Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Terça-feira, Agosto 30, 2005

postado ao som de Esse Cara, com Betânia

socos e engarrafamentos
não é sempre que os ecos silenciosos das formigas noturnas me despertam. às vezes mesmo esse ruído intrincado, de mastigadas, mordidas e sorvos é insuficiente para desfazer a letargia cínica dos meus olhos. ponho, pois, mais dedos sobre o varal no quintal do lado e espeto uns guarda-chuvas amarelos nas acácias. quem sabe um dia ninfas e lesmas estarão perambulando pelas minhas pernas brancas de saudades?


uterino
ter nascido em algum lugar foi um bom começo. não é sempre que se consegue essa proeza. muitas vezes o nascimento é feito a léguas e léguas dos sonhos das parideiras de natal. outras vezes, o que chamamos de cordão umbilical enforca os poemas e transforma as palavras em pequenos esqueletos amarelados pelo tempo. a poesia, no entanto, se refaz em cada sopro. a poesia é mais perene que o rio são francisco. a poesia é o que ainda guardo entre os meus dedos e a minha vontade de inventar o mundo..


superlotação
não me sento
confortável
dentro de mim

há o mar e o menino
o som do velho mexilhão
as duas baratas bêbadas
e um poema envelhecido
no barril de carvalho

ainda assim
o silêncio late
na minha cara
e me cala


dos sonetos doloridos de amor e dos versos incandescentes de paixões irrefletidas
quem fez a poesia descambar de rumo e morrer ao meio-dia não fui eu. bem que tentei esfaquear um pedaço do verso esticado na calçada mas falaram tanto de tantas e tamanhas dores que me recusei a ser cúmplice do assassinato (eles que pensem conhecer a poesia).


sessão nostalgia

absinto
a cada manhã de sol
sou surpreendido
por sonhos ocultos
que penetram
meu secreto universo

insisto nesse buscar de caminhos
porque entre a noite e o dia
adeja o brilho imprevisto
da imprevista poesia


NOTA
Mais um número do PNOB, da minha amiga jornalouca Suzana Jardim, como ela mesmo se denomina. Desta feita a festa de lançamento da edição será no DRY MARTINI BAR, Av. Jurema, 34, na Moema (sampa). O evento é amanhã, dia 31 de Agosto, das 19 horas até.. bem... não tem prazo para acabar. Neste número, além de outros autores, estou participando com alguns poemeus.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:58 PM.:.

Sexta-feira, Agosto 26, 2005

postado ao som de Mona Lisa, com Nat King Cole

desenergia
há dias em que simplesmente apagar a luz não esconde meus dedos. me dispo na luminosidade da sala, escancaro janelas. sufoco um ou dois silêncios com o arrastar dos meus pés cansados. sinto a tosse das cadeiras esquálidas enquanto se escondem debaixo da mesa grande. o ar é reza que não cura, é violino que não exagera nos desenhos das notas. busco água e acabo me banhando na solidão que escorre pelas paredes úmidas de ausência.


segredo
o despertador
me sussurra
todo dia
: "tua cama
está vazia"


descoberta
aprendi o amor
depois dos cinqüenta

antes eu

caminhava
pelo mundo


idas e vindas
havia sempre
um desencontro
entre meus olhos
e a poesia:

ela ia, eu esperava
ela chegava, eu partia


notas

- Christina Hermann e Solange Firmino são pessoas voltadas para a cultura de modo geral e a literatura em particular. As duas estão me entrevistando no Orkut, na comunidade Café Filosófico das 4. O nível das perguntas é excelente e estou tendo muito prazer em bater esse papo com elas. Vale a pena dar uma olhada, clicando aqui.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:58 AM.:.

Domingo, Agosto 21, 2005

postado ao som de Frevo Mulher, com Zé Ramalho

sensório
na ausência de mãos
a língua desperta
o querer na pele

o branco do ventre
emoldura a escuridão
da saudade


palavras
as palavras são
como cães
que me mordem

queimam o sol
com suas línguas
vermelhas

atropelam
casas e murmúrios

se tento detê-las
me sorriem sarcásticas


despertar
café sem mesa
pão embolorado
na manteiga
desliguei o sol sem querer
aticei a canção do Caetano
Drummond embebedou um poema
a vassoura dormiu na praia
uma árvore passeou
no meu quintal

e eu continuo ressecado

:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:50 AM.:.

