Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Sábado, Fevereiro 25, 2006

postado ao som de Flores em Você, com Carol Saboya

às vezes, ao visitar blogs amigos, sou tentado a deixar comentários em forma de poemas. e o faço. para este post de carnaval selecionei três deles. não existe relação temática ou temporal entre os poemas. existe apenas o alinhavo da poesia.


I
acorda a vida
acorda a poesia

tranca a dor branca
assola perfume e peito
roda
rola
rege
rói
ruge

a trova
assimilada no seio
- muda


II
salvar o como
antes que o porquê
o devore.


III
pedro
ama
ana
pedra
de troco
no tranco

ana
ama
pedro
fechado
na tranca
da trança

a vida amansa


há dois anos atrás:

born to kill
consumo
no teu corpo
o ato:

de prazer
tu morres

de prazer
me mato

:: Postado Por Nel Meirelles :: 7:30 AM.:.

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

postado ao som de Have You Ever Seen The Rain, com Credence Clearwater Revival

epitáfio II
quando eu morrer
quero que as minhas sobras
alimentem as cigarras canoras
os hipocampos saltadores
e as saudades de umas
tantas tontas flores


conceitual
o que é um poema
se não um pedaço
de sonho incrustado
entre palavras?


felicidade
ela sorri
um sol
quando dorme
e eu me derreto
todo


notas
a) Ivo Korytowski, editor do blog Literatura e Rio de Janeiro, publicou por lá o meu poema sobre o Rio de Janeiro. A ele o meu agradecimento e o meu reconhecimento pelo trabalho que realiza em mostrar e exaltar esta cidade, que apesar de todas as mazelas é tão maravilhosa que chega a doer no peito a vista de tanta beleza.

b) meu agradecimento também a Adélia Thereza Campos, dona da sesmaria Oceanos e Desertos, por ter me promovido de agricultor de palavras a comparsa e por ter publicado um pequeno e despretensioso poementário que lá lá deixei. meu respeito e meu carinho a ela.


há um ano atrás:

natividade
nasci onde
os sonhos nascem
:lá pelos idos de outubro

a poesia que me acalenta
é resto de placenta
roubada do ocaso

:: Postado Por Nel Meirelles :: 2:06 PM.:.

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

postado ao som de Três Meninas do Brasil, com Moraes Moreira

pernas e penas
nos pernambucos
minhas mãos
holocaustam favos
de abelhas
e pitombas tristes

nos pernambucos
os rios deslizam mangues
e os carangueijos voam
um pas-de-deux

nos pernambucos
as minhas feras frívolas
são intumescências de frevos
e de maracatus


garoa
saudade não
se desmancha em
pedaços de papel
fotos amareladas
e palavras vãs

saudade deslesma-se
e rega os trilhos
das manhãs


tradutório da linguagem despenteada das coisas
parte 1

carangueijar - construir as carapaças dos carangueijos. colocar argamassa em pedras para escorar caramujos.
desarrodear - pintar perto do horizonte com os dedos. escrever pequenas lesmas nas folhas de alface.
tangerinar-se - consertar as cores das lágrimas que viram nascentes de rios. resistir aos pedaços de lua espalhados nas praias.


sinfonia
bob dylan
no fundo do armário
like a rolling stone

no insuspeito
das notas
o possível de poesia


há dois anos atrás:

noturno de dezembro
a lua se esparramava
na praça
de antônias
margaridas
setembrinas
colombinas
tantas que não lembro mais
era tango
era jazz
ausência e tato
(era a luxúria
do recato)

:: Postado Por Nel Meirelles :: 1:02 PM.:.

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

postado ao som de No More Lonely Nights, com Paul McCartney

suicídio
toda vez que as minhas feras te estraçalham a carne, é a mim que elas devoram na verdade.

madrugada
preciso me cobrir
de palavras
quando sinto frio

por travesseiro
uma vírgula de rio

(no estuque do teto
mosquitos esperam
a hora de me adormecer)


mapa da mina
conheço teus meandros
teus requintes
teus riachos
tuas sutilezas

conheces meus medos
meus acintes
meus penachos
minhas tristezas

ainda assim te mato
ainda assim me matas


oração
meus olhos
a despiam da roupa
e das vergonhas

e eu me enluarava
entre poros
saliva e licores


há dois anos atrás

torrente sanguinária
meu coração
aninha
trilhas e riachos
por onde meu sangue
latino-americano
serpenteia
alucinadamente
sin perder la ternura jamás

meu coração
tórrida torrente
onde sonhos
giram e giram e giram
transformando
sangue
em poesia

:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:54 AM.:.

Sábado, Fevereiro 04, 2006

postado ao som de As Pedras se Cruzam, com Paulo César Pinheiro

terrorismo
explode um poema
no olho da solidão

mortos e feridos
espalhados
no colchão

sangue solto
na minha mão
sem a tua mão


manhã
acordei de cigarras. o sol estendeu alvuras sobre a mesa. o café soltou sons de multidões por entre as fronhas. acordei de sustos. nem me dei conta que atrás de mim o último bem-te-vi já havia descolchado e partido. na mesa plantaram-se um pedaço de pão, uma faca magra e um disco quebrado de Gardel.


mãos
tenho mãos de
abarcar caminhos
e alvoreceres

tenho mãos de
pressentir a gravidez
da carne

tenho mãos de
escurecer rios
e tardios poros

tenho mãos de
deslizar reentrâncias
e delicadezas

tenho mãos de
apagar a sombra
do meu olho nu
e oco


sentença
por que tem sempre um janeiro depois de um janeiro? janeiros deveriam ser abolidos do calendário. janeiros deveriam ter suas asas cortadas. janeiros são nefastos. janeiros são tudo o que me assusta e me corrói. janeiros deveriam perder o direito ao verão e serem mergulhados em todos os julhos do tempo.


rock rural
as porteiras
descansam riachos
de pinhais

tangerino-me
abrigo cupins
nas pernas
me desolo
da manhã


há dois anos atrás

inércia
almofadas deitadas
inertes sobre a cama

aflora no meu corpo
tua ausência sentida
nas curvas
dos lençóis insones

tua pele travestida
de cetins e sedas
livros caídos dolentes
sobre o chão de ardósia
amor espreitando
nos livros da cabeceira

este poema
escorrendo
dos dedos
úmido como teus lábios
povoa minha boca
com a luxuria
do toque
da tua língua
na minha


dica

"Você, que está com este disco nas mãos, preste atenção. Procure manuseá-lo com cuidado, pois está tocando, neste exato instante, em algo cada vez mais raro hoje em dia: um espaço de delicadeza".

Heloisa Seixas, um texto primoroso, no encarte do magistral CD "Vida Noturna" , do genial Aldir Blanc, onde é acompanhado de extraordinários músicos, grandes parceiros etc e tal, como João Bosco, Guinga, Moacyr Luz, Hélio Delmiro e João Lyra (violões), Cristóvão Bastos (piano/acordeom) e Ubirany (caixeta). É meter mais umas pedrinhas de gelo no copo e abrir outra garrafa, já que a primeira não deu nem pra começar.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:59 AM.:.