Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Terça-feira, Maio 30, 2006

postado ao som de Lua Curiosa, com Renato Teixeira e Almir Sater

ponto a passo
teus passos
desaguam no burburinho
dos meus olhos

tuas mãos
resgatam os oceanos
das minhas praias cansadas

teus olhos
perpetuam os espantos
dos meus espantos

tu me és e me sabes
porque te sabes e te sou


vôos
era alto, bem alto. azul misturado com azul, aqui e acolá pequenos pontos de cinza. verde envolvendo marrom. pedaços de coisas que eu não conseguia ver ou definir. mas era tudo tão belo. visto de cima. sem perdas, sem sustos, sem medos. tudo tão belo que eu fiquei pensando: será que eu poderia viver pra sempre aqui no alto? o pouso me acordou.


injustiça vista da minha janela em uma manhã de sol
um sanhaço hediondo
devorou sem piedade
um pequeno marimbondo
e saiu voando em paz
(totalmente em paz)


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:43 AM.:.

Quarta-feira, Maio 24, 2006

postado ao som de Are You Lonesome Tonight, com Elvis Presley

declaração dos direitos da poesia
faço versos
ao silêncio
enquanto a noite
se aquieta na cama

faço versos
como quem sussura
sonhos nos olhos
de quem ama

faço versos
porque a poesia
me queima como fogo
que arde sem chama


paisagem de manhã de primavera
o sol revelou
assustado
as cores do vento

umas poucas nuvens
sob uma velha amendoeira
anoiteciam poemas
e sorriam nos teus lábios


temperatura
será a chuva? será que o cinzento das árvores misturou-se às minhas próprias cores sem que eu ouvisse? será que as gotas dançando na vidraça são bailarinas? preciso tentar descortinar esta verdade. preciso entender que não preciso ser chuva nem nuvem nem gota d´água. preciso descobrir em mim os caminhos do verão.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:42 AM.:.

Sábado, Maio 20, 2006

postado ao som de Cachaça Mecânica, com Erasmo Carlos

poezia
tenho a mania
de andar tocaiando
as copas
das árvores

é lá que vivem
os poemas
em seus ninhos


caminhada
de tanto que morri
tenho os pés como
raízes cravadas
no concreto
e banhados pelos ralos
por onde
escorrem meus olhos
assustados


diário
o que é um sábado
se não um domingo
ainda não nascido?
o que é um poema
se não um pedaço
de poeta escondido?


viajante
eu queria estar aqui, estar ali, estar acolá. minhas asas entretanto estão cortadas e o máximo que consigo voar é das mãos até o umbigo. talvez por isto eu sinta estas grades tão próximas. talvez por isto eu busque a chave.

:: Postado Por Nel Meirelles :: 8:43 AM.:.

Terça-feira, Maio 16, 2006

postado ao som de So What, com Miles Davis e John Coltrane

nascimento
era uma tarde
adequada para cigarras
e girassóis

o poema
desvencilhou-se
das samambaias
e nasceu como água
de refrescar


plenilúnio
enquanto as estrelas
encolhem as asas da noite
essa lua enorme
me engole pela janela


reflexão
tem dias que eu me pergunto se vale a pena continuar buscando poesia. tem dias que eu sinto que as palavras não chegam ao seu destino. ou são ignoradas ou são vistas e esquecidas. nessas horas me dá vontade de matar as formigas, esquartejar as cigarras e enterrar de uma vez por todas estas estradas por onde venho caminhando tontamente. será que existe mesmo poesia? será que vale a pena acreditar nela? ou é apenas uma outra historinha de curupira e papai noel?


código
gosto de inventar
poemas com o que
encontro nas raízes secas
do sol

gosto de inventar poemas
como quem descasca
a vida


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:42 AM.:.

