Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Sexta-feira, Abril 28, 2006

postado ao som de Aquarela, com Toquinho

dúvida
confesso não saber
se ainda sou noturno
ou se a fome das estrelas
me jogou no dia
e me esqueceu por lá


modus operandi
é preciso fritar
em vento agitado
todas as flores e folhas
e formas e frutos

somente depois
a poesia pode
ser levada aos
olhos das pessoas
embrulhada em
papel celofane


encruzilhada
não gosto de borboletas
que escondem as asas
quando o sol as olha

prefiro minhas formigas
particulares
simetricamente mastigando
segredos na mesa da sala
sem medo da luminosidade
do tempo


:: Postado Por Nel Meirelles :: 4:20 PM.:.

Terça-feira, Abril 25, 2006

postado ao som de A Palo Seco, com Belchior


nota
recebi do Poeta Mário Cesar seu livro Maturi. é uma leitura forte e reflexiva. no próximo post vou falar um pouco do universo poético do Mário. enquanto isto, convido você a ler seus poemas no Faca de Fogo


inércia
porque há dias em que a alma repousa. porque há dias em que o vento não consegue restaurar a poesia nem inflar sorrisos. porque existem momentos em que é impossível reler o mundo, apesar dos olhos críticos. aí eu não escrevo. apenas respiro e tento manter-me vivo, no meio do caos e da inconseqüencia.


(releitura de um velho texto)
dez tragadas de cigarro

O computador me chamando pra ele, me puxando, me provocando. Venho e me sento na poltrona. Acendo meu cigarro.

1
Sei que é tempo de ser feliz. É tempo de prestar atenção nas coisinhas que passam por mim e que até ontem eu não olharia com mais cuidado. Até mesmo o latido insistente do cachorro vira-latas preto do vizinho de frente tem beleza. A voz dele é grave e eu a diferencio das vozes dos demais cães da minha rua. Voz de tenor, Pavarotti se apresentando para uma platéia onde me incluo, nesta manhãzinha de outono. Ouvinte atento dele e da vida.

2
As lembranças da infância na Ilha do Governador, das pescarias de madrugada com os amigos e do prazer de cozinhar tatuís na beira da praia. De tirar a cocoroca do anzol e ouvir seu ronco. Sou um homem feito de sons e voltado para os sons. Daí meu lado músico, minha porção piano/violão, minha porção Tom Jobim e Caetano.

3
Algumas moedas espalhadas ao léu sobre a mesa, um maço de cigarros pela metade, um isqueiro, duas canetas, óculos escuros, dois cds de conteúdo desconhecido, um pedaço da minha alma caído atrás do monitor. Preciso juntar isso tudo e organizar a mesa.

4
Esvazio o cinzeiro e penso em escrever alguma coisa que faça você, meu enésimo leitor, me achar um intelectual. Quem sabe um ensaio sobre os caminhos da poesia moderna brasileira, ou de como a cultura negra americana veio se fundir com elementos da nossa cultura..... Não, esse não sou eu! Cansei de ler imbecilidades e de pseudo-intelectuais vomitando besteiras para meia dúzia de aduladores. Cansei de ler pseudo-intelectuais inexpressivos criticando nossos ícones, talvez como uma patética tentativa de autopromoção... e a corja de aduladores babando... Isso me enoja. Despejo o conteúdo do cinzeiro no vaso e puxo a descarga. Filme do Almodóvar de novo não!

5
Escrever assim é novidade pra mim. Experimento. Rabisco. Busco. Abobrinhas perdidas talvez. Você gosta de ler uma abobrinha de vez em quando? Ou prefere poesia? Ou prefere ainda um conto? Quem sabe um dia desses tento escrever um conto ou invento uma entrevista que nunca dei ?
Prefiro escutar o CD da Gláucia Nasser.

6
O telefone toca. É a milésima vez que procuram um tal de Soares no meu número. Ou ele é uma pessoa muito querida ou está devendo a Deus e o mundo. Eu quase não recebo telefonemas, mas e-mails de montão. E quer saber? Sinto saudades de receber uma carta manuscrita, de reconhecer a caligrafia no envelope e começar a ficar feliz antes mesmo de ler a carta. Você reconheceria a caligrafia do seu melhor amigo?