Quarta-feira, Agosto 17, 2005

postado ao som de Mudaram as Estações, com Cassia Eller

revoada
as abelhas que sobraram
no quintal depois da chuva
pensaram que eram poemas
e se puseram felizes
na sombra do sol


vice-versa
existem certas manhãs
em que meus poemas
não alcançam meus olhos

existem certos poemas
em que meus olhos
só enxergam as manhãs


sessão nostalgia

non sense
há uma cadeira
branca de balanço
cochilando no canto
da varanda
onde as margaridas
de setembro
namoram o mar

a moça pálida
dança com a velha
vassoura de piaçava
e pateticamente
aguarda
o sonho no vento
que não sopra
jamais

:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:54 PM.:.

Segunda-feira, Agosto 15, 2005

postado ao som de Paixão, com Kleiton & Kledir

pestanas
o que é poesia
senão o que
enxergo no nascer
do dia?


atração
o rio esfregava-se
sinuosamente
na areia do leito
buscando
o gozo das marés


super eu
não sou herói
nem super nada
nem cowboy
nem justiceiro
de estrada

sou apenas
meus dedos
meus olhos
(e meus medos)


NOTAS

Blogs que publicaram poemeus nos ultimos dias. Aos donos dos ditos, o meu agradecimento. Aos que me dáo o prazer de vir aqui me ler, a minha recomendação para que visitem esses excelentes blogs.

- Balaio Vermelho de Moacy Cirne
- Li por Aí, de Airton Soares
- Letra Viva, de Ana Ramiro

:: Postado Por Nel Meirelles :: 6:39 PM.:.

Terça-feira, Agosto 09, 2005

postado ao som de Born to be Wild, com Steppenwolf

mitose
um pedaço em mim
morre de sonhos
o outro
resiste ao dia

um pedaço em mim
engole vida
o outro
cospe poesia


sujeito a chuvas e trovoadas
não haviam nuvens descascando a manhã. as gaivotas ainda dormiam nos galhos das ondas escorridas de noite. o homem apoiava a velha árvore que queria desabar sobre a paisagem. meus pés me empurravam até a pedra. e nem a fome detinha os passos. quase sol e eu ainda nadava nos meus olhos. era uma presença-distante-perto que me atordoava. passei vinte vezes em frente ao ponto de parada. e não parei. medo, talvez. do assalto de duas lembranças, um beijo e um sorriso. o menininho que puxava o pai pelo carrinho, me olhou e sorriu. eu vi luz nas dobras das folhas verdes de agosto.


lambretas e gumex
há uma gangue
de formigas vermelhas
dançando rock´n roll
no armário da cozinha

usam casaco de couro
bota comprida
e morrem quando
bebem inseticida


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:36 AM.:.

Sábado, Agosto 06, 2005

postado ao som de Chorando no Campo, com Lobão

moto perpétuo
que haja sempre
um dia e mais
outro dia
onde eu possa
reviver-me
no hálito azul
da poesia


matutino
desperta e traz tua boca
pra dentro da minha boca

esmaga minhas coxas
com a pressa das tuas coxas

espreme meu desejo
com a premência do teu desejo

me vive com a ânsia
de quem ainda não viveu


paz
eu mergulhava tão fundo nas águas mornas que minhas pernas não tocavam jamais a borda do sol. a areia clara deitava sonhos nos pêlos do meu peito com ar de moça-querendo-beijo. haviam algumas garças esparças compondo a paisagem da manhã. o ar de tão claro espelhava o brilho dos meus olhos. foi assim que a lua me encontrou, quando veio espiar a festa da casa do vizinho. e eu sorri.


NOTAS

CULTURAIS

.Jardim Botãnico
Não é somente a nossa flora exuberante a principal atração do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Existem ateliês que sempre abrem as portas ao público em junho, durante o Circuito das Artes. Isso não significa, entretanto, que devam ser esquecidos no resto do tempo. Sempre no primeiro fim de semana do mês acontece um minicircuito batizado de Ateliês Abertos no Jardim Botânico. A estréia acontece hoje, dia 06 de Agosto e amanhã, domingo 07 de agosto. Vale a pena e visitar e de quebra aproveitar a paisagem do JB.


