Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Quarta-feira, Junho 29, 2005

o post de hoje não tem música. ele é dedicado ao Capitão-Tenente Aviador Naval Estácio, filho do meu amigo Estácio, falecido esta semana em um trágico acidente de helicóptero. que os deuses o acolham com toda a poesia do universo.





:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:26 AM.:.

Segunda-feira, Junho 27, 2005

postado ao som de Volver a los 17, com Mercedes Soza

MERGULHO
há certos momentos em que o mar se fecha sobre minha cabeça. cada onda é pá de terra. eu nem ligo. vou buscar no armário da cozinha os talheres e os pratos para continuar me alimentando da poesia. e se não há fruta fresca no cesto, sempre encontro alguma cristalizada que me satisfaça a ânsia de viver. e é isso que acontece hoje. busquei as frutas do passado e as sirvo aqui.


post mortem
quatro lâmpadas amarelas queimadas
uma escada de alumínio faltando um degrau
dois pares de olhos ardendo
resto de sorvete de morango
uma caixa de leite embolorado
um lado de peito doendo

um filme B em VHS
um sorriso velho
jogado no fundo do armário
dois versos de pé quebrado
um par de sapatos sem uso
duas feridas sangrando
um tubo de pasta dental
(apertado no meio)
uma meia fina de fio puxado
a mala de couro
uma jóia de ouro
jornais do ano passado
na área de serviço

réquiem do amor


desgaiola
um verso
cantarola
no peito
e me engana

pia solto
na vida
(passarinho-de-quintana)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:51 PM.:.

Quinta-feira, Junho 23, 2005


Dia 1 de Junho foi lançada em Lisboa a antologia organizada por Mário Cordeiro, intitulada "A Poesia do Nascer", que inclui cerca de 130 poemas de escritores de Língua Portuguesa sobre o tema "nascimento". O prefácio é do Professor Eduardo Sá, professor de Psicologia Infantil e escritor, autor de inúmeros livros. Na antologia foram publicados um micro-conto e um poema deste amigo de vocês, que republico aqui no Fala.

nascimento

- vem, disse a mãe.
ela olhou sem entender e ficou parada ainda.
-vem! insistiu a ternura da mãe.
então ela ousou o primeiro pé e começou a ser feliz.


natividade

nasci onde
os sonhos nascem
:lá pelos idos de outubro

a poesia que me acalenta
é resto de placenta
roubada do ocaso


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:57 PM.:.

Quarta-feira, Junho 22, 2005

postado ao som de Louvação, com Gilberto Gil

PREGAÇÃO
os limites se confundem. o que morre a razão e onde mora a insanidade? estes meus estranhos pés me arrastam por caminhos confusos, tão confusos que não consigo distinguir meus dedos entre si . morro e renasço a cada vez que respiro. estou cansado de inverno a toda hora. preciso do mar azul, preciso das águas calmas. preciso descobrir meus próprios caminhos para o oriente. preciso inventar asas leves que não se soltem ao primeiro vento da tarde. preciso descobrir o quanto de luz cabe nas minhas narinas antes de inspirar de novo. preciso ser um farol que exiba mais sonoridade do que o escuro que prego em vão no deserto da minha barriga.


CROMA
ele viu o sinal de trânsito e parou. a bala não. o sangue foi o vermelho que fechou o trânsito da vida.


os movimentos das pálpebras

movimento I
meus olhos
e os teus
: antítese
do adeus

movimento II
esse olhos
tem mania
de provocar-me
de poesia

movimento III
olhar é guerra
que não finda
no olho que
olha ainda


DICA CULTURAL
O grupo carioca de samba Fundo de Quintal, uma referência no estilo, faz única apresentação nesta quarta-feira, às 21h, no Armazém da Vila (Rua Beira Rio, 116, Vila Olímpia; tel.: 3045-3573). No repertório, músicas do disco "Ao Vivo Convida", além de antigos sucessos, como "Do Fundo do Nosso Quintal", "Não Vai na Conversa Dela" e "Só Pra Contrariar", entre outros. Não gosto do pagode "meloso" que andam fazendo por aí. Ainda bem existem Fundo de Quintal, Zeca, Dona Ivone que fazem o pagode carioca autêntico. Imperdível para quem mora em sampa ou está na cidade.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:22 AM.:.