7
Recebo um e-mail com um pequeno poema. Gostei. É bem a minha cara. E continuo sem conseguir escrever unzinho que seja. Talvez seja uma certa alergia a coisas que escrevi e nunca mostrei/postei; talvez as minhas artérias poéticas estejam ficando entupidas e eu precise fazer um cateterismo na alma. Não sei.

8
Me dispo de vergonhas e exponho sonhos aqui. Crio coisas na cabeça e transporto pro coração. Insanidade, quem sabe? Escrever me traz de volta pra realidade, pras coisas práticas. Lembrei que preciso beber água. O copo ainda está sujo sobre a pia e estou com preguiça de lavar. Bebo da garrafa mesmo.

9
Abro o chuveiro. pego um sabonete novo no armário. Phebo. Gosto do cheiro de limpeza dele. Mas fico indeciso entre o banho e terminar esse cigarro. Decido continuar. A água, eu vou deixar escorrendo. As palavras também. Que elas saiam como quiserem, assim mesmo.

10
Planto você nua e colho prazer. Me embalo nos teus cabelos e descubro recantos secretos, desvios, dobras, cheiros novos, sabores que nunca provei antes. Quase me arrepio. Ou me arrepio. Pele e pele. Quer saber? Eu queria mesmo era um beijo da tua boca agora.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:29 AM.:.

Segunda-feira, Abril 17, 2006

postado ao som de Caminito, com Carlos Gardel

pegadas
meus pés
carregam areias
de todos os ventos
que me consumiram um dia

meus pés
descalços
são pedaços
dessa mistura
insana
de barro e poesia


voracidade
o menino
era tão faminto
que deslizava entre
luzes e marfins
e nunca sossegava
os olhos


há um ano atrás

gênesis V
a estrela
feto
a estrela
inseto
a estrela
seguia
a estreita
poesia


nota


Lançamento
O amigo escritor Moacir Lopes, autor de A ostra e o vento, Belona, latitude noite, Maria de cada porto, Onde repousam os náufragos, Por aqui não passaram rebanhos e outros, lançará hoje, no Palácio do Catete o seu romance As fêmeas da Ilha da Trindade.

Evento: lançamento do romance As fêmeas da Ilha da Trindade
Local: Museu da República, Catete, Rio de Janeiro
Data: 18 de abril de 2006 - hoje.
Horário: a partir das 19 horas



:: Postado Por Nel Meirelles :: 12:18 PM.:.

Terça-feira, Abril 11, 2006

postado ao som de Benazir, com Chico César

big-bang
poesia
é quando o universo
se mistura com as palavras
dos imperfeitos homens


trilhos
as luzes
se perderam de mim
quando trilhavam
o destino da poesia

daí o verso
vazio
o dedo murcho
e a fala escura


velório
o homem morto
exposto na mesa
mascara a tristeza
na mão cruzada
: não é mais carne
nem homem
nem nada


notas

- Jarod, do blog Virando o Jogo publicou alguns poemeus por lá. a ele o meu agradecimento pela divulgação.

- aniversário: este mês o Fala Poética está completando dois anos initerruptos on-line. através dele conheci grandes poetas, cronistas e contistas; fiz algumas boas amizades e principalmente me conheci melhor. a todos que me dão o prazer e a honra de ler meus humildes escritos, o meu agradecimento a a minha reverência.

- excelente programa cultural
SabaSauers apresentam: Movimento inVerso sexta, 14 de abril - 20h

Subam a bordo da palavra e venham experimentar, fazer e respirar a arte. Um espaço aberto às múltiplas manifestações artísticas. Tragam seu talento e sejam bem-vindos! Poesia, musica, teatro e tudo mais!

Toni Pelosi e suas composições maravilhosas
João Pedro Roriz com sua Poesia Teatral
Guilherme Scarpa e Leila Barreto em ¿Atrás da Porta¿
Under the Sun e sua música cenográfica
E muitas outras surpresas!

