Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

pântano
há cadáveres
plantados na estrada

ossos amarelados
de lembranças

marcos silentes
do quase nada

restos desnutridos
de esperanças


invocação
não sei onde começa o universo e onde termino eu . caminho apenas com pernas de indagar e olhos de beber. um dia, haverá a curva e a pequena estação onde um trem me definirá.


petrificação
os olhos mal sacodem o universo. caço luz no suor da noite. atônito percebo que as estrelas se apagaram todas, como pirilampos fugindo da ventania. somente uma restou, incólume. e nessa,o universo se contrai como um imenso útero parindo poesia.


beija-flor
na dissonância da noite
dedilho no teu corpo
o que preciso
para sobreviver incólume
à minha própria vontade
de ser beija-flor


cárcere
meu desejo
está acorrentado
à tua pele
sem deixar elos
abertos entre
nossas bocas


adicto
não me compete
entender de vida
descosturar o fácil
ou adubar o difícil

me cabe somente escrever
como quem se perde no vício


picadilly circus
zé era somente zé. sem sobrenome nem idade. zé, puro. zé, solto. zé, mané. cresceu do nada e morreu como viveu. só zé.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:56 AM.:.

Quinta-feira, Janeiro 27, 2005

seqüestro
sou como uma extensa ravina, cujos limites se perdem nos contornos dos meus olhos. quando penso que a aridez me tomou o inverno, há uma matilha de palavras me emboscando bruscamente. e eu me rendo. e escrevo.


diáspora
me equilibro nos
pensamentos
desconexos

sigo porque
afinal
a poesia é
necessária


reflexo
não me faço de rogado quando me pedem um pedaço da alma. tenho muitas vidas dentro de mim. umas mais compridas, outras nem tanto. mas as tenho em profusão. só não me vendo e nem me prendo. nem a deus nem ao diabo.


catálogo
dois olhos
um poema perdido na mesa
uma boca que fala
e canta às vezes
dois braços
amplos
duas pernas
que correm ainda
estômago pra
aguentar o tranco
um coração bêbado
de amor
joelhos
que não se dobram
alma de menino
cara de brasileiro
mediano
e uma fome imensa
de beleza azul


childe hassam
muita gente me pergunta quem é childe hassam, que cito aqui no blog. ele foi e continua sendo um dos maiores pintores da escola impressionista. americano de nascimento, viveu entre 1859 e 1935, tendo produzido obras de imensa beleza. recentemente um de seus quadros, The Room of Flowers, foi adquirido pela "bagatela" de US$ 20 milhões. até o dia 25 de abril deste ano, quem for a New York vai poder ver uma exposição das suas obras no Metropolitan Museum of Art.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:12 AM.:.

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

postado ao som encorpado da chuva de verão

imensidão
era longe demais o mar. não conseguia divisar entre as nuvens o tal caminho que lhe haviam dito existir por ali. era somente atravessar a rua descalça e molhar os pés na areia. e a multidão estava lá. toda. os abraços, as bebidas, as cantigas de ninar. do outro lado, à beira da estrada deserta, o menino apenas fitava a cena. queria tanto beber do mar, queria tanto brincar de escorrega de areia, talvez dançar com uns tatuís distraídos. mas não. ele conseguia apenas caçar a sua própria aridez, enterrada no peito molhado da água das suas chuvas de janeiro.


espera
vou ficar sentado na borda do arco-íris. vou ver em cada estrela a única estrela que existe. vou desnudar as cores e fazer delas meu verde-azul-esperança. vou escrever em pedaços todos os recantos do meu coração, embrulhar em papel de horizonte e te dar de presente. no passado ou no presente.


espaços culturais do rio
Centro Cultural Calouste Gulbenkian

é um dos mais ativos centros culturais do Rio. além de espetáculos de teatro, dança, música e exposições de arte, oferece oficinas e cursos nestas áreas, quase sempre gratuitos. endereço: Rua Benedito Hipólito, 125 - Centro - Rio de Janeiro DDD: 21 Telefone: 2221-7760 Horário: De segunda a sexta, de 9h às 17h. Sábados e domingos, só o teatro abre.


raio x
os versos que escrevo
são o mapa
das minhas vísceras
expostas ao sol


caracol
estou escrevendo labirintos. dou voltas em torno da mesma parede e não acho um caminho diferente. as portas todas se abrem e fecham ao mesmo tempo. há um vento que escorre por baixo dos meus pés e me faz flutuar. há também esse abismo imenso que tenta me abocanhar e me engolir. choro, corro, salto, volto, escorro, escorrego, troco de mão, junto os pés, tento e tento e tento e o caminho se fecha. preciso encontrar a chave mágica que me faça caminhar em frente, que me tire do atoleiro, que me salve de mim mesmo.


simplesmente...
uma saudade que se entranha pelos cabelos, pelos pêlos do peito, pelos músculos das pernas. existe em mim você.


ferida
o instante de ir
é o que deixa o buraco

i m e n s o

aberto no peito
por onde a saudade
escorre como sangue de ferida


poema solto
escrever
é o
querer
chegar
que
não
chega
nunca


:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:54 PM.:.

Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

experimentos e tentativas




velhas palavras, velhos pensamentos, a mesma realidade.

dez tragadas de cigarro

O computador me chamando pra ele, me puxando, me provocando. Venho e me sento na poltrona. Acendo meu cigarro.

I
Sei que é tempo de ser feliz. É tempo de prestar atenção nas coisinhas que passam por mim e que até ontem eu não olharia com mais cuidado. Até mesmo o latido insistente do cachorro vira-latas preto do vizinho de frente tem beleza. A voz dele é grave e eu a diferencio das vozes dos demais cães da minha rua. Voz de tenor, Pavarotti se apresentando para uma platéia onde me incluo, nesta manhãzinha de outono. Ouvinte atento dele e da vida.

II
As lembranças da infância na Ilha do Governador, das pescarias de madrugada com os amigos e do prazer de cozinhar tatuís na beira da praia. De tirar a cocoroca do anzol e ouvir seu ronco. Sou um homem feito de sons e voltado para os sons. Daí meu lado músico, minha porção piano/violão, minha porção Tom Jobim e Caetano.

III
Algumas moedas espalhadas ao léu sobre a mesa, um maço de cigarros pela metade, um isqueiro, duas canetas, óculos escuros, dois cds de conteúdo desconhecido, um pedaço da minha alma caído atrás do monitor. Preciso juntar isso tudo e organizar a mesa.

IV
Esvazio o cinzeiro e penso em escrever alguma coisa que faça você, meu enésimo leitor, me achar um intelectual. Quem sabe um ensaio sobre os caminhos da poesia moderna brasileira, ou de como a cultura negra americana veio se fundir com elementos da nossa cultura..... Não, esse não sou eu! Cansei de ler imbecilidades e de pseudo-intelectuais vomitando besteiras para meia dúzia de aduladores. Cansei de ler pseudo-intelectuais inexpressivos criticando nossos ícones, talvez como uma patética tentativa de autopromoção... e a corja de aduladores babando... Isso me enoja. Despejo o conteúdo do cinzeiro no vaso e puxo a descarga. Filme do Almodóvar de novo não!

V
Escrever assim é novidade pra mim. Experimento. Rabisco. Busco. Abobrinhas perdidas talvez. Você gosta de ler uma abobrinha de vez em quando? Ou prefere poesia? Ou prefere ainda um conto? Quem sabe um dia desses tento escrever um conto ou invento uma entrevista que nunca dei ?
Prefiro escutar o CD da Gláucia Nasser.

VI
O telefone toca. É a milésima vez que procuram um tal de Soares no meu número. Ou ele é uma pessoa muito querida ou está devendo a Deus e o mundo. Eu quase não recebo telefonemas, mas e-mails de montão. E quer saber? Sinto saudades de receber uma carta manuscrita, de reconhecer a caligrafia no envelope e começar a ficar feliz antes mesmo de ler a carta. Você reconheceria a caligrafia do seu melhor amigo?

VII
Recebo um e-mail com um pequeno poema. Gostei. É bem a minha cara. E continuo sem conseguir escrever unzinho que seja. Talvez seja uma certa alergia a coisas que escrevi e nunca mostrei/postei; talvez as minhas artérias poéticas estejam ficando entupidas e eu precise fazer um cateterismo na alma. Não sei.

VIII
Me dispo de vergonhas e exponho sonhos aqui. Crio coisas na cabeça e transporto pro coração. Insanidade, quem sabe? Escrever me traz de volta pra realidade, pras coisas práticas. Lembrei que preciso beber água. O copo ainda está sujo sobre a pia e estou com preguiça de lavar. Bebo da garrafa mesmo.

IX
Abro o chuveiro. pego um sabonete novo no armário. Phebo. Gosto do cheiro de limpeza dele. Mas fico indeciso entre o banho e terminar esse cigarro. Decido continuar. A água, eu vou deixar escorrendo. As palavras também. Que elas saiam como quiserem, assim mesmo.

