Meu amigo Manoel Carlos, de
Agreste, me indicou para responder a uma entrevista sobre Literatura da Língua Portuguesa. Assim como ele, também não sou chegado a correntes, mas esta merece ser respondida e propagada. É uma maneira de conhecermos o gosto dos amigos no que diz respeito à leitura. Aí vão as minhas respostas:
Ex-Libris da Tugosfera
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro de Graciliano Ramos.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Quando era menino, fiquei fascinado por Sandokan, personagem de Emílio Salgari.
Qual foi o último livro que compraste?
Poesia Reunida, volumes I e II, de Affonso Romano de Santanna
Qual o último livro que leste?
O Livro das Ignorãças, de Manoel de Barros
Que livros estás a ler?
Sangue de Romã, de Cida Sepúlveda (poetisa de grande valor e amiga); Meus Poemas do Século XX, de Luiz de Aquino.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
60 anos de poesia, do Quintana; alguma coisa de Machado de Assis (gosto dos clássicos); 1984, do Orwell; Montanhas da Mente, de Robert McFarlene e O Brasil de Rosa, de Luiz Roncari
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Depois de muito pensar, escolhi as seguintes pessoas, porque gosto do que escrevem:
Adélia Theresa Campos, de
Oceanos e Desertos
Lucas de Meira, de
Pré-Renúncia do Paralelepípedo Rebelde
Barbant, de
Poligrafia
Piruetas
Ano passado fui convidado a escrever uma coluna para o site Poemias. Podia escrever sobre o que quisesse, o que me deu a liberdade de exercer uma coisa rara em mim: a crônica. Daquela época guardei um escrito que julgo oportuno reproduzir aqui.
Das piruetas das letras
Escrever. Todo mundo quer ser escritor, poeta, jornalista, dar seu pitaco na vida e mostrar a sua verdade.
Tem gente que escreve compulsivamente, junta palavras, amontoa advérbios, engoma uns verbos esquisitos, daqueles que a gente tem que ir ao dicionário para entender. E tome de publicar em sítios virtuais, e tome de enviar para os amigos. Uma fertilidade incrível. Já soube de um cidadão (poeta?) que escreveu 30 ( pasmem!), 30 poemas em um dia!
Engraçado. Eu não consigo fazer assim. Meu processo de escrever é árduo, quase doloroso, eu diria.
Do instante da gestação até que eu considere um poema pronto para ver o mundo, muito trabalho é realizado. Eu podo, retalho, esculpo, mato verbos, aniquilo advérbios,
estrangulo pronomes sem cerimônia. E se o poema não fica como eu quero, sou capaz de deixá-lo de castigo em alguma gaveta por semanas, até que ele - faminto e desesperado - me peça para que eu o retome.
Cheguei a pensar que eu era meio descentrado. Mas descontraí quando soube que poetas de verdade, dos bons, daqueles que a gente tira o chapéu e joga nuvens de palmas quando eles passam, tinham um processo muito parecido com o meu.
Há quem diga que Drummond levava meses e até anos para considerar um poema pronto.
E eu fico feliz por saber deste fato. Porque me prova que escrever tem muito mais de transpiração do que de inspiração. O suor é tinta que se usa para tal proeza. E não estranhe você, meu vigésimo leitor, a palavra "proeza". É exatamente sobre isto que versa o ato de escrever.
Por isso, quando você encontrar um poema daqueles que espalham água no rosto, ou que levam a imaginação a ficar brilhando de tão bonito que é, aplauda o autor e o poema.
Um, o operário incansável. O outro, uma penca de sentimentos e idéias arrancadas a ferro e fogo do coração e do suor do primeiro.
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Nel Meirelles
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9:37 AM.:.
postado ao som de Como diria Dylan, com Zé Geraldo
confissão
teus olhos nus
delatam
o nu
dos meus
olhos
corpo a corpo
teu corpo e meu corpo
desdobram os arco-íris
no horizonte das bocas
o que as línguas desenham
são parte dos pássaros
que partem de nós
noturnozinho de abril
nua ama
lua
crua cama
tua
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Nel Meirelles
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10:35 AM.:.
Sexta-feira, Abril 15, 2005
postado ao som de The Sound of Silence, com Simon & Garfunkel
mens sana
martin luther king
foi
john kennedy
foi assassinado
john lennon
foi assassinado porque
chico mendes
foi assassinado porque pensou
che
dorothy
herzog
ghandi
pensaram
: liberdade pensa e morre
insônia
matilhas de poemas
uivam livremente
entre as luas
do meu amanhecer
dica cultural
você gosta de música popular brasileira? então não deixe de visitar o site da embaixada brasileira em londres, que traz uma visão essencial da mpb, sob a batuta de
Ricardo Cravo Albim, que não carece de maiores apresentações.
clique aqui.
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Nel Meirelles
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2:43 PM.:.
Quarta-feira, Abril 13, 2005
postado ao som de Like a Rolling Stone, com Bob Dylan
temporal
o pingo
que pulsa
na poça
não pára
o infinito
da vida
prece
pai
afasta os
tentáculos
que esmagam
meus impassíveis
testículos
bicicletas
são impossíveis
em Jerusalém
dica cultural
a dica de hoje é de um espaço que transcende o físico. um lugar onde a cultura é o mote, onde sempre aprendo mais e que recomendo sem titubear. basta clicar aqui:
Balaio Vermelho.
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Nel Meirelles
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11:10 AM.:.
Segunda-feira, Abril 11, 2005
postado so som de Contos da Lua Vaga, com Beto Guedes
de balaios agrestes
mais um poeminha meu cai no
Balaio Vermelho, do meu amigo Moacy Cirne. e o Balaio vai espalhando cultura, poesia e música pelos caminhos da Internet. Obrigado, Moacy!
Vale a pena ler o
Agreste, do meu conterrâneo e amigo Manoel Carlos, e descobrir com quantos Bandeiras se faz uma canção.
fiat lux
o vento rasga
as tardes do verão
germinando luz
das sementes
de escuridão
pó & cia.
a poesia
é mais
que amor
:teima em ser
o que
desmente
de mundo
calix
a gaivota
desenha no meio
do horizonte
o til do não
no sim das montanhas
dormem os pontos
de interrogação
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Nel Meirelles
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8:54 AM.:.
Terça-feira, Abril 05, 2005
postado ao som de Fadas, com Luiz Melodia
de gnomos e querubins
por onde andará nel meirelles?
em meio à tempestade da manhã
largou seu tambor na grama
e foi tocar guitarra nos ventos
nel sem mei nem relles
um místico meio reles
misto de charlatão e poeta
que deu de desandar na vida
ele que despenteou a vaidade
e quietou-se nos varais
foi cantar fado em lisboa
ou dançar xote na lapa
entre arcos e cordas
de violinos alvoroçados
por onde andará o
que partindo emudeceu
os sons e sonhos do cansaço?
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Nel Meirelles
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11:07 AM.:.
Sexta-feira, Abril 01, 2005
postado ao som de Valsa Brasileira, com Chico Buarque
querência
não passo de um pacato
lavrador de palavras
: colho ânsia
de saltar dos olhos
e florescer poemas
autofagia
duas feras
me habitam
o silêncio
: uma rosna impune
e me devora a alma
a outra me morde
e me alimenta
de luz a poesia
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Nel Meirelles
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1:44 PM.:.