Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Sexta-feira, Dezembro 31, 2004

postado ao som dos vales e das corredeiras entre as montanhas onde vivem meus pesadelos

ano novo

de repente me dou conta que o tempo virou de novo. as mariposas esvoaçam nos espaços que abro inconscientemente nos meus dedos. há um começo de mescla de idéias que não para de murmurar nos meus ouvidos. o horizonte se curvou um pouco mais e quase não consigo alcançar suas pontas. agonia de prenúncio de noites claras conquistadas à custa das estrelas bêbadas. a agulha do tempo mostra o caminho que não devo seguir. não sei. talvez me espraie em algum rio oculto pelas matas. talvez mergulhe de novo nas areias quebradas do fundo da lua. talvez fique encapsulado na minha casca e chafurde cada vez mais neste pântano patético de poesia. talvez simplesmente pare de respirar. só.


roda viva

vem janeiro
esfaqueando
de novo
as minhas costas

uma sangrias
de dias
de semanas
de meses
balbuciados
em surdina

me recolho
de silêncio
e me reconcebo
no útero
do limiar
desta estrada


solstício

ser menino nunca me deixou ser homem. bem que eu tentava. corria atrás da maturidade com tanta fome que me pegava rindo do meu próprio desatino.
hoje o homem me faz menino, do jeito bobo que eu sou. posso empinar a minha pipa nos céus que encontro azuis; posso andar de bicicleta pelas trilhas do arco-íris, posso navegar no meu barco e banhar meus pés nos sorrisos que provoco com a minha seriedade. sou mais menino agora. e mais feliz.


tsunami

exilado do mar, me refugio nas montanhas verdes vazias de azuis. banho meus pés nos córregos da vontade e bebo da água espessa da chuva que não cai hoje. queria era trocar dois pios de passarinho pelo surdo som da tsunami que invade a noite escura. queria era trocar quatro folhas de mangueira por um par de sapatos de caranguejo e dois luares por uma chumbada perdida. queria era descer escadas caçando café de manhã e descalçar a tristeza que vesti anteontem.



páreo

meu cavalo
serpenteia
pelas campinas
do teu ventre

o galope
germina
o trote
denso
do gozo


reparação

sempre perdi o jogo no começo. sempre fui imaginado. sempre fui a impossibilidade da vontade alheia. hoje sou, amanhã desafino. hoje posso, amanhã a luz se apaga. hoje os dedos me afagam, amanhã tenho a mão amputada. o sol maior vira lá menor. fico preso neste círculo de sangue e ossos. obecedendo. apesar disto, ainda sou ferreiro de forjar saudade sem martelo. carrego tamanha dor que talvez do meu egoísmo não sobrem colombinas para alimentar os outros cavalos-marinhos. daqui, da montanha escondida onde me mostro, não percebo mais do que uma pequena réstia de mar azul. não escuto mais que o rufar do meu desalento. não alcanço mais do que as bordas do meu umbigo. ferido.


passageiro

posso ir
para toquio
ou passear
em shangri-lá

por mais que eu me vá
não saio nunca de mim


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:21 PM.:.

Terça-feira, Dezembro 28, 2004

postado em homenagem à minha amiga Nádia Fernandes, tão solidária sempre, tão irmã e tão gente.

infarto

eu não me incomodo com mais ou menos rabiscos nos meus olhos. quando escrevo, sou tão egoísta que me permito exibir essas crias como se fossem poesia. não são. são sístoles e diástoles que pulsam nas minhas mãos.


concretismo

a poesia é concreta? o sonho é concreto? não sei. tão somente aceito o destino que me foi dado à revelia. por isso persigo a poesia.


mudanças

que importa se a porta fechou? não estou nem aí. trago dentro de mim uma gazua que vai abrir todas as escadas e portas que os tolos ainda teimam em querer construir.


andarilho

caminho no meu violão
as estradas de um blues

meu terno é gasto
meu destino ainda azul

não preciso nada além
do que verdeja dentro
e orbita em mim

as estradas do teu blues
caminham no meu violão


fumaças

enquanto escrevo
fumo
a poesia
caída nas cinzas
é risco de brasa
que pernoita
neste leito
vazio


diamante

eterno brilho
que trilho
nos olhos teus


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:04 PM.:.