X
Planto você nua e colho prazer. Me embalo nos teus cabelos e descubro recantos secretos, desvios, dobras, cheiros novos, sabores que nunca provei antes. Quase me arrepio. Ou me arrepio. Pele e pele. Quer saber? Eu queria mesmo era um beijo da tua boca agora.


mais um pouco dos espaços culturais do rio

Casa de Cultura Laura Alvim
A casa de cultura surgiu do sonho de Laura Agostini Alvim,que impedida pela família de tornar-se atriz, decidiu transformar a casa, onde viveu desde os quatro anos de idade,em centro cultural. Começou a funcionar em 12 de maio de 1986. O prédio foi erguido entre 1906 e 1913 passando por várias reformas e finalmente doado ao Estado, através da Funarj, com a reforma inacabada, três anos após a morte de Laura.
A casa não obedece à um estilo específico, misturando épocas e detalhes, conforme o gosto de sua proprietária. Quando da inauguração, artistas famosos como: Angelo de Aquino, Daniel Senise, Jadir Freire, Hilton Berredo, Gonçalo Ivo, Paulo Roberto Leal, Roberto Moriconi, Rubens Guerschman e Scliar, doaram obras, iniciando assim o seu acervo que é composto, ainda, por doações de todos os outros artistas que lá expõem.
As atividades desenvolvidas na casa são:
- Galeria de Arte - Exposições renovadas à cada 15 dias.
- Cinema - Apresenta filmes do circuito do Rio. Oferece 73 lugares.
- Vídeo - Programação regular de musicais e um espaço para lançamentos e realização de mostras e festivais.
- Música - Projetos abertos à todas as tendências.
- Teatro - Oferece 250 lugares. Abriga anualmente o concurso de dramaturgia.
- Literatura - Lançamento de livros duas vezes por mês.
- Cursos - De teatro para todas as idades, artes plásticas, filosofia, expressão vocal e corporal.
- Exposições Temporárias - Têm lugar nas Arcadas Stella Marinho.
- Museu - Dividido em três espaços: o primeiro, ocupado por roupas e objetos pessoais de Laura Alvim; o segundo, dedicado ao pai de Laura, o médico Álvaro Freire Villalba Alvim, que trouxe para o Brasil o primeiro aparelho de Raio-X; e o terceiro espaço , ocupado por Ângelo Agostini, avô materno de Laura, que tornou-se conhecido como caricaturista e pintor, retratando de forma jocosa, políticos do segundo reinado e início da República.
Obs: Horário de Funcionamento da Arcada Stella Marinho: diariamente, de 9 às 19 hs.
Av. Vieira Souto 176 - Ipanema
Fone: (21) 2267-1647
Horário de Funcionamento: 3ª à 6ª: de15 às20 hs. Sáb.Dom. 16 às 20hs.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:00 PM.:.

Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

postado ao som ácido das ruas de sampa

sapo de lagoa
concordo
- não creio

escuto
- não sei

reino
- apenas

:não sou rei


tango
toda chuva
todo frio
cada gota apaga o cigarro
caído no canto do olho

o que essa cama vazia
está fazendo
deitada em mim?


experimentos




de sol
o canto do homem
se espalha no sol

se é alegria
ou fingimento
o que se sente
não pode ninguém descobrir

há quem afirme
que esse canto
é de cisne
faminto

mas existe quem diga
que isto não passa
de vingança barata
- cansada -
de macho ferido.


natividade
nasci onde
os sonhos nascem
:lá pelos idos de outubro

a poesia que me acalenta
é resto de placenta
roubada do ocaso


Morre pintor e artista plástico Jesús Soto
O pintor e artista plástico venezuelano Jesús Soto, considerado o expoente daquele país da chamada "arte cinética", morreu nesta quarta-feira aos 82 anos por causas ainda não confirmadas.

A técnica de superposição de elementos que caracteriza boa parte da obra de Soto, que a chamou de "estruturação cinética", baseada em espirais em fundos de madeira que recriam movimentos ópticos, lhe valeu um vasto reconhecimento internacional.

No próximo dia 24, será inaugurada no Rio de Janeiro a mostra "Soto: a construção da imaterialidade", no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que reunirá 37 obras do artista venezuelano. A exposição terá uma boa parte do acervo da Fundação Soto na Venezuela e ficará aberta até o dia 3 de abril.
Para quem não conhece ainda a obra deste artista ímpar, é uma excelente chance de apreciar a mais pura arte.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:28 PM.:.

