Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Terça-feira, Janeiro 31, 2006

postado ao som de I only have eyes for you, com Etta James

porcas, parafusos e samambaias
inaugurar um poema
é diferente
de apertar parafusos
nos buracos do horizonte

inaugurar um poema
é perfurar a terra
com um prego
e desencavar a fonte

inaugurar um poema
é reinventar
o que ainda não existe


crônicas da cidade III
os ônibus
resfolegam
de calor
param
descomem
andam
comem
e dormem
com os faróis
inutilmente
acesos


rabiscos remanescentes de erros e rasteiras
escrevo porque é a forma que tenho de subsistir. escrevo porque as palavras são impulsionadas pelo ritmo da poesia. não deixo, entretanto, certos pedaços escondidos de mim aqui e ali. esses eu os reservo. são meus segredos que só são revelados nas madrugadas e nas tardes de domingo. minhas palavras não querem construir ilusões, apenas redesenhar a vida.


das rinhas de galo e dos vendavais
quando comem quatro
dois sonham de fome

quando um se esconde
o outro esquece o nome

quando muda o vento
uma estrela se consome


há dois anos atrás:

serial killer
caço poesia
mato versos

os que
me escapam
jazem aqui

dispersos


nota
hoje tem poema de Theo Alves, poeta potiguar, no Telescópio

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:09 AM.:.

Domingo, Janeiro 29, 2006

postado ao som de Disparada, com Jair Rodrigues

caso de amor
já era tarde da noite
e o mar não dormia
:roçava a pele
na areia clara de lua


crônicas da cidade II
sombras entre carros
(pessoas são pedaços
de asfalto)


pileque
um bar
duas cervejas
um rabo de galo
torresmo
e o poema
vomitado
sobre a mesa


canção da lua cheia em noite de mula-sem-cabeça
sou o que sou. minha natureza é a dos grilos pescadores.dos sapos cantores. sou o que sou.não tenho pedaços de nada presos nas minhas calças. sou o que sou: um pouco de poesia. um tanto de amor.


há um ano atrás

cobertor
a pele
que me cobre
é a mesma
que me desnuda
de teu nu

:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:36 AM.:.

Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

postado ao som de Love Has no Pride, com Jane Monheit

escolha
éramos dois: a estrela e eu. noite após noite. iluminando e sendo iluminados. caminhos e trilhas prontos à espera. mas a estrela decidiu banhar-se nos rios de França. "Je vous salue, Marie". mergulhou tão fundo nas negras águas que perdeu o tanto de céu que ainda havia a ser percorrido. eu segui a montanha, desci abismos, escalei amendoeiras e ainda lembro da estrela, quando minhas asas secam ao sol.


carnificina
exaures minha vida
pelos dedos
febris que const
roem palavras
que não ouço

o verbo já soprou
em outro verão
e o vento cru volta
a ressecar meus olhos

quando o círculo
se fecha
de novo
eu amo
e sangro


segredo
poetas
recolhem letras
onde os olhos
só enxergam vazio

poetas
escandalizam luares
e cavalgam mariposas
nas noites de frio

poetas
são uma espécie
de nascente de rio


notas

- poemeu no Balaio Vermelho. conhecendo o Moacy, isso é motivo de orgulho. a ele o meu abraço e meu muito obrigado.

- Rosella é uma moça italiana que gosta das coisas do Brasil. Ela me deu o prazer de traduzir para o italiano alguns poemeus e publicou-os no seu blog Diario di Bottega. fico muito agradecido pelo gesto. eis como ficaram alguns desses poemas na língua de Dante:

spavento
mi sono svegliato verde
come foglia di pitangueira*
(devo essermi addormentato albero)


serenata
due cani
ululando
nella notte vuota:
il poeta
e la poesia


há dois anos atrás:

semeadura
semeio tua nudez
nas vagas
noites de lua
sorvo tua presença
on the rocks
lentamente
cálice de jade
bricks on the wall
again

mudo o filme
casso a canção
inexata de amor
que compus
caço desejo
no olhar
desvairado

nua mulher
no meu desnudo peito
respira meu ar
alimenta minha fome
perpetua meu(teu) gozo
(des) poético
e tão poesia
afinal...

