postado ao som de Louvação, com Gilberto Gil
PREGAÇÃO
os limites se confundem. o que morre a razão e onde mora a insanidade? estes meus estranhos pés me arrastam por caminhos confusos, tão confusos que não consigo distinguir meus dedos entre si . morro e renasço a cada vez que respiro. estou cansado de inverno a toda hora. preciso do mar azul, preciso das águas calmas. preciso descobrir meus próprios caminhos para o oriente. preciso inventar asas leves que não se soltem ao primeiro vento da tarde. preciso descobrir o quanto de luz cabe nas minhas narinas antes de inspirar de novo. preciso ser um farol que exiba mais sonoridade do que o escuro que prego em vão no deserto da minha barriga.
CROMA
ele viu o sinal de trânsito e parou. a bala não. o sangue foi o vermelho que fechou o trânsito da vida.
os movimentos das pálpebras
movimento I
meus olhos
e os teus
: antítese
do adeus
movimento II
esse olhos
tem mania
de provocar-me
de poesia
movimento III
olhar é guerra
que não finda
no olho que
olha ainda
DICA CULTURAL
O grupo carioca de samba
Fundo de Quintal, uma referência no estilo, faz única apresentação nesta quarta-feira, às 21h, no Armazém da Vila (Rua Beira Rio, 116, Vila Olímpia; tel.: 3045-3573). No repertório, músicas do disco "Ao Vivo Convida", além de antigos sucessos, como "Do Fundo do Nosso Quintal", "Não Vai na Conversa Dela" e "Só Pra Contrariar", entre outros. Não gosto do pagode "meloso" que andam fazendo por aí. Ainda bem existem Fundo de Quintal, Zeca, Dona Ivone que fazem o pagode carioca autêntico. Imperdível para quem mora em sampa ou está na cidade.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
11:22 AM.:.
postado ao som de Jesus em uma moto, com Sá, Rodrix e Guarabira
luz
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
11:41 AM.:.
Sexta-feira, Junho 17, 2005
postado ao som de Dia Branco, com Geraldo Azevedo
mãeternidade
não me findam
mais
abraços
beijos
carinhos
ou palavras
de sapoti
quero o eterno
da minha mãe
cantos de desejo
I
és tão infinita
que me ponho verso
e habito os poemas
escondidos entre
as tuas coxas
II
te quero lentamente
com a pressa das
naus de velas dobradas
na arfagem do gozo
permanência
o rio
afundava
no traço
da poesia
não era
nem rio
nem estrada
nem nada
o rio
morria
no olho
do dia
COM LICENÇA
que hoje não quero poema nem pena nem passarinho voando na boca das mariposas nem cães que ladrem meus versos. hoje a poesia escorreu do vaso de violetas da casa da minha mãe. hoje meu sono ficou pregado na cama; que meus olhos não acordaram os teus no meu travesseiro; que minha boca estatelou-se na palavra distante por cima do vídeo quebrado de filmes que não percebi. misturaram a bola do jogo e do santo o nome que não vi no domingo. pé quebrado de só ficar sentado parado ouvindo olhando querendo rimar a vida que desvidou daqui e não sei onde foi vidar.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
10:35 AM.:.
Terça-feira, Junho 14, 2005
postado ao som de Amor de Índio, com Beto Guedes
fiat lux II
a escuridão
doma a boca
da tarde
acende teus olhos
que preciso sorrir
tua alma
hi-fi
perpetras passos
de sombras na tar
de
onde vagos instintos
nos acariciam a face
há rios em ti
que irrigam
as veias
da minha
garganta
QUATRO TEMPOS E UM CONTRATEMPO
já tive vontade de soltar os quatro últimos parafusos que prendem a minha alma à sanidade. ousei chaves de sonhos e alicates de entortar paredes. sempre na ultima estrela a força me faltava e eu voltava ao pasto. me revolvia nas nuvens pardas e nos campos azulados. e de azul me fazia rês conduzida para longe do matadouro. atravessava o rio pela borda noroeste. quase sem olhar o atrás. o futuro era sempre e o passado flutuará impreciso em mim. ou não.
ruminiscências
o rebanho
de golondrinas
pastava entre
as nuvens da tarde
o rio de la plata
abastecia os espaços
de capim-saudade
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
9:58 AM.:.
