Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Terça-feira, Março 28, 2006

postado ao som de Dindi, com Alaíde Costa

suicidio II
uma cigarra
jogou-se
pela minha janela

morreu
atrás da mesa
sem canto
nem alforria

(e ninguém ligou)


desconhecido
só a imensidão
da estrada
pode revelar
nos meus olhos
a poesia das asas
das libélulas


luz
todo ponto
futuro
apaga
um pouco
desse escuro


coincidência
em toda foto de poeta que eu vejo, os olhos do retratado estão voltados para o céu. pensava eu que era uma forma de buscar inspiração. mas acho que não. acho que todo poeta tem torcicolo mesmo.


manifesto
é justo que as palavras caminhem pelas florestas. é justo que cada uma delas escolha uma árvore - nova ou velha - para proteger-se das águas. é justo que as palavras temam os que teimam em pré-fabricar poesia. é justo que elas entrem em greve e exijam, pelo menos, o direito de serem palavras soltas.


notas

bucolico
anche se io
smontassi
montagne
resterebbero i granelli
di grano a nascere
dagli occhi delle lavandaie

este é meu poema bucólico traduzido para o italiano pela Rosella, legítima dona do blog Diario de Bottega. volta e meia ela traduz alguns poemeus e os publica por lá. deixo o link, o caminho até ela e o meu agradecimento.


- Ricardo Mainieiri, poeta gaúcho, publicou em seu blog meu poema mens sana. obrigado, Ricardo.

- meu amigo Diovvani Mendonça anda espalhando poesia e música nas Minas Gerais.. e está aprontando uma coisinha com poemas dele e meus. tomara que dê certo!

- Ana Peluso, escritora, poetisa e gente fina, escreveu um poema inspirado no meu mens sana. o poema dela, do qual gostei demais, está postado no blog Poetar com Deadline. vale a visita não apenas por causa deste poema, mas pelo todo do blog.

- poema de Marla Queiroz, hoje no Telescópio.


há dois anos atrás:

sampa em medo
vi sampa clara
com suas tortuosas
trilhas banhadas
de manhã no dezembro

um surdo mudo
despedaço de serra
libertário-libertino
que marca o eco
do meu pavor
de me chocar com um momento
qualquer do infinito
e deixar de ser

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:05 AM.:.

Terça-feira, Março 21, 2006

postado ao som de Lumiar, com Beto Guedes

esconderijo
não preciso mais dos ventos. posso caminhar pelas areias sem que meus cabelos sejam arrastados para o mar. existe a certeza do sal e da sombra. existe sempre uma curva e uma foz de rio. existe também a poesia escondida inutilmente entre os grãos de areia.


bucólico
mesmo que eu
desmontasse
montanhas
restariam os grãos
de trigo nascendo
dos olhos das lavadeiras


esfinge
não é sempre
que acho a poesia
por entre as pedras
do jardim

às vezes me perco
buscando absurdos
amarelos e sonoros
verdes
em vão


quintal de rua
há no pátio uma árvore velha. em volta dela os quatis e os coelhos rastejam suas fomes. do outro lado, um pacato formigueiro aumenta os ruídos, como amplificador de luzes. as frutas que ainda pendem dos galhos, nada mais fazem do que esperar a hora de cair. finalmente e para sempre.


nota
no dia 02 de maio estarei em Itaperuna, a convite da minha amiga Luciana Pessanha Pires, da Academia Itaperunense de Letras, participando do Sarau Cultural "Café, música e poesia".

o fato em si já seria bem interessante e prazeiroso, mas se torna de muita importância quando se sabe que o objetivo maior do projeto é incentivar a leitura e tem como público-alvo alunos do Ensino Médio.

posteriormente colocarei uma nota aqui contando as novidades do evento.


há um ano atrás:

noturno XXXIV
a noite encosta
a barriga no horizonte
e pare mais um dia
somente de estrelas

:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:46 PM.:.

Terça-feira, Março 14, 2006

postado ao som de Valsa da Solidão, com Roberta Sá

inundação II
hoje um rio
aconteceu
entre as minhas árvores

eram tantas águas
que pássaros
bicavam estrelas

enquanto isso
eu molhava meus pés
na borda do espelho


revolução urbana
vou derreter
asfaltos
e demolir
concretos
com dois versos
e um violão

eu quero é
grilos
sabiás
morcegos
e lesmas
nos meus poemas
antes que se misturem
às paredes
doidas da cidade
e me deixem só.


poeta novo
hoje no Telescópio, um poema de um novo poeta; vale a pena ler.


dia da poesia
descobri que existe um dia da poesia. que engraçado! pra mim, todo dia era dia de poesia, todo dia era dia de pintar nuvens, de escoar marés pelo ralo. de agora em diante, vou me conter. não ponho mais poesia fora do dia. assim foi decretado. amém.


antologia
todos os versos
arrumadinhos
(de paletó, gravata
e cabelos penteados)
um em fila do outro

só meu verso
doido é marginal
anda rasgado
e contesta papel

prefere ser livre
entre sonho e o céu


há dois anos atrás

desleixo
o amor escancara
as gavetas

vai
- brisa -
volta

é eternidade
de instante

: perfura sonhos
na alma

(mata às vezes)

:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:14 PM.:.

Quarta-feira, Março 08, 2006

postado ao som de To Sir with Love, com Lulu

calvário
não consigo definir
onde germina o poema
e onde começa o sonho

não sei os caminhos
por onde as palavras
escoam a poeira

continuo - entretanto -
buscando os pequenos sóis
escondidos nas pontas
da estrela


rodam moinhos e os redemoinhos rodam sozinhos
cultivar palavras já não me basta. preciso que elas caminhem com seus próprios pés. preciso que elas - essas palavras tontas - possam desviar-se dos precipícios em cometas. preciso fazer alguma coisa a mais do que simplesmente compor uma sinfonia de Beethoven. preciso rasgar a poesia.


vampiro
se fosse eu
o mestre do tempo
daqui não sairia
sem beber-te a poesia


há um ano atrás

desgaiola
um verso
cantarola
no peito
e me engana

pia solto
na vida
(passarinho-de-quintana)


notas

- post novo no Telescópio. vale a pena ler Valéria Freitas.

- dia internacional da mulher - espera-se que sendo eu um ser politicamente correto, dedique o post de hoje às mulheres, pelo seu dia. mas não vou fazer isto. as mulheres com quem convivo são tão especiais que todos os dias são dias delas e não apenas um. deixo então algo para ser lido 364 dias ao ano. :-)

patético
pensava que a vida era apenas uma maneira de ser mais do que simplesmente a fera latente no peito.
pensava que a vida era só um modo de sonhar.
pensava que a vida era imensamente doida e doída, como as gargalhadas dos aprisionados nos próprios desesperos.
pensava tanto sobre a vida e - espantado - descobriu que ela sempre coubera na boca de uma mulher.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 9:40 AM.:.