(hoje ouvindo Summertime, com Charlie Parker)
dica de leitura
Foi publicado em português o livro "Esperando Foucault, ainda", do antropólogo americano Marshall Sahlins. Leitura excelente para curar chateação, babaquice ou engulhos literários. 112 páginas com 30 textos sobre cultura, esnobismo intelectual e empulhações em geral, deliciosas de serem lidas.
Eu li de uma vez só, em pouco mais de duas horas e meia. Leve na forma e divertido no conteúdo, o livro de Sahlins é coisa séria. Ele dá uma deliciosa porrada nos cientistas sociais de plantão e nos pseudo-intelectuais que convertem tudo a uma questão de poder, em uma entidade que explica (ou confunde) tudo: "O poder é o buraco negro intelectual para o qual todo e qualquer conteúdo cultural acaba sendo sugado". Sahlins diverte-se e diverte-nos com o esnobismo da "resistência cultural".
Vale a pena ler.
de olho na poesia
temporariamente o "de olho" está fora do ar. sem data pra retorno, o que não significa que eu não continue garimpando. um dia, quem sabe...
caminhos
cada vez mais me convenço que estas estradas são estreitas demais para comportar todos os sinais de ventania ancorados nos sonhos. Cada vez mais me convenço que caminhar sem pensar é mais que preciso: é vital. cada vez mais fico atônito com as curvas que cruzo quando sonho desmaiado nos braços da solidão. cada vez mais me convenço que é mister esperar que a estrada se curve e se dobre em ângulos obtusos em cada constelação esperada.
gaiola
saber-se livre é reconhecer-se irremediavelmente preso no amor
vôo cego
nem bem tuas as asas secaram, nem bem saí do ninho, já te atreves a visitar insistentemente as nuvens negras do meu céu. esquecendo o azul perdido nos meus olhos e cortando as minhas asas.
de domingos e tomates secos
cada pedaço de mim retesou-se ao enxergar no azul do céu as pegadas estranhas dos antigos monstros que me aterrorizam debaixo da cama
letras imortais
homenagear compositores é obrigação e não favor. eis uma letra (e uma canção) que me toca sempre que a ouço:
Eu Não Existo Sem Você
(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)
Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo
Levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você
Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você
Dois poemas de domingo e um projeto de segunda
janelas
o que se espalha
além das janelas
é resto de montanha
e réstias da palavra
que nunca quebrou pedras
escavadas de mar
do lado de dentro
um tanto de poesia úmida
dois sonhos da madrugada
um tango solitário
os versos são as gotas
da chuva que cai
impiedosamente
sexto sentido
cuspo as lágrimas
que nascem das sombras
e percebo que o sangue
que brota do que morre
pelas minhas costas
nunca deixou
de ser o vermelho
ainda tento
estancar a hemorragia
teoria de complô
tu escreves
eu não leio
tu te enganas
eu vou de roldão
tu escorres pelos dedos
eu comungo a solidão
tu arrancas meus pedaços
eu vazio dos teus braços
tu vives descaminho
eu sobrevivo sozinho
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
10:34 PM.:.
religião
não sou e nem pretendo ser intelectual, desses que ditam verdades e deitam nas normas. desses que aproveitam qualquer buraco para despejar a sua cultura vazia.
prefiro ser apenas um homem que ainda ama e sonha e quer e vai e volta.
prefiro ser eu mesmo, mostrar a minha cara do jeito que sei e que sou e me embebedar com as palavras que escrevo, sem pretensão de ser poesia ou virar poeta.
sou apenas um homem-bicho-menino-doido-varrido-de-pedra-de-pó que ousa viver, impunemente.
pequena parábola amorosa
e no princípio
o amor foi
a eternidade
única
do instante
único
depois o amor
pariu o silêncio
que brilhava
na brasa semi-adormecida
do cigarro insone
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
2:35 PM.:.
Sexta-feira, Dezembro 03, 2004
patético
pensava que a vida era apenas uma maneira de ser mais do que simplesmente a fera latente no peito.
pensava que a vida era só um modo de sonhar. pensava que a vida era imensamente doida e doída, como as gargalhadas dos aprisionados nos próprios desesperos.
pensava tanto sobre a vida e - espantado - descobriu que ela sempre coube na boca de uma mulher.
contraste
não me adianta
bocejar o dia
e esquecer as manhãs
sobre o muro do quintal
não me adianta
viver o que resta da poesia
que meus olhos encontram
nos úmidos cantos da vida
ainda rosnam em mim
todas as palavras do mundo
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
2:16 PM.:.
Quarta-feira, Dezembro 01, 2004
girassóis
o amor apascenta
as pequenas
gotas de beijos
que descansam
nos teus olhos
( os girassóis quase sempre
sonham horizontes azuis )
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Nel Meirelles
::
7:35 AM.:.