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:55 AM.:.

Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

postado ao som de Fim de Tarde, com Claudia Telles

sistema métrico
dizem que o mundo
acaba duas letras
depois do z
e que é pra isso que serve
o abecedário
: para medir fins
e não para brincar
de juntar poemas


decisão
não quero mais
construir noites
nem esses rios
escorrendo nos
meus pés

quero a cadência
da tua boca
tonta
na minha
tonta boca


incêndio
meu corpo
tem a estranha
tendência
de arder antes
que as chamas
o consumam


redivivo
e de novo o trem se encaminha para o abismo. nem as rochas são capazes de detê-lo. há uma urgência insana de cair, de tropeçar, de tornar-se pedra também. porque nas pedras, rãs e besouros deixam marcas e restos mortais. no vento não.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:18 PM.:.

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

postado ao som de Candela, do CD Buena Vista Social Club

um disco
Rapahel Rabello é um dos monstros sagrados da música brasileira. Dino 7 Cordas ocupa lugar destacadissimo entre os grandes violonistas de todos os tempos. Junte-se os dois e um punhado de chorinhos e eis um DISCO. Conversa de Botequim, Sons de carrilhões, 1 x 0, Odeon e tantos outros ganham uma roupagem nova e magistral, nas mãos e cordas destes dois monstros. O disco é da Kuarup e é imprescindível na coleção de quem ama a boa música brasileira.


são sebastião
as ruas
me atravessam

as esquinas
guardam meus pedaços

as largas avenidas
amaciam meus passos

o sol do arpoador
me descobre a alma

bangu, campo grande, realengo
são trilhas de longas caminhadas

tijuca, ipanema e são cristóvão
canções de todos os carnavais

e minha mangueira
plantada no alto do morro
é a alma desse rio de janeiro
que vive e revive em mim


mãos
as mãos dos adultos
entendem os caminhos
da criação

as mãos das crianças
criam sem saber de caminhos
: traçam carinhos


criação
sou filho do nada. sem orgulho, sem pedaços de tempo grudados na alma. surgi porque assim tinha que ser. surgi porque é necessário cantar minhas verdades e espalhar pelo chão árido, mesmo que de nada adiante, essas sementes de poesia que teimosamente brotam dos meus olhos.


crônicas da cidade I
aprendi a atravessar
avenidas e tempestades
vendo as lagartixas brancas
correrem atrás de sombras


há um ano atrás:

bicho da noite
volto ao escuro. meus olhos são fachos de lua que iluminam as trilhas do caipora e os passos tortos do saci. me embrenho cada vez mais nas madrugadas procurando a fímbria da manhã. nunca encontro. dou meia-volta-meia-lua e repiso meus cometas sem medo. sou bicho da noite. meu verso é o açoite que assombra as criaturas do dia.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:33 PM.:.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

postado ao som de A Mais Bonita, com Carol Saboya

inocência
passarinho não reza
quando come cigarras
: fome não
carece de perdão


orquestra
quem precisa de violinos
quando os sanhaços
tocam no fim
da tarde?


susto
acordei verde
como folha de pitangueira
(devo ter adormecido árvore)


nota
minha amiga Elaine Pauvolid me deu deu o prazer de publicar um poemeu na sua revista Aliás (link aqui ao lado).


há dois anos atrás..