Segunda-feira, Junho 20, 2005

postado ao som de Jesus em uma moto, com Sá, Rodrix e Guarabira


luz





:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:41 AM.:.

Sexta-feira, Junho 17, 2005

postado ao som de Dia Branco, com Geraldo Azevedo

mãeternidade
não me findam
mais
abraços
beijos
carinhos

ou palavras
de sapoti

quero o eterno
da minha mãe


cantos de desejo

I
és tão infinita
que me ponho verso
e habito os poemas
escondidos entre
as tuas coxas

II
te quero lentamente
com a pressa das
naus de velas dobradas
na arfagem do gozo


permanência
o rio
afundava
no traço
da poesia

não era
nem rio
nem estrada
nem nada

o rio
morria
no olho
do dia


COM LICENÇA
que hoje não quero poema nem pena nem passarinho voando na boca das mariposas nem cães que ladrem meus versos. hoje a poesia escorreu do vaso de violetas da casa da minha mãe. hoje meu sono ficou pregado na cama; que meus olhos não acordaram os teus no meu travesseiro; que minha boca estatelou-se na palavra distante por cima do vídeo quebrado de filmes que não percebi. misturaram a bola do jogo e do santo o nome que não vi no domingo. pé quebrado de só ficar sentado parado ouvindo olhando querendo rimar a vida que desvidou daqui e não sei onde foi vidar.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:35 AM.:.

Terça-feira, Junho 14, 2005

postado ao som de Amor de Índio, com Beto Guedes

fiat lux II
a escuridão
doma a boca
da tarde

acende teus olhos
que preciso sorrir
tua alma


hi-fi
perpetras passos
de sombras na tar                      
                    de
onde vagos instintos
nos acariciam a face

há rios em ti
que irrigam
       as veias
da minha
            garganta


QUATRO TEMPOS E UM CONTRATEMPO
já tive vontade de soltar os quatro últimos parafusos que prendem a minha alma à sanidade. ousei chaves de sonhos e alicates de entortar paredes. sempre na ultima estrela a força me faltava e eu voltava ao pasto. me revolvia nas nuvens pardas e nos campos azulados. e de azul me fazia rês conduzida para longe do matadouro. atravessava o rio pela borda noroeste. quase sem olhar o atrás. o futuro era sempre e o passado flutuará impreciso em mim. ou não.


ruminiscências
o rebanho
de golondrinas
pastava entre
as nuvens da tarde

o rio de la plata
abastecia os espaços
de capim-saudade


:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:58 AM.:.

Segunda-feira, Junho 13, 2005

postado ao som de Amora, com Renato Teixeira

rasante
poemou
hoje cedinho

e foi tanta luz
sobre a praia
distante
que meu poema
virou passarinho
e voou adiante


elaeu
a mulher que amo
é tão eu em mim
que não sei mais
onde ela é início
e onde eu sou fim


AS PRAIAS
as praias da freguesia são serenas. meus passos se tornam serenos quando por elas trilho minha alma nas manhãs de outono. nelas meus olhos devassam despudoradamente a poesia das águas e das moças que adormecem nos braços das velhas árvores. nas praias da freguesia os cães sussurram suas pequenas vozes entre as conchas abandonadas na areia. todos os dias e todas as noites ficam guardados no velho barco emborcado embaixo da amendoeira sem flores. nas praias da freguesia eu sou mais uma praia. talvez para sempre.


DICA CULTURAL
O multi-instrumentista Gaudencio Thiago de Mello, lança nesta segunda-feira o CD "Bem brasileiro - com alguns sotaques" (Ethos Brasil) no bistrô da loja Modern Sound. O músico se apresenta acompanhado por Delia Fischer ao piano, Cesar Machado na bateria, Flavio Goulart na guitarra, Paulo Russo no contrabaixo e Zé Bigorna no sax e na flauta. No repertório estão músicas de sua autoria, como "Tem xodó no meu xaxado", "Saltimbancos" e "Missing home".