Segunda-feira, Junho 13, 2005
postado ao som de Amora, com Renato Teixeira
rasante
poemou
hoje cedinho
e foi tanta luz
sobre a praia
distante
que meu poema
virou passarinho
e voou adiante
elaeu
a mulher que amo
é tão eu em mim
que não sei mais
onde ela é início
e onde eu sou fim
AS PRAIAS
as praias da freguesia são serenas. meus passos se tornam serenos quando por elas trilho minha alma nas manhãs de outono. nelas meus olhos devassam despudoradamente a poesia das águas e das moças que adormecem nos braços das velhas árvores. nas praias da freguesia os cães sussurram suas pequenas vozes entre as conchas abandonadas na areia. todos os dias e todas as noites ficam guardados no velho barco emborcado embaixo da amendoeira sem flores. nas praias da freguesia eu sou mais uma praia. talvez para sempre.
DICA CULTURAL
O multi-instrumentista Gaudencio Thiago de Mello, lança nesta segunda-feira o CD "Bem brasileiro - com alguns sotaques" (Ethos Brasil) no bistrô da loja Modern Sound. O músico se apresenta acompanhado por Delia Fischer ao piano, Cesar Machado na bateria, Flavio Goulart na guitarra, Paulo Russo no contrabaixo e Zé Bigorna no sax e na flauta. No repertório estão músicas de sua autoria, como "Tem xodó no meu xaxado", "Saltimbancos" e "Missing home".
BEM BRASILEIRO - Modern Sound, Rua Barata Ribeiro, 502-D, Copacabana. Tel. 2548-5005. Entrada gratuita.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
11:14 AM.:.
Sexta-feira, Junho 10, 2005
postado ao som de Todo o Azul do Mar, com Beto Guedes
línguas, poros e verbos
meu verso
de um e noventa
e nove
reclama um
pedaço de razão
a palavra
fode
a palavra me
fode
despedaço as
mordidas de tesão
paro no ponto
tranco o verbo
: the end -
não
sancto sancto sancto
minha santidade
é a compleição da
minha saudade
e se não cedo
à sede do vento
é porque só morro
o tanto que agüento
coma
minha perna
esquerda
esquece
a
sola
do pé
quebrado
meu verso
deitado
d
o
r
m
e
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
4:13 PM.:.
Quinta-feira, Junho 09, 2005
postado ao som de The Long and Widing Road, com Paul McCartney
e.m. c.o.r.t.e.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
2:47 PM.:.
Quarta-feira, Junho 08, 2005
postado ao som de Resposta ao Tempo, com Nana Caymmi
bas-fond
sou cão perdido
dos becos-berços
das mariposas
amarelas
engulo as palavras
escarro pêlos
dos poemas
caídos nas vielas
partida
parte-a-parte
a porta
bate
(em vão)
: eu não
MANIFESTO PELA PRESERVAÇÃO DO PULSAR
quero entender a urgência de ser feliz. quero entender a pressa desvairada de viajar e conhecer e tocar e falar e receber e dar. quero me desfazer dos fetos pré-concebidos e deixar o nascimento ser mais eterno. o dia,entretanto, me aturde com ecos de coisas antigas. a noite traz ecos de sons e vozes digerindo meu estômago. quero entender porque em mim se instaurou essa fome de poesia. quero parar tudo agora. nesse instante. já.
stop sem go. quero meu sangue pendurado parado na veia cava. quero recomeçar sem ter a necessidade de virar poema todo dia. quero não ter boca. quero dormir a vida.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
11:48 AM.:.
Segunda-feira, Junho 06, 2005
postado ao som de Sabiá, com Quarteto em Cy
namorada
eu tenho uma namorada
cravada nas minhas entranhas
senhora das minhas pernas
cortesã dos meus desvarios
eu tenho uma namorada
fronteira da minha pele
grito matutino de chuva
gotejar dos meus olhos
eu tenho uma namorada
escondida de Arpoador
cantando na praia da Urca
plantada no Jardim Botânico
eu tenho uma namorada
de areias descalças
de versos perseguidos
de canção de Caetano
eu tenho uma namorada
mais contida em mim
do que o santo sangue
da estrela que respiro
eu tenho uma namorada
que está aqui, ali e acolá
me ata por todos os costados
no desde sempre do sorriso
eu tenho uma namorada
que é tão eu em mim
que não consigo descobrir
onde ela é início
e onde eu sou fim
contemplação
me cravas as unhas
nos olhos
e os dentes
nos sonhos
me lambes
a vida
e me dás imensidões
exatas de ti
vagamente
noite clara de maio
:
embebedamo-nos
de algumas tontas
estrelas ausentes
acordamos com
asas de voar
espumas de novo
SEM TEXTO
hoje não quero texto escrito de doer escrever nexo nas palavras cavalgando meus sonhos imperfeitos não quero porque a vida é desconexa que me vem angústia do parir letras tortas que ninguém vai ler o que o vento vai deixar escoar pela memória dos que não vem ausentes aqui e não estão presentes quando a surpresa afasta a vírgula e deixa somente um ponto final
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
1:21 PM.:.