Domingo, Dezembro 26, 2004

postado ao som do ventilador de teto expulsando as gotas do meu suor

balancete de natal

um cuba
seis canecas para café
alceu e suas canções
uma camiseta de português
com cara de sacana
o santo graal que me dei
dois AR de Santanna
um Drummond
pedaços de Quintana
esperança de uma semana
planos de ano novo
a confiança do Gu
(não esquecer
os óculos escuros)
o fim de semana em Búzios
um punhado de músicas
a noite neste quarto
cadarços novos pro sapato
e o gosto de sonho
na taça de vinho
intocada na mesa


tentativas e experimentos






:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:04 AM.:.

Sábado, Dezembro 25, 2004

post especial de Natal


escapada

acabei de escavar duas rochas imensas e encontrei a noite. corri pela praia buscando os querubins que disseram existir entre os grãos de areia. nada. nem mesmo as ondas estavam lá. era uma imensidão inerte. morna. espessa. nem mesmo as palavras estavam dizendo mais que o silêncio. me tranquei. fechei os ouvidos e os dedos em torno dos fogos teimosamente espocando nas estrelas. as lembranças nem cabiam na bolsa barata de plástico onde as pus. transbordavam abundamente e caíam na palma da mão quietas. apenas me espreitavam sorrateiramente. uma tocaia sem fim. e era Natal. e ainda assim teimei em deixar as veias abertas para que a poesia escorresse em vermelho. ainda assim deixei uma réstia de esperança se esgueirar por entre as frestas da janela para iluminar minha pele alva. ainda assim continuei.


presente

minha amiga Diana-Dru me presenteou com um poema, no amigo oculto promovido pela Loba. não tenho como agradecer a não ser prestando a minha homenagem a ela e postando aqui o poema. ei-lo:


Para Nel Meirelles,
uma pessoa que tem meu respeito e carinho.
um poeta, sim.


"Senhor dos Noturnos"

Pra espantar desassossego
transito lua alta
e despacho céu

Minha soturna clareza
decifra
que o insano
o improvável
o insustentável

são minhas estrelas

não são as manchas solitárias

meus pensamentos
compreendem os terrenos baldios

e a minha musa
tem essa alma
que varre quintais

sou gari
guri palavreado
sim.

Diana-Dru


livro

diversos amigos me perguntam pelo meu livro. ele está nascendo. estou brincando de artista gráfico e rabiscando a capa.




peneira

acho que é sina. continuar e continuar sempre buscando beleza. sempre buscando a palavra justa. o verso que mostre a cara que tenho nos momentos em que esqueço de ser e sou.


cansaço

estou exausto
de encontrar palavras
caídas nas esquinas
de mim


receita

chuva piando
no telhado

barulho
no olhar encardido
encaro o horizonte

pincéis e tintas de salgueiros
espremo mais dois dezembros
três quartos de janeiros
umas pitadas de março
e um tanto de abril

inútil
as cores continuam
estáticas


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:12 AM.:.

Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

mergulho

quando espremo as palavras e delas extraio o sumo, minhas mãos tremem assustadas. persisto porque sem elas - as palavras - não sei mergulhar nos meus sonhos abissais. prossigo porque sem elas o senso não faz sentido. porque sem elas não existe o que persigo. porque sem elas deixo de ser o que sou. simplesmente inexisto.


noturno de dezembro

a lua dançava
na praça
de antônias
margaridas
setembrinas
colombinas
tantas que não lembro mais
era tango e era jazz
e era luxúria
e era recato

(era o tudo que faltava
no amanhecer do fato)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:55 AM.:.

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

a música não está aqui hoje

crença

creio em mim
esse emaranhado anacrônico
de pêlos e pele e poemas
de lágrimas esparsas
e peito amarfanhado
de pernas esquecidas
de caminhar no tempo

creio em mim
esse ribombar
silencioso de paixão
essa coleção
estapafúrdia de fatos
esse maldito violão
um algarismo tresloucado
escorrendo de escuridão

creio em mim
que vivo o porquê
desencontrado do antes
sem esperar o depois
que me imagino uno
e finjo que sou dois

creio em mim
finalmente
porque sopro horizontes
e despejo noites
em todo branco que encontro
que sou feito um cetim
de esgarçar a pele sem tocar
porque caço-faço-traço poesia
menino-homem-começo
fim


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:22 AM.:.

