29 AM.:.
Quarta-feira, Novembro 24, 2004
dupla face
hoje a morte
se mostrou pra mim
duas vezes:
uma quando ela
assumiu ares
de bala
(nem tão perdida)
e murmurou
obscenidades
no meu ouvido
outra ainda agora
quando vi o homem
que morava
no prédio da frente
brincando de passarinho
e querendo voar sem asas
(eu não sabia
que passarinhos
fazem barulho
quando batem
no chão)
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Nel Meirelles
::
8:44 AM.:.
Segunda-feira, Novembro 22, 2004
panis et non-sense
já me desesperei
pelas ribanceiras esquerdas
dos rios mansos
de Santa Clara
já chorei
os mares e os ventos
de onde partiram
as lesmas de Setembro
já me matei e renasci
umas quatrocentas e quinze vezes
nos últimos seis gerânios
que me calçaram
na semana passada
chega
respiro gás carbônico
por entre os dentes
trancados e trincados
de poesia
sigo
só
sem
sentir
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Nel Meirelles
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7:39 AM.:.
Sexta-feira, Novembro 19, 2004
serenata
dois cães
uivando
na noite vazia:
o poeta
e a poesia
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Nel Meirelles
::
8:48 AM.:.
Quarta-feira, Novembro 17, 2004
assalto
poesia é gume
de faca
que penetra
e arranca
por cada fresta
o que resta
da alma
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nota: obrigado ao amigo
Moacy Cirne por ter destacado o
Fala Poética em seu
Almanaque do Balaio Vermelho. É sempre uma honra ser citado por ele. Um abraço, meu caro amigo.
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Nel Meirelles
::
8:25 AM.:.
Domingo, Novembro 14, 2004
madrugada carioca
é a hora do trem
que carrega as toscas
desesperanças
com seus parcos olhares
e econômicos sorrisos
rumo às casas pequenas
dos distantes subúrbios
é a hora em que os projéteis
fustigados de insensatez
encontram abrigo certeiro
nos peitos dos meninos magros
que brincam de viver nas vielas
mal-cheirosas dos morros
famintos que espreitam a cidade
é a hora
em que meu coração
partido e parido
em duzentos brasis
dói da dor
de ver a morte
enchendo com os trinta dinheiros
os bolsos dos que não respiram
hora das bocas
que sanguessugam
o pulsar
da minha
cidade
desadormecida
sem
paz
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Nel Meirelles
::
1:02 PM.:.
Quarta-feira, Novembro 10, 2004
vampiro
sou inocente
no destroçar
das veias da
poesia
quando escrevo
sangro as palavras
e entrego a
h e m o r r a g i a
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Nel Meirelles
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8:11 AM.:.
Segunda-feira, Novembro 08, 2004
botequim
amasso as sombras
esquento as cervejas
me ressinto da febre
aumento o tom da vontade
sonho o sonho
e deixo bater até sangrar
drinque estranho
esse
que mal consigo sussurrar
pela garganta ferida
: tem sempre uma gota
fugindo pelo canto da boca
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Nel Meirelles
::
5:06 PM.:.
Sábado, Novembro 06, 2004
ainda ando com o tempo medido, contado. ainda ando nas trilhas de céu, de lá pra cá e de cá pra lá, tentando sair das águas e aprender a nadar. enquanto o tempo me esgota, agradeço aos amigos que publicaram escritos meus recentemente:
Paola Caumo - em
A Poesia Continua
walkwoman - em
walkwoman
Dhu - em
http://dhuzilda.blogdrive.com/
Vivi - em
Espaço Meu
Suze - em
Go Back
mais um trio pequenino, neste sábado modorrento no Rio
sub judice
sou meu carrasco
como
o cigarro
morro
no escarro
em meio ao fiasco
sabiá
rumo
de noite em bar
qual bêbado sabiá
lavoura
o meu arado
escorre sulcos
e sementes
no teu cansaço
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Nel Meirelles
::
12:13 PM.:.
Quinta-feira, Novembro 04, 2004
pequeno trio de violinos e cello
drink
solidão é uma dose
dupla de mim
com tuas pedras
de gelo
muleta
essa poesia toda
que molha minhas mãos
é o jeito
de me esconder à noite
no meio das cachaças
por onde não passas
fulano de tal
amor
é o pseudônimo
delicado
da dor
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Nel Meirelles
::
8:58 AM.:.