Sábado, Junho 04, 2005
postado ao som de Crazy, com Willie Nelson
reminiscências de saudade
a velha negra sentada no canto chovia margaridas na tarde. do outro lado, um cão madrugador corria assustado com os canivetes abertos em faca. mais além, um trator alvoroçava o campo enjaulando sementes. pilastras e outros escuros me murmuravam o paladar onde eu me desenxergava de olhos invisíveis. as coca-colas coladas na minha língua sequiosa de fala blasfemavam hortênsias. e havia o motivo, a razão. encaixotado, só, sereno e calado. o único mais calado do que eu. o único mais inquieto do que eu. afinal,a viagem dele era mais longa do que até os meus segredos. (eu era segredo e não havia percebido).
passa-ninhos
eram dois pardais
brincando de quintais
: um sonhava tão alto
que o outro não o
sonhava jamais
contos de alcova I
um espelho
insensato
multi-aplicava
o reflexo do ato
parto
o bilhete
gritava :ida
as estradas
encurvaram-se
nas pontas
desinventei
a ponta da árvore
virei balanço
de caramujos
e não voltei
porque ainda
chovia
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
2:40 PM.:.
Sexta-feira, Junho 03, 2005
postado ao som de As tears go by, com Rolling Stones
armário
desvisto minha cara
das coisas que não fiz
(ou das que não quis)
antes que a camisa
da noite me abrace
prefiro vestir minha pele
com a pele das coisas
que ainda hei de nascer
monotonia
(inspirado em um poema de Ana Costa)
do lado de fora
dos meus olhos
os bois ruminam
pacatamente
pedaços de horizonte
natural
ela mordisca
obscenidades
na minha orelha
eu lambo o vento
que semeia
nossa luxúria
nos encharcamos
de horizontes
e trigais
DAS BICICLETAS, CARROS E CONTRAMÃOS
eu era apenas um menino. meus olhos enxergavam o mundo além do vidro e aquém do meu rosto. meus pés murchavam de vontade de marchar nos teus pés. a minha boca seca, sorvia a chuva ainda úmida de placenta do beijo que não nasceu. tua boca era lâmpada que atraía minha língua, esse inseto estranho que buscava calor. no ar, os pingos de medo caiam sobre minha fronte e me impeliam a recolher as mãos, antes do oceano que me esperava do outro lado dos dentes. o cheiro da pele, o cheiro da pele, o cheiro da pele. me agarrava. me fustigava o estômago, como mordida de onça. a pele. o cheiro. e eu, escorrendo desejo pelas unhas despolidas. parti. do alto dos meus sonhos, entre as montanhas baixas, deixei mais que muito de mim.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
12:14 PM.:.
Quarta-feira, Junho 01, 2005
postado ao som de O Bêbado e a Equilibrista, com Elis
classificado
poeta de plantão
procura poeminha
que queira nascer
da sua mão
palco
minha língua dança
um pas-de-deux
com tua língua
no balé infindável
do querer
constatação
não foi a chuva
que molhou
meu tempo
: foi a saliva
do vento
GARIMPO
há que se procurar a beleza por sob a terra coberta de restos mortais. ela existe, acredite. é questão dos olhos e do sangue. cavar, escavar e retirar e dar a luz, não à luz, que existem filhos não-meus. mas a beleza está lá, encravada na terra bruta. uso meus sentidos, até mesmo o imponderável e o insustentável. e se as mãos não me bastam, busco outros instrumentos. quero é achar poesia e mais poesia e mais poesia. a cada dia.
DICA CULTURAL
existem círculos, por assim dizer, de pessoas que escrevem. cada um deles é como se fosse um universo a parte dos demais. transito por alguns deles e encontro sempre literatura de excelente qualidade. o Fala Poética foi criado para ser a porta de saída da poesia em mim. mas sentia falta de compartilhar com meus amigos e leitores as coisas fantásticas que encontro nas minhas viajadas poéticas. por isso decidi retomar um antigo projeto, que começou com o De Olho na Poesia: unir os círculos. por isso criei o
Telescópio, para mostrar que há vida mais do que inteligente na blogosfera. visite, leia, sinta a poesia em sua plenitude. o telescópio é feito com pedaços de cada uma das pessoas que admiro.
:: Postado Por
Nel Meirelles
::
11:39 AM.:.