Nel Meirelles por
Nel Meirelles. Nascido em Pernambuco, criado pelo mundo afora. Esse sou eu. O resultado exato do que vivi.

fiz do ato de escrever a ponta do meu iceberguezinho particular. descasco as palavras sem piedade. cavo e recavo e revolvo a poesia que vejo nas coisas e faço dela não a inquietude ou o caos, mas a ordenação do meu próprio ato de viver.

dimensão

nos meus espaços finitos

convivem infinitos espaços


Telescópio - Nel Meirelles


Aliás - Revista de Cultura - Elaine Pauvolid
Blocos Online - Leila Miccolis
PD Literatura - Asta Vozondas






Terça-feira, Julho 25, 2006

postado ao som de Senhas, com Adriana Calcanhoto

mínimos contos

Lirismo
Ele tocava violão. Ela tecia sonhos. Ele sonhava, ela cantava.
E nunca se encontravam.
Mas toda história tem que ter um final feliz.
Hoje ela sonha canções e ele canta seus sonhos em Si bemol maior.

Domingo
Um toque de batom nos lábios, lápis nos olhos. Ela está pronta.

- Amor, vamos ao cinema?

- Que cinema, mulher? Hoje tem futebol na televisão! Sossega!

Ela volta pro quarto e se despe, a última cena do filme que não viu escorrendo no rímel misturado com lágrimas.


Desencontro
Ele chega. Beija-a rapidamente e vai ao banheiro.

Talvez assista ao Jornal Nacional mais tarde. Aquele negócio no escritório hoje o deixou preocupado. Isso é o que importa naquele momento pra ele.

Ela mal se move da poltrona em frente ao computador.

Dedos rápidos, face iluminada pela luz do monitor, concentrada. E-mails, mensagens instantâneas, sentimentos e sensações. Isso é o que importa naquele momento pra ela.

Na mesa da sala, a janta esfria solitária.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:25 AM.:.

Terça-feira, Julho 11, 2006

postado ao som de Admirável Gado Novo, com Cássia Eller

"Poderoso para mim è aquele que descobre as insignificâncias: do mundo e as nossas. Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios."
Manoel de Barros


rebanho
nem sempre as palavras são meu reflexo no espelho. podem ser lembranças recém-despertas, podem ser vidas mínimas que encontro nas ruas. as palavras, elas não me fazem. eu as caço, as aboio e as empurro ladeira acima para que compreendam que podem ser (também) poesia.


delírio
as formigas não choram
quando morrem
: se transformam
em traços dourados
na areia

migração
a lâmina curva
do rio rasga estradas
e estrelas em mim
e se perde nos confins
dos fins-do-mundo


lembranças
há gosto de eternidade
em poemas e canções
que empilho sobre
árvores-bailarinas-de-vendavais


:: Postado Por Nel Meirelles :: 10:43 AM.:.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

postado ao som de Stardust, com a Glenn Miller Orchestra

suicídio
estiquei tanto
a linha do horizonte
que as estrelas arrancaram
seus pregos
e se jogaram
tolamente no mar


comparação
hoje o homem
me parou na rua
com olhos de fome
e boca de pedir

a minha fome fez-se
torta de sonhos
e vazia da vontade de beber
o que ainda restava de vida


procissão
é um dia depois do outro
nessa fila inconsistente
de cacos de degraus
restos de praias
e canções esquecidas de mim


pequena cena
dizem que a história se repete. eu mesmo já encontrei caramujos descansando à beira-mar, enquanto os pardais brincavam de comer bichinhos na areia. mas toda vez que olho, confesso que encontro nuances diferentes nas mesmas coisas. umas mais claras, outras mergulhadas em uma certa escuridão. mas a essência é sempre a mesma: a poesia que gruda em mim, que me atormenta, que me faz escrever compulsivamente. como se vida fosse apenas poesia.

notas:

- mais poemeus traduzidos para o italiano pela Rosella, do Diario di Bottega. estou me acostumando mal.

- um poemeu publicado na revista eletrônica Desfolhar.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 11:50 AM.:.

Segunda-feira, Julho 03, 2006

postado ao som de When I´m Sixty-four, com John Pizarelli

oração
a sombra impiedosa
devorou o tanto
de luz que ainda
restava nas tardes


julho
que me importa
se a chuva despenca
ladeira abaixo?

que me importa
se minhas roupas
completam a paisagem?

é inverno
e por toda parte
há frio em mim


renascimento
uma folha seca cinza
espera em calma
o instante
de reverdejar a vida


obscuridade
de que adianta toda a poesia que bebo cotidianamente se não consigo digerir a vida? de que adianta me embebedar com versos ácidos se minhas sombras sobrevivem ao caos? talvez seja preciso reescrever a história e devolver à poesia a liberdade perdida.


:: Postado Por Nel Meirelles :: 5:44 PM.:.