Terça-feira, Janeiro 18, 2005

hoje sem música de fundo, apenas a paisagem da esplanada dos ministérios, que diviso aqui da janela do meu apartamento.

amarelinha
a menina brincava de amarelinha na calçada do arco-íris. pulava sonhos até chegar ao céu. (e jamais deixou a alegria branca de seu sorriso cair como as pedras do caminho).


nascimento
- vem, disse a mãe.
ela olhou sem entender e ficou parada ainda.
-vem! insistiu a ternura da mãe.
então ela ousou o primeiro pé e começou a ser feliz.


pai
(dedicado ao meu filho, Allan, que está aniversariando este mês)

olhei aquele volume por debaixo da roupa dela. não me fazia muito sentido ainda. tive que navegar nove meses do tempo até desaguar no meu filho. e eu que nem sabia a face dele antes do sol, me fiz luz.


versos invernais
sou como aço
de anzol
rasgando a carne

capturo
os versos
pendurados
na areia do fundo

de mar
entendo
o quase raso


mais um pouco dos espaços culturais do Rio
Centro Cultural Correios
O Centro Cultural Correios está localizado na Rua Visconde de Itaboraí, 20, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Tem como vizinhos a Casa França Brasil, ao lado, e o Centro Cultural do Banco do Brasil, defronte. Todos esses prédios fazem parte do Corredor Cultural da cidade.
O imóvel foi inaugurado em 1922. As linhas arquitetônicas da fachada, em estilo eclético, caracterizam o prédio como do início do século. Construído originalmente para sediar uma escola do Lloyd Brasileiro, por mais de 50 anos acolheu unidades administrativas e operacionais dos Correios. Desativado na década de 80 para reformas, o prédio só foi reaberto em 2 de junho de 1992, parcialmente restaurado, para receber a "Exposição Ecológica 92", evento integrante do calendário da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente - RIO 92.
O Centro Cultural tem um público estimado de 80 mil visitantes e cerca de 50 eventos por ano, com atrações variadas de teatro, música, dança, cinema e vídeo, além das exposições de diversos tipos de arte. A partir de 1996, passou a co-sediar, com outras instituições culturais, o ANIMA MUNDI, Festival Internacional de Cinema de Animação, além do CINESUL, Festival Latino-Americano de Cinema e Vídeo, que acontecem tradicionalmente no Rio, nos meses de junho e julho.

Visitas ao CCC/RJ
Os interessados em conhecer, agendar visitas e utilizar o Centro Cultural Correios para a promoção de eventos devem enviar projetos/propostas e portafólios para o seguinte endereço:

Centro Cultural Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20 - Centro
Corredor Cultural
20010-900 - Rio de Janeiro - RJ
Telefone: 0XX 21 503-8770
Fax: 0XX 21 503-8107
E-mail: centroculturalrj@correios.com.br

Funcionamento:
O Centro Cultural Correios funciona de terça-feira a domingo, das 12 às 19h
Entrada franca


sacramento
no meu corpo, o cheiro do teu corpo é carícia da tarde que me faz sonhar
na minha boca, o vinho que bebo no teu cálice, deixa sabor de vida


:: Postado Por Nel Meirelles :: 4:48 PM.:.

Domingo, Janeiro 16, 2005

postado ao som de Amanhã tem Sol, com uma cigarra pousada na goiabeira do vizinho

boteco
havia um violão. havia sim. por várias vezes as colcheias me passaram pelos olhos aturdidos. havia uma multidão vazia, que falava e falava e falava. o estremecer das vozes assustava as notas e as fazia desaparecer por baixo das mesas. eu bebia saudade com limão e mastigava apressados pedaços de tristeza com molho madeira.


insolação
meu suor se espalha pelos meus pêlos, meu peito, minhas pernas. escorre espesso arrastando meus medos.


invasão
tua boca
teus dentes
tua saliva
tua língua
:minha boca


sina
aquele passarinho
que antes da nua madrugada
sobrevoou em vão a lua escura
morreu enquanto cantava
um fado para eulália
no portal da casa velha


relógio
tac-tic-tic-tac

os ponteiros
implacáveis
pintam de branco
os meus cabelos
brancos


exorcismo
quando escrevo
espanto os fantasmas
que moram no quarto
do quinto andar
no meu peito esquerdo


ABL
A Academia Brasileira de Letras teve início na reunião preparatória de 15 de dezembro de 1896 e foi oficialmente instalada na sessão de 20 de julho de 1897, sob a presidência de Machado de Assis.
Conforme seus Estatutos, a Academia, com sede no Rio de Janeiro, tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional. Compõe-se de 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos por seus pares em votação secreta, e de 20 sócios correspondentes estrangeiros.

