Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Segunda-feira, Setembro 26, 2005

postado ao som de Meditação, com Maria Rita

uirapuru
os anos
acalmaram
a minha boca
tantos foram os
punhais enferrujados
cicatrizando as palavras
mortas

o que me restou de medo
é esse latido de estrela
assustando pacificamente
os viventes da noite


paisagem II
um grilo lambe
sem graça
o sonho do sol
adormecido


preservação
são muitos os caminhos
que perco nas asas das garças
soltas nos manguezais

meu vôo - entretanto -
sempre é precedido
pelo frio das águas
nos pés


liquidação
há dias em que me inauguro de novo. sem festa e sem alarde. um reencontro entre um dia que vai, uma noite que não chega e a vontade de ser simplesmente assim como sou. não ouço os ventos nem conto os segredos que as goiabeiras me sussurraram nas tardes de verão. faço do renascer a razão da vida.


monções (republicação)
parir um poema é partida sem volta. cada verso e cada verbo escurecem a cor da retina. as unhas roxas, a pele clara, o esterno à mostra são as estradas por onde transita a vida, no instante curto entre a noite e o dia. a voz que geme traz a dor do gozo, como insolente gaivota que despreza o tempo e se eterniza. escorre na gaiva e nunca encontra o vento.


sinais (republicação)
um ponto é um ponto. uma virgula ninguém sabe o que é. começo, meio ou fim. fico entre ambos, sou ponto-e-vírgula perdido no parágrafo principal do texto inacabado. não quero dois contos. nem dois pontos. quero apenas espreitar os sinais nesta emboscada de caça à poesia.


e daí?
eu uivo o quanto quiser. quero matar o silêncio de uma vez por todas. quero os ouvidos sorrindo da canção nova que ainda vou escrever. e ponto.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:55 AM.:.

Quarta-feira, Setembro 21, 2005

postado ao som de Retratos e Canções, com Sandra de Sá

títulos e honrarias
não sou membro
de nada
não fundei nada
nem tenho
estantes de mim

não sei filosofia
nem sonho
gritos de liberdade
nem sopro
as dores do mundo

só sei das palavras
que se amontoam
como equilibristas
e explodem em poesia
debaixo dos meus olhos
admirados


criação
não mexo nas coisas
de Deus
(nem nas boas
nem nas ruins)

minhas mãos é
que insistem
nessa doida
teimosia de querer
recriar o mundo


navegação
me atravesso
de norte a sul
entre veias e pulmões
e pedaços de lembranças

meus atalhos
são sempre assim:
impercorríveis
pelos meus olhos


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:28 AM.:.

Quinta-feira, Setembro 15, 2005

postado ao som de Chorando no Campo, com Lobão

fábula
era só uma penca de uvas, despencadas sobre o tampo da mesa. cada uma estava simetricamente alinhada com a outra e todas se alinhavam com o horizonte. nada de esmagamentos, nada de mordidas. só as uvas, ali. deitadas. adormecidas. maduras. e não haviam raposas admiradas.


tarantela
a vida
é um barranco
de arroio

uma epidemia
um aboio

um descuido
da poesia


verbo
sorri a voz
na madrugada

me pus verbo
e recitei lençóis
em poemas azuis


mutação
meninos florescem
e esquecem seus brinquedos
nas bucetas
das putas tristes
da rua Alice


notas

- Blocos Online, da minha amiga Leila Miccolis, está cada vez melhor. Novas colunas, novas idéias e mais poemeus por lá. Vale a visita. Basta clicar aqui.

- Moacy Cirne levou pro seu Balaio Vermelho meu poeminha anímico. Além disso meu deu o prazer e a honra de me considerar para o prêmio Folha Porreta, entre tanta gente talentosa que existe por aí. Valeu, Moacy!

:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:03 PM.:.

Segunda-feira, Setembro 12, 2005

postado ao som de Mucuripe, com Raimundo Fagner

auto-retrato
sou as palavras
que não digo

sou o que o tempo
escreve nos meus dedos

sou os claros invernos
e as primaveras distantes

sou enquanto ainda
posso ser mais
do pouco que sou


anímico
meus desejos
vagam pelo teu corpo
na madrugada
como assombração
de beira de estrada


noturno do sono
quando a minha garganta
recolher o último
espasmo da tua lua
me despirei de olhos
e adormecerei
meus cabelos
nos teus brancos seios


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:49 AM.:.

Segunda-feira, Setembro 05, 2005

postado ao som de Cão sem Dono, com Lucinha Lins

ringue
sabe por que nunca deixei de respirar meus cantos de quintal? simplesmente porque preciso de luz nos pés e de silêncio nas mãos. voar alto requer paciência e asas mornas. se não, o vento passa tão rápido que o poema se perde atrás da sombra.


running man
sobrevivi a vinte e três
curtas eternidades
e a quarenta e sete
pedaços de horizonte
antes de respirar
dálias e gerânios


descaso
existe um terreno baldio
no meio da minha cabeça
entre o mato e as pedras
sobrevive um poema seco
esperando a chuva
para dançar na lua


lição de casa
descobri porque
as flores murcham
quando desaprendi
o gosto do amor


notas culturais

. Newton Fedozzi é um amigo de quase 40 anos. Pessoa inteligente e antenada com o mundo, além de tudo escreve super bem. Leia o artigo dele sobre estatísticas de desarmamento no Opinião.

. Entre palavras E-Zine - fruto da idéia e do esforço da nossa jornalista/escritora/poeta Simone Salles, o zine vai ser inaugurado dia 19 de Setembro. Nomes de peso fazem parte dos quadros da revista. Eu tive o prazer de ser convidado para coordenar a coluna "Contando um Conto". No próximo post informo os detalhes do Zine.

. a banda Perdidos na Selva, uma das boas novidades da música nacional, se apresenta amanhã dia 6 de Setembro, no Canecão. O show tem início as 20:00 horas. Pessoal do Rio, vamos prestigiar?

. Nelson Freire na Sala Cecília Meireles - Nelson Freire toca duas vezes, esta semana, na Sala Cecília Meireles, como parte da programação comemorativa dos 40 anos da Sala. O programa de hoje :um prelúdio de Bach (órgão) transcrito para o piano; a sonata da "Marcha Turca", de Mozart; dois Debussys, e o "Carnaval" de Schumann. Quarta-feira, o recital Chopin: a grande Fantasia op. 49, em fá menor; Noturnos, Mazurkas, a Balada n 3, a "Barcarola" op. 60 e a Sonata op. 58, em si menor. Imperdível;

. em breve, Poezine. Poesia em papel e tinta. Aguardem esta boa novidade.

. minha Ilha do Governador completa 438 anos. As suas praias, embora não sirvam para banho, são deliciosas para caminhadas nas manhãs de domingo, com direito a café com pão na padaria da esquina. As enormes amendoeiras, mangueiras e outras árvores, os barcos encostados esperando a hora de viajar, dão o ar bucólico que eu tanto amo. Entre o mar, as árvores, as proas e popas dos barcos e os pássaros quase sempre encontro poemas azuis espalhados querendo voar.

. Você já leu o Blocos Online hoje? Ainda não? Pois é hora de ler. Basta clicar aqui e se deliciar com textos excelentes, notícias e coisas ligadas à arte em geral. Trabalho maravilhoso dos amigos Leila Miccolis e Urhacy Faustino. (por acaso tem poemeu hoje lá)..


:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:58 PM.:.