Terça-feira, Dezembro 21, 2004

postado ao som de Ponto de Interrogação, com Gonzaguinha

bom dia

deixa tua coxa
perdida na minha
e teus cabelos
desfolhados no meu peito

deixa minha mão ser alvorada
que sacia tua fome
no encaixe perfeito
entre meu nome e teu nome

deixa refrescar minha
língua cansada
nos teus rios matinais
e cravar minha bandeira
nas bordas dos teus cais

deixa que meu corpo
seja oração e açoite
que te purifica e te assalta
no tempo claro que persiste
entre teu dia e minha noite


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:22 AM.:.

Domingo, Dezembro 19, 2004

postado ao som irritante de uma TV ligada ao longe.


desleixo

o amor escancara
as gavetas

vai
- brisa -
volta

é eternidade
de instante

: perfura sonhos
na alma

(mata às vezes)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:18 PM.:.

Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

postado ao som de Baby I need your lovin´, Com Johnny Rivers

zoológico

nem me viram
através das grades
onde me espatifei

e eu era somente
animal engarrafado
de sonhos de prisão


vontade

hoje é dia
de todas as bocas
sugarem vida
em todas as bocas

( talvez por isto
eu esteja
m
o
r
t
o )


expedición

tu buque se partió
en aventuras lejanas
tus manos, pedazos de mi,
aún abren mis ventanas


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:21 PM.:.

Quinta-feira, Dezembro 16, 2004

postado ao som do ar condicionado zunindo nas sombras deste quarto de hotel

café na cama

quando a preguiça acorda
preparo o café
em três palavras
sonolentas
encontro tua mão
sem pressa
e provo na tua boca
o gosto do pão


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:35 PM.:.

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

hoje sem música nem flores (estas deixei encostadas na praça perto da igreja)

papofagia

fala sério, cara! e vc acha que alguem nesse mundo se entende? eu sou um total desconhecido pra mim mesmo. azar. continuo empalidecendo toda vez que me encontro. continuo escrevendo porque a vida é curta e não quero perder nenhum capítulo. nem o final.


nem sombra

quando desperto
assombrado da noite
é que bebo teu sangue
em paz


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:03 PM.:.

Terça-feira, Dezembro 14, 2004

postado em meio à poesia engarrafada que chega aos meus ouvidos aqui no vigésimo andar onde quase alcanço o céu e onde o azul me foge das mãos por um triz.

sampa em medo

vi sampa clara
com suas tortuosas
trilhas banhadas
de manhã no dezembro

um surdo mudo
despedaço de serra
libertário-libertino
que marca o eco
do meu pavor
de me chocar com um momento
qualquer do infinito
e deixar de ser


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:33 PM.:.

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

postado ao som de Eu preciso aprender a ser só, com Elis Regina

apelo

acrescenta nas minhas veias
toda a poesia derramada
e me dá vida
que a morte
é susto de furar meus olhos
é como faca de corte sem corte
que quer se aconchegar em mim


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:17 PM.:.

Domingo, Dezembro 12, 2004

postado ao som de Hotel California, em versão acústica, com Eagles

trégua

preciso de um
indulto de natal
uma trégua
de guerrilhas

qualquer coisa
que afaste minhas costas
dos azulejos frios
e as reponha de volta
nos meus poemas vazios


eu em calda

nunca foi doce
nunca deixei minhas praias
mergulhadas em calmaria

nunca fui perfeito
nem sequer permiti que meu sono
madrugasse sorrindo

por isso não quero
teu choro
nem lamber teu riso

quero é cravar meu dente
no alvo alvo do teu ventre
e desmoronar embriagado
no teu céu particular


ousadia

minha torpe mão
lambe tua pureza
e te (des)cobre
prenhe de desejo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 3:32 PM.:.

Sábado, Dezembro 11, 2004

pensamentos esparsos em uma manhã de chuva forte
(escrito e postado ao som de Todo o Azul do Mar, com Beto Guedes)


serventia

poesia
serve
pra ser
poesia


fusão

no meu corpo
não há cansaço
no se amoldar
ao teu


ânima

meus olhos nus
são o indecente
reflexo que pus
no insondável
dos olhos teus


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:46 PM.:.

Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

hoje ouvindo o som do trânsito atrás das persianas e um baticum forte no peito


construção

viver é despejar água
no ralo da rua
e roer o rolo de cana
roubado da casa do vizinho
roliço


Maria Júlia
(para uma recém-nascida)

teus olhos
pequenos
pedaços de vida
escancaram o mundo
com jeito
de doçura de mel


lei áurea

um sanhaço murmurou
no meu ouvido
que aboliram a solidão

todos os silêncios
todas as ausências
todos os vazios
são companheiros
que carrego nas mãos
enrugadas de preces


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:27 PM.:.

Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

(postado ao som de Me and Bobby McGee, com Janis Joplin)


notas

mais uma vez o meu amigo Moacy Cirne publica um poema meu no Balaio Vermelho. desta feita meus girassóis (publicados no Fala no dia 1 de Dezembro) foram plantados lá. e eu, parado aqui, agradeço.

três pequenos contos que escrevi há muitos meses atrás foram publicados no jornal O Dia, de Teresina, Piauí. Agradeço à amiga Suze, de Go Back, pela força.


possessão

minhas mãos
cravam nas tuas ancas
a dor do meu desejo

teu olhar
me possui a alma
com a fome do teu amor



paralelos

eram dois rios
sem curvas nem sinais

um de águas claras
intocadas dos animais

o outro de profano
se entregava pelos cais

eram dois os rios
escorrendo no jamais



estelionato

meu crime
corrompeu-se
de despropósitos

beijei
a face da felicidade
com gosto de sombra

foi tudo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:26 PM.:.

Terça-feira, Dezembro 07, 2004

de poesia, canções e toda a música

(hoje, Piaf canta La vie en Rose somente pra mim)

continuando com o que considero o melhor da MPB, escolhi para hoje o mestre Cartola

cordas de aço

ah ! estas cordas de aço
este minúsculo braço
do violão que os dedos meus acariciam

ah ! Este bojo perfeito
que trago junto ao meu peito
só você violão
compreende porque perdi
toda a minha alegria

e no entanto meu pinho
pode crer, eu adivinho
aquela mulher
até hoje está nos esperando

solte o teu som da madeira
eu você e a companheira
na madrugada iremos pra casa
cantando


canção do sol

quando a lua vem vindo do arpoador, encontro poemas escondidos debaixo daquela pedra grande que fica do lado esquerdo do horizonte. minha perna geme quando me levanto apressado do meu delírio e abraço o reflexo que se banha no mar ainda morno. nem sei como ainda ouso interromper o ciciar das cigarras de verão com as palavras que descubro nas pontas das suas asas transparentes. talvez seja apenas barulho de latas velhas, que precisam desse ruído para exprimir a própria inconsistencia, talvez sejam os sons do vento gritando aquela velha canção de amor nos meus ouvidos. talvez sejam mais do que as promessas feitas de sal. ou penugem dos pardais cantores do verão.

não sei. só posso mesmo é continuar juntando esses cacos de letras e desconstrui-los antes para que sejam poemas depois. assim sou eu e assim é a poesia, em mim.

goste quem quiser gostar.


calendário

eu que já havia morrido de outubros despenco hoje no dezembro branco, com gosto de piano de cauda calado, de violão com corda partida, de ladeiras a não subir, de ausência e silencio.



filho de ghandi

poemúsica que desafina nas cordas secas do meu violão e na aridez das últimas cordas vocais da minha garganta. versos incoerentes e colcheias vazias


barulhos e ouvidos

quando era menino, tive uma professora de piano que me ensinou o pas-de-deux das notas brancas com as pretas. e me ensinou tambem que música é pra quem tem ouvidos de ouvir. pros outros, é somente um barulho surdo ecoando nos ouvidos moucos.


teus olhos

não são espelhos
da alma
e nem esconderijos
de sonhos

são apenas
os olhos da mulher
que eu amo


descoberta

nem homem
nem poeta
nem menino

sou tosca
marionete
nas trilhas
do destino


desejo

a noite crua
assusta a cama
e te faz nua
no espaço cru

minha boca
invade teu sonho
e te faz embriagada
de gozo
em mim


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:00 PM.:.