A ABL mantém uma intensa programação cultural. Vale a pena visitar o site da academia (<-- aqui é o link) e ficar por dentro do que rola por lá.

VISITA GUIADA AO PETIT TRIANON
Segundas, quartas e sextas-feiras às 14 e às 16 horas. Informações no telefone 3974 2526, de 9 às 18 horas.

EXPOSIÇÃO "NO SOBRADO DE CAROLINA"
De segunda a sexta-feira das 13 às 18 horas.
Informações no telefone 3974 2510, das 13 às 18 horas.


notinha social
casou-se ontem o vento. sua esposa, estrela, espera um casal de raios para o amor que vem.


sambas imortais
mesmo tendo no peito a bateria da mangueira, não posso deixar de admirar sambas de outras escolas, que se tornaram imortais.
este é antológico. da minha querida união da ilha do governador. vizinha aqui de casa. que nasceu bloco e hoje dá aula de samba de verdade.


O Amanhã
(João Sérgio)


A cigana leu o meu destino
Eu sonhei
Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante
Eu sempre perguntei
O que será o amanhã
Como vai ser o meu destino
Já desfolhei o mal-me-quer
Primeiro amor de um menino
E vai chegando o amanhecer
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Sempre feliz

Como será o amanhã
Responda quem puder
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:26 PM.:.

Sábado, Janeiro 15, 2005

postado ao som de Yardbird Suite, com Miles Davis

assombração
em cada esquina
um vulto me assusta
com garras de fome

cada um deles vomita
no oco dos meus ouvidos
o mistério do meu nome


oceano
ser vida
e mergulhar na maré
com resto de sal nos olhos
e cor de infinito nos cabelos
é sina de queimar a pele
com o brilho do pensamento


dica do rio
o Rio conta com excelentes espaços culturais. um deles é o museu da república, onde toda semana acontecem eventos, saraus musicais e literários, exposições, projeção de filmes e vídeos, enfim, pratos de todos os sabores para todos os gostos. aí vão algumas dicas de programação e o endereço do museu:

Música
República do Samba
Programa multimídia, talk-show e encontro com sambistas, com apresentação de Mauro Viana
no Espaço Multimídia
toda primeira sexta-feira do mês, às 19h
Entrada: 1kg de alimento não perecível

Música no Museu
Concertos musicais no Salão Nobre do Palácio do Catete
Quartas-feiras, às 12h30min
Entrada franca (com retirada de senha 1 hora antes)

Saraus Republicanos
Todas as terças, a partir das 19h, no Salão Amarelo do Palácio

Eventos
Feira Cultural da Fotografia
Encontro mensal de fotógrafos com exposição de fotos
na Aléia Principal
todo último domingo do mês, das 10 às 18h

República dos Poetas
no Espaço Multimídia
toda segunda sexta-feira do mês, das 19 às 21h

Museu da República - Palácio do Catete
rua do Catete, 153 Catete
Rio de Janeiro


abstração
sou colecionador
das minúsculas
que guardo
nos versos que desescondo

(as maiúsculas
morreram de parto
no primeiro poema)


jornal
o homem foi à esquina comprar jornal. nos bolsos, esqueceu-se de levar os sonhos. a multidão o desapareceu.


uti
trato destes poemas que entalho na pele com o cuidado que um louco trata dos seus sonhos. trato dessa vontade quase insana de transformar palavras em coisas com o gosto do uísque barato que bebi na noite velha. movo meus dedos pelas pequenas letras que me saltam dos olhos como se fosse um escorpião caçando sua presa. no final, madagascar não era mais onde sempre foi.
mudou-se para o ano passado.


post 180
quase duas centenas de vezes me deixei ficar aqui, fazendo essa sopa de idéias, palavras, fatos, coisas soltas. quase duzentas vezes meus olhos descansaram da obscuridade e desmancharam-se em formas. quase duzentas vezes morri e renasci. piedade!


fala poética
nove meses e dezoito dias
cento e oitenta posts
dois mil duzentos e setenta e quatro comentários
vinte mil e trinta e nove visitas
e minhas entranhas à mostra


quase soneto cem jeitos de você
voltei você sou só você
voltei você sou só você
voltei você sou só você
voltei você sou só você

voltei você sou só você
voltei você sou só você
voltei você sou só você
voltei você sou só você

voltei você sou só você
voltei você sou só você
voltei você sou só você

voltei você sou só você
voltei você sou só você
voltei você sou só você


ousadia
se deus me sonhasse
poeta
não teria me desenhado
homem


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:33 AM.:.