BEM BRASILEIRO - Modern Sound, Rua Barata Ribeiro, 502-D, Copacabana. Tel. 2548-5005. Entrada gratuita.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:14 AM.:.

Sexta-feira, Junho 10, 2005

postado ao som de Todo o Azul do Mar, com Beto Guedes

línguas, poros e verbos
        meu verso
de um e noventa
             e nove
       reclama um
pedaço de razão

     a palavra fode
a palavra me fode

despedaço as
mordidas de tesão
paro no ponto

tranco o verbo
: the end - não


sancto sancto sancto
minha santidade
é a compleição da
minha saudade

e se não cedo
à sede do vento
é porque só morro
o tanto que agüento


coma
minha perna
esquerda
esquece
a
sola     
do pé          
quebrado        
meu verso          
deitado            
d
  o
    r
      m
        e



:: Postado Por Nel Meirelles :: 4:13 PM.:.

Quinta-feira, Junho 09, 2005

postado ao som de The Long and Widing Road, com Paul McCartney


e.m. c.o.r.t.e.





:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:47 PM.:.

Quarta-feira, Junho 08, 2005

postado ao som de Resposta ao Tempo, com Nana Caymmi

bas-fond
sou cão perdido
dos becos-berços
das mariposas
amarelas

engulo as palavras
escarro pêlos
dos poemas
caídos nas vielas


partida
parte-a-parte

a porta
bate
(em vão)

: eu não


MANIFESTO PELA PRESERVAÇÃO DO PULSAR
quero entender a urgência de ser feliz. quero entender a pressa desvairada de viajar e conhecer e tocar e falar e receber e dar. quero me desfazer dos fetos pré-concebidos e deixar o nascimento ser mais eterno. o dia,entretanto, me aturde com ecos de coisas antigas. a noite traz ecos de sons e vozes digerindo meu estômago. quero entender porque em mim se instaurou essa fome de poesia. quero parar tudo agora. nesse instante. já. stop sem go. quero meu sangue pendurado parado na veia cava. quero recomeçar sem ter a necessidade de virar poema todo dia. quero não ter boca. quero dormir a vida.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:48 AM.:.

Segunda-feira, Junho 06, 2005

postado ao som de Sabiá, com Quarteto em Cy

namorada
eu tenho uma namorada
cravada nas minhas entranhas
senhora das minhas pernas
cortesã dos meus desvarios

eu tenho uma namorada
fronteira da minha pele
grito matutino de chuva
gotejar dos meus olhos

eu tenho uma namorada
escondida de Arpoador
cantando na praia da Urca
plantada no Jardim Botânico

eu tenho uma namorada
de areias descalças
de versos perseguidos
de canção de Caetano

eu tenho uma namorada
mais contida em mim
do que o santo sangue
da estrela que respiro

eu tenho uma namorada
que está aqui, ali e acolá
me ata por todos os costados
no desde sempre do sorriso

eu tenho uma namorada
que é tão eu em mim
que não consigo descobrir
onde ela é início
e onde eu sou fim


contemplação
me cravas as unhas
    nos olhos
            e os dentes
            nos sonhos

me lambes
             a vida  
e me dás imensidões
          exatas de ti


vagamente
noite clara de maio:
embebedamo-nos
de algumas tontas
estrelas ausentes

acordamos com
asas de voar
espumas de novo


SEM TEXTO
hoje não quero texto escrito de doer escrever nexo nas palavras cavalgando meus sonhos imperfeitos não quero porque a vida é desconexa que me vem angústia do parir letras tortas que ninguém vai ler o que o vento vai deixar escoar pela memória dos que não vem ausentes aqui e não estão presentes quando a surpresa afasta a vírgula e deixa somente um ponto final


:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:21 PM.:.