Sábado, Maio 13, 2006

postado ao som de Rapaz Caipira, com Renato Teixeira

mapas, arco-íris e temporais
o que é o meu corpo
neste encontro de águas
com o teu?

um igarapé sereno
ou água de montanha
engastada nas pedras?

o que é o teu corpo
quando umedeces
meus sonhos?

matéria prima de vida
ou brasa de queimar
matas?

como ser chuva
sem tuas mãos
para me proteger?


despertar
no tampo do fogão
versos se aquecem
antes do nascer do dia

uma sombra faminta
devora nacos de poesia


há dois anos atrás

café na cama
quando a preguiça acorda
preparo o café
em três palavras
sonolentas
encontro tua mão
sem pressa
e provo na tua boca
o gosto do pão


mãeternidade
não me cabem mais
abraços
beijos
carinhos

ou palavras
de sapoti

quero o eterno
da minha mãe


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:27 AM.:.

Quarta-feira, Maio 10, 2006

postado ao som de Odeon, com Toquinho e Paulinho Nogueira

travessia
em frente, o mar agitava-se em estertores de anoitecer. nem mesmo a lua conseguia abafar os ruídos e os esgares. um pouco mais além haviam luzes correndo por sobre o rio cinzento. muitas. eu, parado no meio, olhava assustado sem entender-direito-sem-saber se era preciso molhar o mar ou espetar os pirilampos com os dedos. na dúvida, deixei-me ficar estático, esperando outra chance de brilhar na imensidão.


solo
seis vezes
seis planos
seis morros
seis luas
seis cordas
minhas bordas
tua mão
teus olhos
meus azuis
teu tom
minha canção
tua voz
meu violão


café com pão de queijo
(para Diovvani Mendonça e Válber Meirelles)

um arrasta as costas
nas montanhas das minas
tão gerais quando alterosas

o outro capina café em rios
e caminhos de pretas pedras
imaculadas de sua negritude

dois poetas e seus violões
escavando noites e canções


há dois anos atrás:

dualidade
vivo entre os versos que escrevo
e as notas da canção
que se espalha
com o vento morno da tarde,
como luz de luar se banhando
nas águas da Baia da Guanabara
vista do Aterro do Flamengo
quando vagueio pela madrugada
no meu carro ouvindo Caetano.

vivo entre sonhos e verdades,
entre nuvens esparsas
que pairam sobre esse meu céu particular,
esse pedacinho mesmo que fica aqui,
em cima da minha casa,
e que visito todos os dias
por entre os ramos
da mangueira carregada
de frutas e de sonhos.

vivo entre o rubro do meu peito
e o negro da noite,
compondo o rubro-negro
da minha paixão de bola.

vivo entre ser ou não ser
poeta e músico,
entre cantar uma canção nova
ou reentoar aquela do Beto Guedes
que ilumina os rios de Lumiar.

vivo intensamente cada instante de luz
e amo plenamente cada estrela
das minhas madrugadas insones.
vivo. renasço.
morro. cresço.
esqueço. reaprendo.
sou dualidade perene.
assim. solene.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:49 AM.:.

Sexta-feira, Maio 05, 2006

postado ao som de Cantador, com Válber Meireles

convicção
para cada aurora
que se desfaça em manhã
haverá sempre
um sopro de vida
latejando no pulso


paisagem
eram duas pedras pretas
deitadas indolentes
na curva do rio

eram duas pedras pretas
bebendo do sol
na manhã de frio


opinião
mais uma discussão sobre o que é ou o que não é poesia. quer saber? poesia é tudo que pode ser poesia. e ponto final.


saudade
tenho sentido
a ausência das
formigas vermelhas
no armário da cozinha

teriam morrido
ou desistido
de virarem poemas?

nota
dia 02 de maio estive em Itaperuna, no evento Café, Música e Poesia, organizado pela Luciana Pessanha Pires, professora, poeta e membro da Academia Itaperunense de Letras. Estava tudo super bem feito, os convidados foram recebidos com muita fidalguia. Agradeço à Luciana pelo convite e faço pública a minha satisfação por ter feito parte da seleta lista de convidados.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:04 AM.:.