.Exposição
Na terça dia 9, um bom programa é visitar a exposição Visões, que vai ser inaugurada, às 19h, na Mínima Galeria (Marquês de São Vicente 189). São desenhistas, fotógrafos e artistas plásticos, todos mostrando suas criações.

OUTRAS
- um poemeu foi parar no flog da minha amiga Vera Lúcia. Basta clicar aqui . A ela o meu obrigado.

- Recebi da minha amiga Denise Teixeira Viana o folheto Leiamigos, que é enviado por correio para diversas pessoas. Neste número mais recente a Denise publica alguns poemeus, para minha alegria. Meu beijo e meu muito obrigado, Denise.

- o Rio de Janeiro continua sendo. E será sempre.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:20 PM.:.

Quinta-feira, Agosto 04, 2005

postado ao som de A Nossa Casa, com Arnaldo Antunes

fertilidade
depois da chuva
brotam poemas
entre
os paralelepídedos
e as calçadas


grilos
pego o violino
toco, desafino
o grilo não
: é mestre
da canção


nascer na freguesia
era ainda manhãzinha
perdida nos braços
da noite
e o barquinho já corria
arisco pelo rastro
do sol nascente


motivos
não me faz mais sentido escrever pedras e gatilhos. troquei todas as teclas e telas da minha mão. escrevo porque sem a poesia não há junção de terra e céu e se perde o horizonte no meio do jardim. escrevo porque há um turbilhão de palavras nos meus olhos. escrevo porque também tenho o direito de ficar preso no elevador e sentir medo. escrevo, enfim, porque sou um composto químico que resulta nesta carne movida a palavras e nostalgia.


notas

- ontem à noite, em meio à febre e aos lençóis, precisei do calor do teu corpo.

- como pode um peixe voar? pássaros mergulham, cigarras são acesas. eu fico aqui, olhando a vida pela janela e tentando entender o que sou.

- poesia e política, politicopoesia, poesilítica. combina? acho que não. me corto em dois e separo a indignação da poesia. e olho com desdém pras quem se deixa poluir pelas benesses do poder.

- violência pra valer, de todas as formas e tipos. mesmo assim, o Rio ainda é a capital cultural do Brasil. e nem adianta chorar ou reclamar.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:17 AM.:.

Segunda-feira, Agosto 01, 2005

postado ao som de Casa da Lua Cheia, com Claudio Nucci

enchente
derramo palavras
onde o sonho
persiste

traço rumos
na solidão
porque a poesia
existe


traineira
não sabia mais o que era a verdade ou o que era a estrada. olhava e enxergava a falta da luminosidade que tanto o fizera ouvir pardais. ainda assim, colocava o barco para ranger seu velho casco e partia. cada onda molhava sua pele e o sal adornava a vontade enorme de ser. não importava se os peixes haviam faltado à festa. queria era adormecer de novo e acordar poema.


comme il faut
há dias em que
meus olhos
são secos
como as peles das
mariposas
que adormecem
nos becos


opção
se a poesia demora
um tanto de horizonte
no fim do dia
se minha mão
não descasca versos
nas barrancas dos rios
se morrem as gaivotas
entre as areias dos baixios
prefiro o silêncio
a gritar palavras tortas


NOTAS

- minha amiga Denise Teixeira Viana me deu o prazer de publicar alguns poemeus no seu site. a ela o meu agradecimento e o meu beijo.

- ao pessoal que mora na Ilha do Governador: toda última quarta-feira do mês acontece uma noite de poesias no restaurante Gruta da Ilha. vale a pena comparecer.

- ainda não descobri o mistério das moscas. zumbem sem parar até morrer. seria vontade de dançar uma polca com carlitos? ou simplesmente porque é a missão delas neste mundo? zumbir, zumbir e zumbir?

- segunda-feira. ouço da minha janela os gritos e chilreios das camisas brancas voltando às escolas. é bom estar vivo e aprender sempre.

- gosto de balas de hortelã enquanto escrevo. gosto do gosto da tua boca quando te amo.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:50 PM.:.