gaiola
saber-se livre é reconhecer-se irremediavelmente preso no amor


serenata
dois cães
uivando
na noite vazia:
o poeta
e a poesia

:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:04 PM.:.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

postado ao som de Bicho de 7 cabeças, com Zé Ramalho

transmutação
a poesia
é o estado natural
das palavras

nós é que transformamos
as palavras
em lesmas
e camundongos
e as jogamos pela
janela afora


panegírico
visitar poemas
é como respirar
orvalho e primavera
com nariz de verão


safari
dentro de mim eu me insurjo contra pães e pessoas. pesco sapos e borboletas com ar de quem jamais caminhou entre as mangueiras rosadas do quintal. e mesmo assim encontro sob as pedras pedaços de crisálidas e nacos suculentos de palavras que eu desconhecia. talvez seja essa a sina que me foi dada: me caber no espaço infinito de um poema.


há dois anos atrás:

ne me quitte pás
tuas coxas
frouxas
repousam
nas minhas
áridas
coxas

tua boca
seca
dessedenta
minha boca
ávida

teu sexo
doido
vivifica
meu consumido
sexo

teus seios
túrgidos
alimentam
meus obscenos
sonhos

teu gozo
- torrente -
deságua
em meu incontido
corpo

teu sorriso
sonolento
depois
meu sorriso
adormece

:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:54 AM.:.

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

postado ao som de Alma de Violinos, com Dino 7 Cordas e Raphael Rabello

verão
o entardecer
apunhala as cores
e traz a lua
como testemunha
do silêncio das cigarras


biblioteca
já não quero mais deixar os livros soltos sobre a mesa. eles rumam sozinhos pelas tardes e desencontram-se das minhas mãos. eu os prefiro solenemente perfilados, como um exército de palavras a me libertar do medo.


temporal
uma velha árvore
choveu folhas
quando encontrou
o sono dos rios secos


circo
esses versos
que despejo todo dia
não são pedaços de mim
:sou eu todo
desfeito em curvas
e saltimbancos


há dois anos atrás

serventia
poesia
serve
pra ser
poesia

:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:31 PM.:.

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

postado ao som de Camila, com Nenhum de Nós

emboscada
a alcatéia
que em mim
espreita o mundo
reza silenciosa
aos pêlos do peito
e chama o sol
nas manhãs de inverno


suicídio
se me destroço
pedaço a pedaço
é porque a poesia
é amante esfaimada
que quer sempre
mais de mim


uma velha canção
minha voz é como disco arranhado recorrente e escorrente. vou e volto nos verbos e me perco em pronomes pessoais ou não. revolvo cada substantivo e aniquilo impiedosamente os adjetivos banais. busco mais que linguagem e língua. busco muito mais do que o falar algaraviado das crianças nas praças dos bairros pobres. busco mais que o matraquear sincopado das bocas anciãs. busco a essência, o princípio, o alfa, o mundo perdido na minha mesa de trabalho.


TELESCÓPIO
um poema de André Ricardo Aguiar está postado hoje no Telescópio


há um ano atrás...
fome
vem
me dá comida
que o espaço
aberto entre meus dentes
esconde doídas serpentes
que preciso alimentar
de amor


resoluções de ano novo
- visitar e ler mais os amigos
- parar de fumar
- escrever um romance
- pescar robalos imensos
- consertar o regador do jardim
- descansar os pés na lua, nas tardes de verão
- amortecer golpes de espada com a voz
- cantar e cantar e cantar
- trocar as cordas do violão
- rever quem não vejo há tempos
- perdoar e ser perdoado
- me filiar a um partido apolítico
- fundar uma ONG que preserve o poeta em extinção
- descascar abacaxis
- tirar sonecas depois do almoço
- casar com uma rapariga doceira
- sacudir a poeira dos casacos guardados em naftalina
- ler Quintana e Manoel de Barros e Drummond até me embebedar
- Gonzaguinha e Caetano e Chico sem medo de ser feliz
- lustrar os sapatos velhos
- mais praia da Freguesia nas manhãs de sol
- viver
(eu sou ruim de cumprir resoluções)

:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:00 AM.:.