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

postado ao som de Emerson, Lake and Palmer.

auto-retrato
eu era o vento. enfileirava desfiladeiros no caminho e revoava as hordas de marimbondos sem piedade. não precisava da noite para ser: era.
eu era sombra. acordava os pesadelos no limiar do sono e os jogava aos borbotões na realidade. acordava todos os nervos e todos os poros com meu caminhar.
eu era eu. pisava nas estradas poeirentas com pés de voltar. sem medo de espinhos. sem tropeçar nas pedras e sem despencar dos dedos.
era eu: o pedaço de gente mais deserto que o universo pariu.


hecatombe
a madrugada
estremece
teus sonhos

no travesseiro
ainda habita
meu cheiro

o chinelo rasgado
pede a volta
do pé cansado

a cama
é terra devastada
onde sobrou o nada


luz e contraluz
uma vez soube que a veneziana estava fechada por causa da luz amarela. hesitei muito antes de olhar. talvez reflexo natural de ser vagalume. de ter luz branca.


busca
a poesia? não sei o que fazer com ela. sei que ainda vou procurar por muito tempo o poema que me mostre a minha cara. do jeito que ela é.


Morre o fundador do Pia Fraus
Morreu na madrugada do último domingo, aos 48 anos, o ator, dançarino, artista plástico e cenógrafo Beto Lima.
Nos últimos 20 anos, Lima integrou o grupo Pia Fraus, que, em latim, significa algo como "mentira que serve para divertir".
Uma lista de trabalhos marcantes do Pia Fraus com Beto Lima: "Olhos Vermelhos, um Tributo a Antígona" (a partir da tragédia grega de Sófocles); "Bichos do Brasil" ; "Flor de Obsessão" (baseada em Nelson Rodrigues e com direção de Francisco Medeiros); "Gigantes de Ar" e "O Malefício da Mariposa" (1998, Garcia Lorca, com direção de Carla Candiotto), "Os Navegadores" e "Ouénoé", espetáculos concebidos e montados na sua companhia.
Os espetáculos dessa companhia têm a marca de usar com igual peso as diferentes linguagens que compõem a peça de teatro: dança, artes plásticas, música e até palavra, pois, predominantemente, suas peças não tinham falas.
Perde o Brasil mais um baluarte da cultura.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:36 PM.:.

Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

postado ao som de sapato velho, com Claudio Nucci

pequeno conto
dizem que lá pelos idos do passado, haviam corredeiras fugazes, que tentavam ser redemoinhos no meio da poesia. mas eram apenas corredeiras e portanto de curta vida. porque a velocidade era tanta que não dava tempo de amoldar as pedras, de arredondar as bordas dos sapatos das meninas. depois, um vazio soturno. a seguir veio a água mansa e clara, lentamente. inexoravel como o som dos sinos, invadia todos os recantos das margens, todos os esconderijos onde os lagartos escondiam seus ovos. e virava inundação. e não saía mais dali, porque água calma é água eterna. porque é de beber e não de cuspir.
iara sabe disto. tupã também.


esquimó
teu coração
é iglu
: gelo
que me abriga


facetas
se dedilho
és violão
se acaricio
és ternura
se bolino
és tesão


cobertor
é a pele
que me cobre
a mesma
que me deixa
desnudo
nos teus
braços


profano
o vão entre
tuas coxas
é a hóstia
da nossa
comunhão


uma artista
penedo. passeio ao sol escaldante. um espaço cultural me chama a atenção. entro meio tímido.. uma dezena de quadros espalhados nas paredes, uma música suave de fundo. os quadros retratando anjos, algumas paisagens elaboradas em cima de galhos secos colhidos aqui e ali. me deixei levar pela beleza da pintura. uma artista: Vera Maria Rodrigues de Mattos. pessoa simpática, atenciosa e de imenso talento. vale a pena a visita para quem estiver pelos lados de penedo e/ou itatiaia: Centro Cultural Sibelius - Casa do Papai Noel - Penedo - RJ.


armadilha
sendo tua múmia particular
emudeço teu sonho imperfeito
estraçalho teu amor insano

ainda que não o vejas
sou o visgo inconteste
das tardias flores
do teu temprano jardim


Ciclo de cinema no CCBB dá nova leitura ao conceito de 'road movies'
O Centro Cultural Banco do Brasil apresenta de 11 a 16 de janeiro a série de filmes ''Outros rumos - A reinvenção do road movie'' .