Barteliê
R. Vinicius de Moraes, 190 - apto 03
Ipanema (esquina com Nascimento Silva)


do tamanho ínfimo do poema
não é o número de palavras nem o tanto que escrevo. não é a umidade espalhada pelas letras e nem um eventual sopro de fogo. escrevo porque é vital. escrevo porque sem poesia sou apenas um buraco negro engolindo meu próprio universo. escrevo porque minha imperfeição me impele a isto.


há dois anos atrás

infarto
eu não me incomodo com mais ou menos rabiscos nos meus olhos. quando escrevo, sou tão egoísta que me permito exibir essas crias como se fossem poesia. não são. são sístoles e diástoles que pulsam nas minhas mãos.


serventia
poesia
serve
pra ser
poesia

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:50 AM.:.

Terça-feira, Abril 04, 2006

postado ao som de Jade, com João Bosco

magia
há poemas na noite
saltando pirilampos
entre as minhas mãos


tradutório da linguagem despenteada das coisas (parte 2)

cigarrar - atravessar janelas escuras e esquecer-se do resto.
carraspanar - revolver as entranhas com uma faca e expor vísceras no balcão.
corujar - revoar insetos da noite.


vendaval
meu sopro
é um deserto
que se entranha
pelas reentrâncias
das portas fechadas

meu sopro
é uma multidão
bradando poemas
pelas pontas e curvas
das tantas estradas


peleja
poesia
é como canto
de cigarra

cada poema
é um pedaço da morte
do poeta


salada
música, poesia, rufar de tambores, ciciar de cigarras, zumbidos de mosquitos, marulhar de ondas e eu. colhendo aqui e ali, lendo, ouvindo e remexendo nas coisas que me são permitidas. nem tudo o que eu quero, eu sei. mas quase tudo o que posso. meus livros e discos e versos e flores e cantos e contos são vistos, sentidos e me são - principalmente - permitidos. daí a vontade de compartilhar esses momentos-coisas.


Notas

- dica 1

o escritor e poeta Paulo Urban está lançando seu livro SANTOS DUMONT, BANDEIRANTE dos ARES e das ERAS. Muito mais que uma simples biografia, o livro é uma obra que se propõe a resgatar o verdadeiro sentido da alma nacional explorando aspectos fundamentais da vida daquele que foi, acima de tudo, um brasileiro cuja existência esteve dedicada à humanidade, em nome do bem comum. Eu, como ex-membro (formalmente) da FAB e ainda ligado às coisas da aviação em geral e da nossa FAB em particular, estou na fila do gargarejo para ler este livro.

- dica 2


Braseiro
(MP,B/UNIVERSAL)

Aos 24 anos, Roberta Sá lança seu primeiro CD colhendo inúmeros elogios. Ela começou a chamar a atenção ao ter a gravação de "A Vizinha do Lado" (Dorival Caymmi) incluída na trilha sonora da novela "Celebridade". A voz suave e melodiosa agradou a muita gente que perguntava de quem era aquela voz. Produzido por Rodrigo Campello o CD tem o samba como base. A faixa que abre o disco reforça esse conceito: "Eu sambo mesmo com vontade de sambar/É só no samba que eu sinto prazer", diz Janet de Almeida em "Eu Sambo Mesmo", música imortalizada na voz de João Gilberto. Pedro Luís compôs "No Braseiro" especialmente para Roberta e ainda participa da faixa com o grupo A Parede. Eles também comparecem na faixa "Ah, se eu vou" de Lula Queiroga. "Casa Pré-Fabricada" (Marcelo Camelo) foi pescada pela cantora no CD do grupo Los Hermanos "Bloco do Eu sozinho". Ney Matogrosso também dá o seu aval dividindo os vocais em "Lavoura" (Teresa Cristina/Pedro Amorim). "Cicatrizes" (Miltinho/Paulo Cesar Pinheiro) tem o auxílio luxuoso do MPB-4, grupo responsável pelo lançamento da canção em 1972. Roberta resgata uma parceria pouco conhecida de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho - ambos entusiastas do trabalho da moça - "Valsa da Solidão". O samba de Caymmi que alavancou sua carreira também está no repertório. O CD conta com músicos do primeiro time como Marcos Suzano, Armando Marçal, Dirceu Leite, Wilson das Neves, Zeca Assumpção, Marcos Nimrichter, entre outros. Uma estréia promissora. (texto de Marcus Fernando)


há dois anos atrás:

vampiro
sou inocente
deste destroçar
de veias e poesia

quando escrevo
sangro as palavras
e entrego a
hemorragia

:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:12 AM.:.