Domingo, Dezembro 05, 2004

(hoje ouvindo Summertime, com Charlie Parker)

dica de leitura

Foi publicado em português o livro "Esperando Foucault, ainda", do antropólogo americano Marshall Sahlins. Leitura excelente para curar chateação, babaquice ou engulhos literários. 112 páginas com 30 textos sobre cultura, esnobismo intelectual e empulhações em geral, deliciosas de serem lidas.
Eu li de uma vez só, em pouco mais de duas horas e meia. Leve na forma e divertido no conteúdo, o livro de Sahlins é coisa séria. Ele dá uma deliciosa porrada nos cientistas sociais de plantão e nos pseudo-intelectuais que convertem tudo a uma questão de poder, em uma entidade que explica (ou confunde) tudo: "O poder é o buraco negro intelectual para o qual todo e qualquer conteúdo cultural acaba sendo sugado". Sahlins diverte-se e diverte-nos com o esnobismo da "resistência cultural".
Vale a pena ler.


de olho na poesia

temporariamente o "de olho" está fora do ar. sem data pra retorno, o que não significa que eu não continue garimpando. um dia, quem sabe...


caminhos

cada vez mais me convenço que estas estradas são estreitas demais para comportar todos os sinais de ventania ancorados nos sonhos. Cada vez mais me convenço que caminhar sem pensar é mais que preciso: é vital. cada vez mais fico atônito com as curvas que cruzo quando sonho desmaiado nos braços da solidão. cada vez mais me convenço que é mister esperar que a estrada se curve e se dobre em ângulos obtusos em cada constelação esperada.


gaiola

saber-se livre é reconhecer-se irremediavelmente preso no amor


vôo cego

nem bem tuas as asas secaram, nem bem saí do ninho, já te atreves a visitar insistentemente as nuvens negras do meu céu. esquecendo o azul perdido nos meus olhos e cortando as minhas asas.


de domingos e tomates secos

cada pedaço de mim retesou-se ao enxergar no azul do céu as pegadas estranhas dos antigos monstros que me aterrorizam debaixo da cama


letras imortais

homenagear compositores é obrigação e não favor. eis uma letra (e uma canção) que me toca sempre que a ouço:

Eu Não Existo Sem Você
(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo
Levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você


Dois poemas de domingo e um projeto de segunda


janelas

o que se espalha
além das janelas
é resto de montanha
e réstias da palavra
que nunca quebrou pedras
escavadas de mar

do lado de dentro
um tanto de poesia úmida
dois sonhos da madrugada
um tango solitário

os versos são as gotas
da chuva que cai
impiedosamente


sexto sentido

cuspo as lágrimas
que nascem das sombras
e percebo que o sangue
que brota do que morre
pelas minhas costas
nunca deixou
de ser o vermelho

ainda tento
estancar a hemorragia


teoria de complô

tu escreves
eu não leio

tu te enganas
eu vou de roldão

tu escorres pelos dedos
eu comungo a solidão

tu arrancas meus pedaços
eu vazio dos teus braços

tu vives descaminho
eu sobrevivo sozinho


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:34 PM.:.

Sábado, Dezembro 04, 2004

religião

não sou e nem pretendo ser intelectual, desses que ditam verdades e deitam nas normas. desses que aproveitam qualquer buraco para despejar a sua cultura vazia.
prefiro ser apenas um homem que ainda ama e sonha e quer e vai e volta.

prefiro ser eu mesmo, mostrar a minha cara do jeito que sei e que sou e me embebedar com as palavras que escrevo, sem pretensão de ser poesia ou virar poeta.

sou apenas um homem-bicho-menino-doido-varrido-de-pedra-de-pó que ousa viver, impunemente.


pequena parábola amorosa

e no princípio
o amor foi
a eternidade
única
do instante
único

depois o amor
pariu o silêncio
que brilhava
na brasa semi-adormecida
do cigarro insone


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:35 PM.:.

Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

patético

pensava que a vida era apenas uma maneira de ser mais do que simplesmente a fera latente no peito.
pensava que a vida era só um modo de sonhar. pensava que a vida era imensamente doida e doída, como as gargalhadas dos aprisionados nos próprios desesperos.
pensava tanto sobre a vida e - espantado - descobriu que ela sempre coube na boca de uma mulher.

contraste

não me adianta
bocejar o dia
e esquecer as manhãs
sobre o muro do quintal

não me adianta
viver o que resta da poesia
que meus olhos encontram
nos úmidos cantos da vida

ainda rosnam em mim
todas as palavras do mundo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:16 PM.:.

Quarta-feira, Dezembro 01, 2004

girassóis

o amor apascenta
as pequenas
gotas de beijos
que descansam
nos teus olhos

( os girassóis quase sempre
sonham horizontes azuis )


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:35 AM.:.