Para a mostra principal foram selecionados 10 longas que Gustavo Galvão, curador do CCBBm considera que são raramente associados a road movies como "O demônio das 11 horas" (Jean Luc Godard - 1965), "E sua mãe também" (Alfonso Cuaron, 2001), Hana-Bi - Fogos de artifício (Takeshi Kitano, 1997).

Um dos mais clássicos road movies, "Sem destino" (Dennis Hopper, 1969 - esse um dos meus filmes prediletos. ) está na programação, além de "Thelma e Louise" (Ridley Scott, 1991 - outro grande filme, de final surpreendente.), "Coração selvagem" (David Lynch, 1990) e "Central do Brasil" (Walter Salles, 1998).

Nesta terça-feira tem "Estranhos no Paraíso'' (15h), ''Hana-bi - Fogos de artifício (17h), ''Felizes juntos'' (19h) e "E sua mãe também" (21h). Em vídeo serão exibidos ''Sem destino'' (16h30m) e ''Aconteceu naquela noite'' (18h30m).

Os ingressos custam a bagatela de R$ 8. Vale a pena conferir.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:24 PM.:.

Quinta-feira, Janeiro 06, 2005

postado ao som de Bolero de Ravel

riachos
sou como a salamandra. sobrevivo na água e na terra. não importa a aridez do pêlo. minha natureza me impele sempre em frente. me alimento dos pios dos pássaros que pousam na janela. sou elemental do fogo. e assim congelo meus fósseis e mato o último vermelho.


lapsus calami
a mão
escalavra a pele
pelos dedos

o gemido
é surdo
na canção

o cabelo molhado
ainda escorrega
no resto escuro
de horizonte

a voz
está perdida
no silêncio
das vogais

como sempre
: jamais


falando em outros recantos
alguns blogs e sites publicam de quando em vez os meus escritos. a todos os editores e responsáveis por estes sítios o meu agradecimento. eis alguns deles:

Verso e Reverso
Oficina do Pensamento
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estrada
os postes
passam ligeiro
pela janela do carro
esticando nos fios
a sombra do meu destino


hemófagos
a poesia
é a implacável amante
que exaure meu sangue
para manter-se viva.

eu vampiro
implacável da poesia
roubo seu sangue
para ser vida


festa de reis
A fé nos poderes de Melchior, Gaspar e Baltazar, os lendários reis magos que visitaram o menino Jesus em Belém guiados por uma estrela, é a razão da existência de uma das mais antigas manifestações folclóricas no Rio de Janeiro: a folia de reis. Mais popular no Sudeste do que nas outras regiões do país, a folia é composta pelo mestre, que dirige o grupo e canta as profecias; o contra-mestre, o segundo na hierarquia; o bandeireiro, que carrega a bandeira sagrada onde os devotos colocam as ofertas; os palhaços, que representam os soldados de Herodes; e os foliões, que dançam e tocam os instrumentos. Assim organizado, o grupo segue pelas ruas entrando de casa em casa para abençoar os anfitriões.

A faceta religiosa é uma das características mais marcantes e contraditórias da folia. A fé nos milagres dos reis magos continua sendo o principal motivo de a tradição continuar mesmo na região metropolitana, onde o folclore ganha novos traços. No entanto, os três reis magos não são santos oficiais da Igreja Católica e a crença neles é uma manifestação popular espontânea. Às vezes, a devoção se mistura aos ritos de religiões afro-brasileiras.

As procissões acontecem durante o ciclo natalino, que começa no dia 24 de dezembro e termina hoje. No Estado do Rio de Janeiro, porém, o folclore continua com as jornadas até a data dedicada a São Sebastião, dia 20 deste mês. No lugar de cantarem a história do nascimento de Jesus, louvam o santo padroeiro da capital.

Nem só de violência, bundas de fora e samba vive a nossa cidade. E viva a cultura popular carioca.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:51 PM.:.

Quarta-feira, Janeiro 05, 2005

postado ao som de Like a Rolling Stone, com Bob Dylan



mormaço

quero um poema surdo

que não diga nada
que não ouça nada
que nao seja nada

quero um poema mudo



fome

vem
me dá comida
que o espaço
aberto entre meus dentes
esconde doídas serpentes
que preciso alimentar
de amor


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:12 AM.:.