Sábado, Junho 04, 2005

postado ao som de Crazy, com Willie Nelson

reminiscências de saudade
a velha negra sentada no canto chovia margaridas na tarde. do outro lado, um cão madrugador corria assustado com os canivetes abertos em faca. mais além, um trator alvoroçava o campo enjaulando sementes. pilastras e outros escuros me murmuravam o paladar onde eu me desenxergava de olhos invisíveis. as coca-colas coladas na minha língua sequiosa de fala blasfemavam hortênsias. e havia o motivo, a razão. encaixotado, só, sereno e calado. o único mais calado do que eu. o único mais inquieto do que eu. afinal,a viagem dele era mais longa do que até os meus segredos. (eu era segredo e não havia percebido).


passa-ninhos
eram dois pardais
brincando de quintais
: um sonhava tão alto
que o outro não o
sonhava jamais


contos de alcova I
um espelho
insensato
multi-aplicava
o reflexo do ato


parto
o bilhete
gritava :ida

as estradas
encurvaram-se
nas pontas

desinventei
a ponta da árvore
virei balanço
de caramujos
e não voltei
porque ainda
chovia


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:40 PM.:.

Sexta-feira, Junho 03, 2005

postado ao som de As tears go by, com Rolling Stones

armário
desvisto minha cara
das coisas que não fiz
(ou das que não quis)
antes que a camisa
da noite me abrace

prefiro vestir minha pele
com a pele das coisas
que ainda hei de nascer


monotonia
(inspirado em um poema de Ana Costa)

do lado de fora
dos meus olhos
os bois ruminam
pacatamente
pedaços de horizonte


natural
ela mordisca
obscenidades
na minha orelha

eu lambo o vento
que semeia
nossa luxúria

nos encharcamos
de horizontes
e trigais


DAS BICICLETAS, CARROS E CONTRAMÃOS
eu era apenas um menino. meus olhos enxergavam o mundo além do vidro e aquém do meu rosto. meus pés murchavam de vontade de marchar nos teus pés. a minha boca seca, sorvia a chuva ainda úmida de placenta do beijo que não nasceu. tua boca era lâmpada que atraía minha língua, esse inseto estranho que buscava calor. no ar, os pingos de medo caiam sobre minha fronte e me impeliam a recolher as mãos, antes do oceano que me esperava do outro lado dos dentes. o cheiro da pele, o cheiro da pele, o cheiro da pele. me agarrava. me fustigava o estômago, como mordida de onça. a pele. o cheiro. e eu, escorrendo desejo pelas unhas despolidas. parti. do alto dos meus sonhos, entre as montanhas baixas, deixei mais que muito de mim.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:14 PM.:.

Quarta-feira, Junho 01, 2005

postado ao som de O Bêbado e a Equilibrista, com Elis

classificado
poeta de plantão
procura poeminha
que queira nascer
da sua mão


palco
minha língua dança
um pas-de-deux
com tua língua
no balé infindável
do querer


constatação
não foi a chuva
que molhou
meu tempo
: foi a saliva
do vento


GARIMPO
há que se procurar a beleza por sob a terra coberta de restos mortais. ela existe, acredite. é questão dos olhos e do sangue. cavar, escavar e retirar e dar a luz, não à luz, que existem filhos não-meus. mas a beleza está lá, encravada na terra bruta. uso meus sentidos, até mesmo o imponderável e o insustentável. e se as mãos não me bastam, busco outros instrumentos. quero é achar poesia e mais poesia e mais poesia. a cada dia.


DICA CULTURAL
existem círculos, por assim dizer, de pessoas que escrevem. cada um deles é como se fosse um universo a parte dos demais. transito por alguns deles e encontro sempre literatura de excelente qualidade. o Fala Poética foi criado para ser a porta de saída da poesia em mim. mas sentia falta de compartilhar com meus amigos e leitores as coisas fantásticas que encontro nas minhas viajadas poéticas. por isso decidi retomar um antigo projeto, que começou com o De Olho na Poesia: unir os círculos. por isso criei o Telescópio, para mostrar que há vida mais do que inteligente na blogosfera. visite, leia, sinta a poesia em sua plenitude. o telescópio é feito com pedaços de cada uma das pessoas que admiro.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:39 AM.:.