Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Terça-feira, Março 29, 2005

postado ao som de can´t lose what you never had, com Muddy Waters

anatomia
por entre teus seios
meu sol desperta
toda manhã


tempestade
choveu silêncio
noite passada

só uma voz deslizava
lenta
na estrada


e-u
no-nó-peito
no-sem-jeito
no-non-sense
no-ser-senso
no-não-penso
no-não-dói
no-cor-rói


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:38 AM.:.

Segunda-feira, Março 21, 2005

postado ao som de Felicidade Torta, com Belô Velloso

polimorfo
teu suor lava
os caminhos azuis
onde meu suor
se consome


in finito
escrevo porque meus pecados a isto me impelem . escrevo porque a poesia é oração de deixar os pés plantados em areia molhada. escrevo, enfim, porque sou parte de mim e ponto de interrogação da minha fronte. sou somente um verso de um poema inacabado escrito pelo universo.


substância
coxas e dedos
mudos e findos
sobrevivemos
dessa loucura diária
de amor e tesão


brinquedo
se permito à poesia
esconder-se nos meus olhos
como bicho da noite
que espreita a fome
é porque sei
que no meu canto
de partida há de haver
sempre uma luz azul
ressoando no regresso


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:41 PM.:.

Quinta-feira, Março 17, 2005

postado ao som de If, com Bread

vôo solo
minhas asas quebradas pousam nos escandalosos murmúrios do azul. vou no vôo procurando mais poesia nas estrelas. vou sorvendo lentamente o corpo da vida que atrelo aos meus olhos descalços. desço e subo as encostas carregando nas minhas margens as últimas gotas do orvalho nascido de mim.





:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:05 PM.:.

Terça-feira, Março 15, 2005

postado ao som de La vie en Rose, com Edith Piaf

marcas e passos
estou exausto. percebo que os passos que caminhei sempre me trouxeram de volta ao início da trilha, quando deveriam me levar além de mim. o meu cansaço se espalha pelos meus músculos, dedos, pés e poemas. melhor dormir e deixar a vida escorrer como quiser. o sonho eu deixo encostado em qualquer ponto da estrada..


exílio
eu navegador solitário
por entre as curvas pedras
do rio com meus pés
plenos de musgos e danças
desastrado em icebergues
marrons

sou peixe em fuga
alevino assassinado
língua em fogo
epístola que não vem
espanto do nascimento

sou o contraponto
de todo sonho
sou verso inacabado
soneto imperfeito
arrebentado em lua cheia

me exilo no poema
como anêmona submersa
nos labirintos de maré cheia
e deixo uma ponte fecundada
entre meus dedos e a poesia


dica cultural
Casa de Cultura Mario Quintana - Porto Alegre
Uma cidade tem uma rua que sai da praia mansa de um lago. Nessa Rua da Praia sempre existiu um tenro fogo cultural, desde que os ventos dos idos tempos avivavam sua chama, pela Rua dos Cataventos, até a história do poeta Mário Quintana.

Há esse canto, esse pedaço de cultura viva. Há a poesia de Quintana, imortal. Há a necessidade preservar os nossos valores, a nossa memória. E há a necessidade de, estando em Porto Alegre, visitar o lugar:

Casa de Cultura Mario Quintana
Rua dos Andradas, 736 - Centro
CEP 90020-004 / Porto Alegre (RS)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:44 PM.:.

Quinta-feira, Março 10, 2005

postado na surdez do calor


dilúvio
ando com passos cada vez mais silentes. por mais que eu galope, o chão não se move. esquecer que existe o mundo é tarefa de desfazer. resta a poesia, que não se mexe mais todos os dias. mas sempre volta. e sempre me encontra aqui, objeto e posse dela. nem que seja como agora, espaçado no tempo.


pedra solta
deito meus cabelos na janela
e espalho teus pensamentos
no céu claro de fevereiro

as palavras eu despejo
nos bolsos da minha calça preta
ajeito duas ou três rimas
na beirada da taça vazia
meço a distância entre meu olho
e a beirada do horizonte
e me despeço com ar de voltar
um dia


olheiras
há o meu olho no branco da menina
molhada de água virgem

há rios que deixam de ser
morada dos peixes
e se vestem de curvos
vestígios de mar

há a poesia

esta ainda nada
no círculo vazio
dos meus vazios
dedos


:: Postado Por Nel Meirelles :: 4:21 PM.:.

Terça-feira, Março 01, 2005

postado ao som de My Funny Valentine , com Marvin Gaye

arabesque
são estreitos os caminhos
da tua pele
onde murmuram os pequenos
riachos que entre os poros
despedaçam pedaços de sonhos


ouverture
minhas dores estavam
escondidas entre os esqueletos
no inverno de nova iorque

havia a multidão surda
que bailava em flocos
no central park

e eu era o tudo
até encontrar na neve
a rosa de sangue de John
que perfurou os meus olhos perplexos

curvas
muitas vezes, quando me debrucei nas dobras da poesia, fiquei encravado nas faces que descobri. em cada uma, fui a sobra dos mundos que vivi enquanto esperava a circunstância de ser segundo o que fui. e sempre ressuscitei em cada palavra.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:09 PM.:.