Terça-feira, Janeiro 04, 2005

postado no espaço pequeno que descobri entre minhas mãos e os meus medos


bicho da noite
volto ao escuro. meus olhos são fachos de lua que iluminam as trilhas do caipora e os passos tortos do saci. me embrenho cada vez mais nas madrugadas procurando a fímbria da manhã. nunca encontro. dou meia-volta-meia-lua e repiso meus cometas sem medo. sou bicho da noite. meu verso é o açoite que assombra as criaturas do dia.


mangueira de luto
a Estação Primeira da Mangueira está de luto. morreu nesta segunda-feira, aos 76 anos,o compositor Anésio dos Santos, o Comprido. Comprido ganhou a escolha de samba-enredo quatro vezes seguidas, entre 1962 e 1965.
Eis os os sambas de sua autoria:

1958: "Canção do exílio" (em parceria com Jorge Zagaia e Leléo)
1962: "Casa Grande e Senzala" (em parceria com Jorge Zagaia e Leléo)
1963: "Exaltação à Bahia" (em parceria com Hélio Turco e Pelado)
1964: "Histórias de um preto velho" (em parceria com Hélio Turco e Pelado)
1965: "O Rio através dos séculos" (em parceria com Hélio Turco e Pelado)
1981: "De Nonô a JK" (em parceria com Jurandir e Arroz)
1984: "Yes, nós temos Braguinha" (em parceria com Jurandir, Hélio Turco, Arroz e Jajá)

me associo ao luto da grande Nação Verde e Rosa, escola do meu coração.

samba comprido

quando morre
um sambista
o surdo emudece
em tom alto

em vez de enredo
é a tristeza
que desfila
no asfalto


Retrospectiva de documentários da nova safra ocupa o CCBB a partir desta terça-feira
fonte: Globo Online
O Centro Cultural Banco do Brasil começa o ano com uma retrospectiva de documentários nacionais. O tradicional projeto Encontro com o Cinema Brasileiro oferece, a partir desta terça-feira, um panorama de filmes que nesta edição tem como tema "Novos documentários".
O evento traz um panorama com trabalhos recentes que têm agradado, como "Fala tu", de Guilherme Coelho, e "O prisioneiro da grade ferro", de Paulo Sacramento.
Para a abertura, a primeira edição do ano apresenta uma pré-estréia do filme "Mensageiras da luz", às 18h30m. Após a sessão, haverá debate com o diretor, Evaldo Mocarzel.

Programação da mostra:

Dia 04/01, terça-feira
Cinema
18h30m: Pré-estréia de "Mensageiras da luz - Parteiras da Amazônia" (72 min). Sessão seguida de debate com o diretor Evaldo Mocarzel.

Sala de vídeo
16h30m "Do outro lado do rio" (89 min)
18h30m "O prisioneiro da grade de ferro" (123 min)

Dia 05/01, quarta-feira
Cinema
17h "Fala tu" (74 min)
19h "33" (74 min)

Sala de vídeo
16h30m "Vaidade" (56 min)
18h30m "Morte densa" (55 min)

Dia 06/01, quinta-feira
Cinema
17h "O cinema é meu jardim" (54 min)
19h "À margem da imagem" (72 min)

Sala de vídeo
16h30m "Morte densa" (55 min)
18h30m "O prisioneiro da grade de ferro" (123 min)

Dia 07/01, sexta-feira
Cinema
17h "33" (74 min)
19h "Fala tu" (74 min)

Sala de vídeo
16h30m "Vaidade" (56 min)
18h30m "Do outro lado do rio" (89 min)

Dia 08/10, sábado
Cinema
19h "À margem da imagem" (72 min)

Sala de vídeo
16h30m "Do outro lado do rio" (89 min)
18h30m "Morte densa" (55 min)

Dia 09/01, domingo
Cinema
17h "Fala tu' (74 min)
19h "O cinema é meu jardim" (54 min)

Sala de vídeo
16h30m "Vaidade" (56 min)
18h30m "O prisioneiro da grade de ferro" (123 min)

meu amigo Moacy Cirne (a quem agradeço a publicação de mais um poema meu - páreo - no Balaio Vermelho) certamente estará presente, cinéfilo atento que é.


noturno XXXVIII
existe apenas uma estrela no universo. os outros pedaços de luz são pequenos pirilampos colados caprichosamente no vazio


menino
brinco de trenzinho
com as palavras
estendo os trilhos
e viro passageiro do poema


vazio
tua boca
está oca
de mim


:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:44 PM.:.